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Frases-->DICIONÁRIO DA TEORIA LITERÁRIA E ESTÉTICA DE MONTEIRO LOBATO -- 01/03/2007 - 22:47 (Nelson Ricardo Cândido dos Santos)
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DICIONÁRIO DA TEORIA LITERÁRIA E ESTÉTICA DE MONTEIRO LOBATO

organizado por Nelson Ricardo C. dos Santos



A

ACADEMIA (Brasileira de Letras)
1. A Academia está descendo porque a sina deste país é a descida. O primeiro erro da Academia foi fixar em 40 o número de membros. A única razão para a escolha desse número, ou a dum número qualquer, só pode ser um precedente — a menos razoável de todas as razões. Por capricho dum rei, a França organizou uma academia de 40 — e os nossos pitecos, zás, academia de 40! Mas se a França, por um critério bastante cabo de esquadra, acha que os imortalizáveis devem ser 40, parece-me pretensão bastante pitecóide que um país como o nosso também pretenda tanto. Vem daí que para um Machado de Assis, um Bilac, um Neto, valores reais, torna-se necessário meter lá "enchimentos", como o Dantas e outros. E a própria Francesa recorre a enchimentos — uns marqueses, uns duques, uns prelados. O resultado vai ver, cá na nossa, que acabarão entrando até presidentes da República, porque não há razão para que a um general Dantas Barreto não se siga um Marechal Hermes da Fonseca.. E assim a nossa Academia irá descendo, como tudo mais em nossa terra, até ficar uma panelinha de gente equívoca. Acho, pois, que um homem de letras visceral como você não deve nunca pensar em academizar-se. Muito preferível que de fato te imortalizes com três ou quatro romances a Flaubert, dos sólidos e imperituros. A Academia está ficando a Guarda Nacional da Literatura Indígena. (1:331)
2. A idéia da Academia falhou por birra minha. Não quis transigir com a praxe lá - a tal praxe de implorar votos, e eles são extremamente suscetíveis nesse ponto. Um acadêmico aqui de S. Paulo chegou a dizer: "Se o Lobato me pedisse o voto, claro que eu o daria; mas não pedindo, prefiro votar num pedaço de pau". Ora, não há gosto em fazer parte dum grêmio de mentalidade assim e não pedi nada a ninguém; fiz mais: mandei outra carta desistindo da minha candidatura. O Carlos de Laet não leu essa segunda carta em sessão, alegando que deixaria a Academia mal. "Seria o mesmo que pedir uma moça em casamento e depois escrever que não a quer mais. Todos ficam fazendo mal juízo da honra da "des-pedida". (2:244)
3. Fui convidado para dirigir um jornal e estou pensando. Não me seduz o jornalismo. "E a Academia?" perguntas. Não sei, Rangel. Tenho medo de academias, coisa algemante, e não possuo o "feitio acadêmico", já o disse o Vicente de Carvalho. A Academia é bonita de longe, como as montanhas. Azulinha. De perto... que intrigalhada, meu Deus! Que pavões! Quanta gralha com penas de pavão lá dentro!... E depois, aquela farda! Já figuraste o grotesco do fardão? Eu, metido naquilo! Você, metido naquilo! O Ricardo, metido naquilo, com o espadim de cortar papel à cintura... Não sei por que um acadêmico fardado me lembra caixão de defunto. Os galões, talvez. (2:282-283)
4. Aquela Academia é o maior ninho de intrigalha do mundo. Houve tanta coisa neste meu período de entra-não-entra que fiquei avaliando que inferno é a vida dos desgraçados mortais que se imortalizam com aspas. Um conselho te dou: nunca penses em entrar para lá ou para qualquer outro grêmio. É neles que a gente se desilude totalmente dos homens — que vê como são bestas e mesquinhos. O meio de vivermos em paz neste mundo está no isolamento. Diz o ditado que quem se mete com crianças sai mijado - e sai cagado quem se mete com adultos. (4:139)
5. Recebi a tua última. Não podes entrar para a Academia por causa da "desordem da tua vida urbana"; no entanto, ela admite a frescura dum J. do R.. Os imortais, a contar de Júpiter, sempre viram com indulgência os Ganimedes... Enfim, são brancos, digo imortais, lá se entendem. Eu acho a Academia uma bela coisa, depois que o Alves a enriqueceu. É positivamente um negócio imortalizar-se vitaliciamente. Porque duma maneira ou doutra a renda do legado há de reverter em benefício dos frades da ordem. Talvez isso explique o recrudescimento do avança que se nota agora a cada vaga. (13:40-41)

ADJETIVOS
A observação sobre os teus adjetivos pode ser generalizada. Apliquei-a aos teus porque me veio enquanto te lia. Nos grandes mestres o adjetivo é escasso e sóbrio — vai abundando progressivamente á proporção que descemos a escada dos valores. Um jornalistazinho municipal, coitado, usa mais adjetivos no estilo do que Pilogênio na caspa.
Eles pingam adjetivos. Contei os adjetivos em Montaigne, Renan e Gorki. Sóbrios. Shakespeare, quando quer pintar um cenário (um maravilhoso cenário Shakespiriano!), diz, seco: "Uma rua". O Macuco diria: "Uma rua estreita, clara, poeirenta, movimentada, etc". O Macuco espalhou mais adjetivos pelo Belenzinho do que gonococus - e nunca houve uma espingarda que o abatesse!...
Tolstoi só usa o adjetivo quando incisivamente qualifica ou determina o substantivo. Tenho que o maior mal da nossa literatura é o "avança" do adjetivo. Mal surge um pobre substantivo na frase, vinte adjetivos lançam-se sobre ele e ficam "encostados", como os encostados das repartições públicas. A moda de hoje é o adjetivo eciano. Aquele "cigarro lânguido" do Eça fez mais mal à nossa literatura do que a filoxera aos vinhedos da Champagne.
Isto me veio ao ler em teu Diário a "mancha" sobre o lampião da sala. Se expulsasses dali todos os adjetivos encostados, aquilo ganharia oitenta por cento. (1:106-107)
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Ver: ESCREVER 5 (2:51-52)
ESCRITORES: CAMILO CASTELO BRANCO 3 (2:52-54)

ARTE
1. Na penúltima carta dás como definição de arte do Taine a sua definição de obra d arte, coisa muito diferente. Definição de arte foi coisa que o sensato e cautelosíssimo Taine teve o espírito de não tentar, para não dar a topada que todos os definidores vêm dando desde a Grécia. Todas as definições de arte que conheço degeneram em noção, e isto pelo absurdo de aplicar o processo definitório, coisa puramente científica e lógica, ao fato mais incientífico e ilógico da humanidade - a Arte. Com os sextantes mede-se a altura das estrelas, mas não se medirá nunca a altura do amor duma menina. Quanto à tua questão de "arte científica", não pesco um xis. Ciência — conjunto de conhecimentos sobre as leis dos fenômenos; arte — concretização de emoções. Misturar estas coisas é tentar a combinação química de ovos e batatas. (1:91-92)
2. Dizes que Inocência não te agradou porque não tem muita arte. Mas que é arte senão esse dom de criar simpatias, provocá-las, revelá-las, traduzi-las? Que valem as torturas artísticas dum Goncourt perto duma página de Manon Lescaut ou Paulo e Virgínia? Arte, esse torturado de borzeguim medieval ou o encanto, a simpatia humana de Manon? Bem sabes que Manon Lescaut é livro eterno - e Goncourt já passou. A arte deste só o é para um punhado de homens afins, num certo tempo — a arte de Manon é para toda gente, em todos os tempos.
A arte de Inocência me parece eterna porque é simpática, como a definiste — e que é simpatia? Uma correlação, uma corrente de indução entre A e B. Existe alguma arte que não produza esta corrente? E não deixa de ser artística a obra d arte que a produz. Quem lê hoje uma obra antiga, se esta obra não traz incubada a força da simpatia que se traduz no prazer da leitura? (1:126)
3. Acho tua arte subjetiva em excesso — e a grande arte é objetiva (Shakespeare, Tolstoi, Zola, Balzac, Molière). Descreves um caso isolado, único, quando a arte está no contrário, na universalização; o particularismo cabe à ciência. (1:173)
4. A arte nasce quando o homem cessa de lutar contra o meio adverso. Nasce como florada conseqüente á completa evolução da planta. Na Grécia, a benignidade do clima e a amenidade da natureza não ofereciam resistência ao homem, e as forças que este, em caso contrário (caso da Índia, do Brasil, da Sibéria, por exemplo), despenderia em reações contra o meio agressivo, convergiram para enseivar o instinto estético, dando origem à maravilhosa eclosão das artes clássicas. (7:71)
5. A obra d arte não tem valor intrínseco. Não há valor intrínseco. O valor de um poema reside em o número de espíritos por ele emocionados. As obras más caem por escassez de partidários. (7:72)
6. A arte nasce quando o homem domina o meio adverso; como um luxo, como floração da planta após a vitória desta sobre todos os óbices opostos à sua desenvoltura. Na Grécia, a amenidade ambiente, não opondo resistências ao homem, permitiu que, em vez de dispersar suas forças contra a natureza agressiva, ele as convergisse para a inflorescência.
Nós no Brasil ainda estamos a crescer, a enfolhar, a radicar. Por isso o que chamamos arte não passa de simples reflexos de artes alheias. Arte como a grega - em bloco, conglomerada, todas reunidas em torno dum mesmo tronco (um ideal racial) como vergônteas de igual pujança - tê-la-emos um dia, no ano 2.000 ou 2.500 quem o sabe? E tê-la-emos porque não há planta que não venha a flor. Se vem a rosas ou a flor de abóbora, já é outro caso. (7:99)
7. Sem a intervenção da arte é impossível transmitir aos pósteros a sensação exata do que se passou. Só a arte sabe perpetuar o que foi a vida. (8:71)
8. As belas artes, filhas, uma da rêverie, qual a música; outra, da sensação visual, como a pintura; outra, da álgebra das proporções, como a arquitetura; outra, da escolha e estilização da forma tátil, como a escultura; outra, da ideação vocabular, como as belas letras: todas se condicionavam a épocas e povos como peculiaridades. Na Grécia de Péricles, a escultura; na Itália de Leão X, a pintura; na Alemanha do século 18, a música; na França, o teatro; na Inglaterra, a novelística. (8:117)
9. Arte não é isso; arte não é reprodução fiel; arte é vida; só é artista aquele que reproduz a sensação da vida em toda a sua intensidade com tudo que ela tem de bom e mau, de coerente e de absurdo, de feio e de formoso, de estúpido e gracioso. A arte é uma objetivação do subjetivo, e como objetivar sentimentos quando estes não existem, quando estes não vibram dentro do artista? (11:129-130)
10. O valor duma obra d arte cota-se pelo seu coeficiente de temperamento, cor e vida - os três valores que lhe travam a unidade, promanantes, um do homem, outro do meio, outro do momento. A arte descentrada dessa tripeça de categorias e que tem como fator-homem os "heimatlos" (homem de muitas pátrias, posto em evidência pela guerra); que tem como "terroir" o mundo e como época o Tempo, ser uma soberba alcachofra quando o volapuk senhorear o globo: por enquanto, não!
Donde uma conclusão lógica: o artista cresce à medida que se nacionaliza. É mister que a obra d arte denuncie ao mais rápido volver d olhos a sua origem, como as raças denunciam pelo tipo individual o grupo etnológico. (16:46)
11. Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem da latitude nem do clima.
As medidas da proporção e do equilíbrio na forma ou na cor decorrem do que chamamos sentir. Quando as coisas do mundo externo se transformam em impressões cerebrais, "sentimos". Para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em desarranjo por virtude de algum grave destempero.
Enquanto a percepção sensorial se fizer no homem normalmente, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá "sentir" senão um gato; e é falsa a "interpretação" que do bichano fizer um totó, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes. (16:60)
12. Ciência e Arte nasceram para viver juntas, porque Arte é harmonia e Ciência é verdade. Quando se divorciam, a verdade fica desarmônica e a harmonia falsa. (17:96)
13. As crianças vinham descendo a escada dos pedreiros e breve apareceram fora do templo.
— Corram aqui! — gritou-lhes Dona Benta. — Estão perdendo uma coisa única no mundo - a frisa do Partenon explicada pelo Senhor Péricles.
Os meninos aproximaram-se.
— Que tal acha estes cavalos, Pedrinho? — perguntou Dona Benta. — São da Tessália.
O menino examinou-os com ares de entendido.
— Bons, sim, vovó. São "manga-largas" legítimos - só que têm o focinho muito fino. Os cavalos que eu conheço não são assim.
— Nem os daqui — disse Péricles. — Os escultores não reproduzem a natureza tal qual é. Modificam-na num certo sentido, com uma certa intenção. Arte é isso.
— Mas então o belo não é natural "escarrado", vovó? — perguntou o menino.
— Não, meu filho. Se fosse, os melhores museus do mundo seriam as escarradeiras, e a maior das artes seria a fotográfica, porque a fotografia reproduz exatamente a natureza. A arte é uma estilização, isto é, uma falsificação da natureza num certo sentido, como acaba de dizer o Senhor Péricles. Você bem sabe que não é nas fotografias que encontramos o belo - é nos desenhos que modificam o real segundo o gosto do desenhista. (27:150-151)
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Ver: DRAMA (1:174)
ESCRITORES: MACHADO DE ASSIS 3 (7:333-338)

ARTE MODERNA
Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo, e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura e regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma — mas caricatura que não visa, como a verdadeira, ressaltar uma idéia, mas sim desnortear, aparvalhar, atordoar a ingenuidade do espectador.(...)
"Arte moderna": eis o escudo, a suprema justificação de qualquer borracheira.
Como se não fossem moderníssimos esse Rodin que acaba de falecer, deixando após si uma esteira luminosa de mármores divinos; esse André Zorn, maravilhoso virtuose do desenho e da pintura; esse Brangwyn, gênio rembrandtesco da babilônia industrial que é Londres; esse Paul Chabas, mimoso poeta das manhãs, das águas mansas e dos corpos femininos em botão.
Como se não fosse moderna, moderníssima, toda a legião atual de incomparáveis artistas do pincel, da pena, da água forte, da "ponta seca", que fazem da nossa época uma das mais fecundas em obras primas de quantas deixaram marcos de luz na história da humanidade. (16:61-62)

ARTISTAS
1. Somos uns pelicanos, Rangel. Vivemos a arrancar penas, carne e coisas de nós mesmos para que não morram os nossos pobres filhinhos literários. Os artistas subjetivos que só tiram de si em vez de tirar do mundo que os rodeia, ficam introspectivos em excesso e acabam satisfazendo a um público muito restrito: a si mesmos. Mas os artistas objetivos, os Kiplings, sugestionam e fazem estremecer de emoção grandes platéias - e o aplauso da platéia é o feijão com arroz de todos os artistas. (1:220-221)
2. Os artistas deixam a estrada real por onde segue toda gente e caminham por veredas laterais. Os grandes abrem picadas, os miúdos repisam-nas. (7:98)
3. Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.
Quem trilha por esta senda, se tem gênio é Praxiteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.
A outra espécie é formada dos que vêem anormalmente a natureza e a interpretam à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedoiro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.
Embora se dêem como novos, como precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e a mistificação. (16-60)
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Ver: ARTE 10 (16:46)

ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS
— Essa fábula está com cara de ser sua, vovó — disse Pedrinho. — Eu conheço o seu estilo.
— E é, meu filho. Inventei-a neste momento, e sabe por quê? Porque me lembrei daquela peúva caída lá no pasto e dum jabuti que estava escondido debaixo dela. Sei quanto dura a madeira da peúva e sei quanto vive um jabuti - e a fábula formou-se em minha cabeça. E todas as fábulas foram vindo assim. Uma associação de idéias sugere as historinhas.
— Associação de idéias é isso?
— Sim. A gente pensa numa coisa. Esse pensamento puxa outro. Esse outro puxa terceiro. É o que os sábios chamam associação de idéias. (28:259)


C


CAPÍTULOS
Recebi Vida Ociosa. Parece-me aconselhável trocar a simples enumeração dos capítulos, coisa anti-comercial, pela denominação dos capítulos, coisa comercialíssima. Acho horrivelmente árido um romance de capítulos numerados. E é fértil o em que cada capítulo tem um titulozinho tentador. Como faz Mestre Machado. O do Léo Vaz também é assim. Tudo que nos livros predispõe bem o público ledor e comprador é agradável a Deus. Se queres, eu mesmo batizo os capítulos - ou então mandas-me daí os nomes. (2:189)

CARICATURA
Diga-se, por exemplo, da caricatura, maldade velha que nasceu quando o animal que ri farejou no repuxo dos músculos faciais um meio de matar às claras -matar moralmente, já se vê. E que nasceu na Grécia para veículo dum sutil alcalóide de nome "eironeia", do qual foi Sócrates um hábil manipulador. E desde então nada se forrou a esse veneno - nem homens, nem deuses, nem cavalos.(...)
Não há país onde a caricatura não vice em folhas periódicas como um gênero de primeira necessidade, indispensável ao fígado da civilização. Como a ironia e o chiste não são plantas vulgares, e porque o rir-nos uns dos outros é da higiene humana, custeia cada povo as suas mutucas - os seus caricaturistas - como as cortes medievais, por fome de lirismo, cultivavam poetas oficiais de pégaso arreado à porta para pulinhos ao Parnaso em dia de anos do rei ou nascimento de algum principezinho. E em nada se estampa melhor a alma de uma nação, do que na obra de seus caricaturistas. Parece que o modo de pensar coletivo tem seu resumo nessa forma de riso. (16:3-7)
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Ver: ARTE MODERNA (16:61-62)

CARICATURA NO BRASIL
Numa história geral da caricatura a história da nossa terá meia página, se tanto. E explica-se a mingua. Enquanto colônia, era o Brasil uma espécie de ilha da Sapucaia de Portugal. Despejavam cá quanto elemento antissocial punha-se lá a infringir as Ordenações do Reino. E como o escravo indígena emperrasse no eito, para aqui foi canalizada de África uma pretalhada inextinguível. Até a vinda de D. João o Brasil não passava de índio e mataréu no interior e senhores, feitores e escravos nos núcleos de povoamento da costa, muito afastados entre si e rarefeitos. Em toda essa fase o Brasil não dá de si nenhum bruxoleio de arte.
E assim vai até que um tranco de Napoleão dá com o rei de Portugal para cima do Rio de Janeiro. Apesar da pressa com que arrumou as malas, D. João VI trouxe todos os ingredientes para uma boa implantação aqui: fidalgos de orgulhosa prosápia, nobres matronas, almotacés, estribeiros-mores, açafatas da rainha, vícios de bom tom, pitadas de arte e ciência e mais ingredientes básicos duma monarquia preposta a pegar de galho.
Infelizmente nenhum caricaturista acompanhou o transporte de tanta caricatura para as terras do Novo Mundo. Insanável lacuna! Que maravilhosos temas a época fornecia!...(...)
Se hoje temos Voltolino, Yantok e tantos mais e sobretudo esse J. Carlos que encheu toda uma época e pôs a arte da caricatura no Brasil a par da dos velhos países cultos, devemo-lo à grande idéia d O Malho, de satisfazer as ingenuidades estéticas do poviléu.
Mas há uma coisa que impede o crescimento e a plena floração da nossa caricatura: a restrição cada vez maior da liberdade de crítica ao governo. E sem liberdade da mais ampla a caricatura fenece como a gramínea que tem sobre si um tijolo. Perde a clorofila. Descora.
Dá um esparguinho branco...(16:11...21)

CARTA
1. O gênero "carta" não é literatura, é algo à margem da literatura... Porque literatura é uma atitude - é a nossa atitude diante desse monstro chamado Público, para o qual o respeito humano nos manda mentir com elegância, arte, pronomes no lugar e sem um só verbo que discorde do sujeito. O próprio gênero "memórias" é uma atitude: o memorando pinta-se ali como quer ser visto pelos pósteros - até Rousseau fez assim - até Casanova.
Mas cartas não...Carta é conversa com um amigo, é um duo - e é nos duos que está o mínimo de mentira humana. Ora, como da minha conversa escrita com Rangel se salvasse quase todas as cartas, tive ensejo, um dia de lê-las - e sinceramente achei que constituíam uma "curiosidade editorial" de bom tamanho. E que teriam interesse para o público justamente porque ao escrevê-las nunca me passou pela mente que jamais fossem dadas a público. Mas vacilei. Dá-las ou não? Tão íntimo tudo aquilo. Tantas perversidadezinhas para com os amigos, tanta piada para cima do Nogueira - o companheiro que no fundo mais admirávamos... Além de que isso de cartas é sapato de defunto. Depois que o autor morre é que elas aparecem.
Pensei, pensei, pensei. Por fim, vá lá. Tenho sérias dúvidas sobre se estou ainda vivo - e se as cartas saírem com a minha revisão de semi-vivo, apresentar-se-ão podadas de muitas inconveniências que um semi-morto já não subscreve. (1:l7-18)
2. Por que usas etiquetas comigo? Tuas cartas vivem cheias de "faça o favor", "se não for incômodo", e mais fórmulas da humana hipocrisia. São tropeços. Quando te leio, vou dando topadas nisso. Faça como eu. Seja bruto, chucro, enxuto. (1:52)
3. ...De modo que essas três irredutíveis instituições humanas - o vizinhato, o cão e o namorado noturno - interpuseram-se como uma trindade de aço entre mim e a ciência do Paula Batista, e com tal prepotência que me vi forçado a afastar o poço da sabedoria e matar o tempo com uma quarta instituição humana: conversar por escrito. (1:72)
4. Apontas-me, como crime, a minha mistura do "você" com "tu" na mesma carta e às vezes no mesmo período. Bem sei que a Gramática sofre com isso, a coitadinha; mas me é muito mais cômodo, mais lépido, mais saído - e, portanto, sebo para a coitadinha. Às vezes o "tu" entra na frase que é uma beleza; outras é no "você" que está a beleza - e como sacrificar essas duas belezas só porque um Coruja, um Bento José de Oliveira, um Freire da Silva, um Epifanio e outros perobas "não querem"? Não fiscalizo gramaticalmente minhas frases em cartas. Língua de cartas é língua em mangas de camisa e pé-no-chão - como a falada. E, portanto, continuarei a misturar o tu com você como sempre fiz - e como não faz o Macuco. Juro que ele respeita essa regra da gramática como os judeus respeitavam as vestes sagradas do Sumo Sacerdote. Logo, o dever nosso é fazer o contrário.
(1:79-80)
5. Já notaste como é mais vivo o estilo das cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho maravilhoso o prime saut das cartas. Eu queria ver em todos os teus livros o elance primesautier da última carta que me mandaste. A caraça do público, a "feição" do jornal, os moldes do editor, sempre antepostos aos nossos olhos quando "escrevemos para imprimir", acanham-nos a expressão, destroem-nos a alerteza do élan. Eu, por mim, só lia cartas e memórias como as do Casanova. (2:54)
6. Que idéia sinistra a tua, de publicarmos as minhas cartas! Seria dum grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades. No nosso caso não há nada disso: não são históricas e nós não passamos de dois pulgões de roseira - eu, um pulgão publicado; você, um pulgão inédito. O interesse que achas nas tais cartas é o interesse da coruja pelas peninhas dos seus filhotes. Formam um álbum de instantâneos de nossa vida. Mas o público quer penas de pavão, plumas de avestruz ou aigrettes de garça: não quer peninhas de filhote de coruja. Todos iriam rir-se de nós, além de que estão cheias de maldadezinhas endereçadas a amigos e conhecidos, sobretudo por mim, que tenho a mania de arrasar tudo, a começar por mim mesmo. Não. Varra com a idéia. (2:198-199)
7. Fui mexer na minha tremenda papelada epistolar e tonteei. É coisa demais. É um mundo. Pus a Ruth separando aquilo e classificando por ordem de data - é o primeiro passo. O segundo será separar certas cartas, como as tuas, que são as mais numerosas; e como por milagre tenho aqui as minhas, estou vendo que desse passo vai sair coisa grossa e talvez muito interessante. Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vale alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o panorama de toda uma época. Literatura, história e mais coisas. (2:351)
8. Heitor// Recebi a tua carta de 12, realização de um "projeto velho" e fico-lhe grato pelo te lembrares do exilado das Areias. Tem razão de ser a tua quizília pelo escrever cartas, veículo pequenino demais quando se tem muito a dizer e embaraçoso quando não há assunto. A carta é boa e fácil de se escrever quando há um negócio bem positivo a tratar e por isso o ideal delas me parece que são as cartas comerciais. Que gosto sentar-se à mesa sem vacilações, sem pensar, lançar no papel um bem caligrafado Am.º e Snr., para início de meio palmo de literatura sólida e sucinta! Infelizmente o destino não reserva para nós essa boa delícia... Mas vamos ao que serve. (3:100)

CLÁSSICOS
— O Visconde de Castilho foi dos maiores escritores da língua portuguesa. É considerado um dos melhores clássicos, isto é, um dos que escreveram em estilo mais perfeito. Quem quiser saber o português a fundo, deve lê-lo — e também Herculano, Camilo e outros.(...)
— Meus filhos — disse Dona Benta —, esta obra está escrita em alto estilo, rico de todas as perfeições e sutilezas de forma, razão pela qual se tornou clássica. (25:144-145)

CONCURSO LITERÁRIO
Recebi também uma carta do Samuel Soares, que se dá com você. Quer um absurdo - a minha intervenção para que os juizes dum tal concurso dêem atenção ao livro dele. Não só não sei quem são esses juizes, como isso de tentar influir juizes não é coisa que Témis admita. Ele que espere e se resigne à sorte. Os julgamentos dos concursos literários são feitos mais ou menos pelo sistema do "cara ou coroa". Se ele tiver sorte, ganhará. (4:229)


CONTO
1. Sou partidário do conto, que é como o soneto na poesia. Mas quero contos como os de Maupassant ou Kipling, contos concentrados em que haja drama ou que deixem entrever dramas. Contos com perspectivas. Contos que façam o leitor interromper a leitura e olhar para uma mosca invisível, com olhos grandes, parados. Contos-estopins, deflagadores das coisas, das idéias, das imagens, dos desejos, de tudo quanto exista informe e sem expressão dentro do leitor. E conto que ele possa resumir e contar a um amigo - e que interesse a esse amigo. (1:243-244)
2. Nunca escrevi contos e não sei se me será coisa possível. O que eu considerava contos, se releio agora me sabem a crônicas com pretensões humorísticas. No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério (pois sinto uma nostalgia profunda ao vê-los - sinto uma saudade do que eu poderia ser se me casasse com a pintura), arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo da literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão predominante é puramente visual. Ora, sendo eu assim, vejo-me em apuros com os teus empurrões para a realização imediata.
Vou tentar - mas bem desesperançado. Se até aqui não produzi um só conto que mereça tal nome, isso demonstra minha inaptidão para esse gênero literário. (1:251-252)
3. Ando frio com o conto. Acho um campo muito restrito, coisa só para os grandes mestres. Engano pensar que por ser mais curto seja mais fácil, mais próprio de principiante. Este deve começar com um Rocambole e só depois de bem maduro fazer um continho. A propósito, lembro-me dum plumitivo de Pindamonhangaba, que me abordou um dia e contou da sua idéia de publicar um livro de pensamentos. E explicava: "Nós, principiantes, devemos começar pelo princípio, pelo primeiro grau; coisinhas leves, pensamentos; depois sonetos; depois contos e por fim novelas e romances". Ele andava com uma trena no bolso. (1:265)
4. Mas da idéia à realização o caminho é áspero. Talvez você tirasse do assunto a coisa que imagino. Eu não me atrevo - porisso reduzi o romance a conto - um conto que é apenas um frouxo programa do romance.
Toda gente considera o conto um gênero leve - e tomam o leve como sinônimo de fácil. Mas note que em todas as literaturas só emerge do conto um Maupassant para dez romancistas. Mesmo assim, achas que é possível meter Maupassant na plana de Balzac, Dostoievsky e Tolstoi? Não creio. É mister fazer bom e grande e o contista, embora alcance o bom, não pode chegar ao grande. É ourivessaria, não é arquitetura. Cellini fez o Perseu, mas faria o Taj Mahal? O meu Bocatorta conto é pobre maquete em gesso dum terrível monumento. Miniatura.
Viver um ano, dois, três, dentro dum romance, construindo um romance, como Flaubert. Que fôlego exige! Que saúde - e nós somos uns doentinhos. (1:280-281)
5. Li os Oitenta Contos n O Dia. Interessante, mas frouxo no fim. Não acaba de modo satisfatório para o leitor e para Apolo. Fecho de conto é como fecho de soneto; é o tudo! É onde está o busilis. Porque o conto inteiro não passa dum preparo para o fecho - e se depois de cacetearmos o leitor com o tal preparo lhe dermos fecho desapontante, ele diz como cá a dona Nenê: "Outro ofício!" (2:234)
6. Outro conselho que darei para contos é não fabricá-los na cabeça, e sim colhê-los na vida. Quem cria os bons contos não somos nós, é a Grande Mestra - a Vida. Nós apenas os captamos e os pomos em forma literária. Dá-se com eles o mesmo que com os brilhantes. O garimpeiro acha-os, e depois o lapidador os transforma em maravilhosos solitários. Faça assim. Garimpeie. Pegue os contos da vida que passarem ao seu alcance - e bote-os em forma artística, sem visar coisa nenhuma senão o bom acabamento da obra. Faça assim que quando menos pensar estará com uma linda coleção de contos vivos, pois só são vivos os criados pela vida. (4:43)
7. Confundem-se geralmente os dois gêneros, e muito cronista por aí, dos mais perfeitamente caracterizados, jura que é contista. O verdadeiro conto não passa de uma narração incisiva e bem travada em todas as suas partes de modo a dar relevo a um fato, cômico ou trágico. Antigamente definiam-no como a narrativa agradável de coisas imaginárias. Com o advento do naturalismo ele ampliou o quadro e admitiu dentro mais coisas do que permitia a concepção antiga. Inda assim exige como essencial a narrativa em progressão na qual tudo tenda para o desenlace final, imprevisto e sugestivo. O conto nunca deixar de ser anedótico. É mister que o leitor, acabada a leitura, possa recontá-lo a terceiro, isto é, apresentar rapidamente o esqueleto, o arcabouço anedótico. Dos nossos contistas poucos seguem esta orientação. Deixam-se arrastar pelo devaneio, afrouxam a contextura da obra por meio de repetidas digressões, ou de excessivas minúcias descritivas, inúteis para o efeito final. São, em suma, em vez de contistas, cronistas. (10:34-35)
8. Se ainda escrevo de quando em quando, é por hábito, e para desencruar a fita desta máquina. E só escrevo quando o acaso me faz encontrar na rua um diamante bruto entre cascalhos, a que o mundo chama "conto". Quem os faz não é o escritor, sim a vida, como é a natureza que faz os diamantes. O escritor apenas os acha; e depois de achado, se não tem preguiça, toma-o do chão, lapida-o, e engasta-o numa trama de associações lógico-estéticas, que é o anel onde vai figurar o brilhante. (12:57)
9. ― Contos andam aí aos pontapés, a questão é saber apanhá-los. Não há sujeito que não tenha na memória uma dúzia de arcabouços magníficos, aos quais, pra virarem obra d arte, só falta o vestuário da forma, bem cortado, bem cosido, com pronomes bem colocadinhos. ( 17:67 )
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Ver: CRIAÇÃO 4 ( 2:137-138 )
CRIAÇÃO 7 ( 2:253-254 )

CONTO POLICIAL
O conto policial está muito bem desenvolvido, e você diz bem: para esse gênero, só a língua daí. E quem sabe se é esse o teu caminho na literatura? Experimente-se. Nós nunca sabemos o que somos, e só o acaso nos revela. Quem sabe se não anda um Van Dyne ou um Conan Doyle oculto dentro de Artur Coelho? Esse gênero literário é o que mais se coaduna com a mentalidade cinematográfica que as fitas americanas criaram no mundo. (4:218)

CRIAÇÃO
1. Nós dois somos o inverso. Somos cracas eternamente grudadas ao pago natal. Somos cogumelos, chapéus-de-sapo, temos o aparelho de locomoção destituído de rodinhas amarelas - libras ou dólares. Somos ápteros. Pingüins! Nossas capacidades embotam-se na mesquinhez da introspeção e na sordidez tacanha de meiozinhos roceiros pífios, onde não há os caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho do João Minhoca; onde não há dramas - (como imaginar os Átridas em Areias); onde nada há que não seja choco. Desta Areias onde apodreço há três meses nem o gancho dum Shakespeare tirava sequer um título de drama.
Parece-me erro supor que o artista cria independentemente do meio. Meio pífio, artista pífio - obra d arte pífia. Entre nós, só no Rio há ambiente para alguma arte - e porisso todos os que têm veia para lá acodem. Os que ficam no interior só dão de si água parada. Veja, Rangel - estamos nós dois condenados a ser água parada... Você casou; eu vou casar. Casamento: feixe de raízes que virão agravar ainda mais o nosso chapéu-de-sapismo. E, no entanto, nós temos talento, Rangel - sentimos isso, não? Ninguém sabe, ninguém percebe; talvez nunca desconfie disso o mundo - e no entanto temos talento! (1:176)
2. Vivo esperando a ocasião propícia - essa ilusão. Não há disso. Para quem de fato possui criatividade, todos os momentos são propícios. (1:177)
3. Ando com uma idéia. O Plínio Barreto insiste em que eu escreva um romance para a Revista e estou com idéia de um romance à Dumas ou Paulo de Kock, cheio de ação e diálogos, tudo tão violento que o leitor perca o fôlego. O público anda farto de psicologia e descritivo - a mania dos nossos romancistas atuais - e é a razão de deixá-los às moscas.
Vamos fazer uma coisa: destrinçar o segredo dos eternamente lidos. Depois seguiremos a maneira deles, mas sem nos afastarmos da observação, do real, do verismo que está em nossa essência. (2:127-128)
4. O fim visado num romance ou conto deve ser o máximo de impressão no leitor com o mínimo de meios. É nesse sentido que voga o meu barco. Progrido em "concentração", fujo sistematicamente à "diluição". Prefiro fabricar um martelo de pinga a um barril de garapa azeda. E se a ilusão me não transtorna o senso crítico, creio que estou com a verdade. Que verdade? A deduzida dos melhores capítulos das melhores obras dos melhores autores. Por que melhores autores? Porque mais intensa e duradouramente lidos. A Desforra ganharia se voltasse ao fogo para apertar o ponto. Ficaria metade em volume e o dobro em grau alcoólico.
A humanidade gosta de bebidas fortes - whiskey, rum, kümmel, vodka e mais "fogos líquidos". Já os xaropes e águas panadas, e mesmo a água pura, têm menos fregueses - e com eles ninguém se vicia.
Esta minha observação vai com todas as reservas. Ser assim no caso de aceitares como verdadeiro o meu critério de concentração. Porque em boa crítica todos os gêneros se equivalem, contanto que as obras sejam filhas do talento.
Ando a preparar um livro de contos - assinado Hélio Bruma - coisas antigas refeitas. A refusão limita-se a podas, desgalhes, descascamentos - sempre "des", isto é, concentração. E sinto que ganham com o desbaste. Em regra somos na mocidade extremamente excessivos, folhudos como certas árvores tão enfolhadas que não há ver nelas a beleza maior: o tronco e o engalhamento. (2:137-138)
5. O Presente da Loveling e o urso de Tolstoi são demonstrativos de que para bem dizer é mister escrever pouco e concentrado. A prolixidade é o grande mal. Antigamente eu "borrava" dez tiras e no último "a limpo" obtinha vinte. Hoje borro dez para obter cinco. Podo impiedosamente - e nunca me arrependo. Ontem li no Imparcial uma crítica do João Ribeiro que abunda nestas idéias. (2:140)
6. Quanto ao meu livro, espero completar aí uns quinze contos que me agradem; publico-os na Revista do Brasil e depois de impressos dou-lhes a forma definitiva. Só então arriscarei nos quinze contos os dois contos de réis que me custar a edição. Não tenho pressa nem entusiasmo. Já estou muito longe do assanhamento dos dezoito anos.
Se me seduz uma idéia, ponho-a em conto, mas sempre com muita preguiça. O gosto vem depois, na polidura do borrão, no acepilhamento, no envernizamento. O ato bestial de parir um monstrengo, informe, sujo de sangue e placentas, é o mesmo na arte e na vida feminina. O gosto da mãe começa depois de lavado e vestido o fedelho. (2:147)
7. Lá pelo fim do ano darei livro para o público. Contos. Inda hoje escrevi um. O Rapto. Fui a Campos do Jordão com o Macedo Soares e na estação de Pinda vi um aleijado num carrinho, enérgico, a ralhar com os filhos que o puxam. Senti uma coisa: aquele homem, apesar de aleijado, era o importante e rico da família, o que ganhava a subsistência de todos com as esmolas recebidas. Daí o seu tom mandão, apesar de viver sem pernas dentro do carrinho. Um conto formou-se em minha cabeça, e de volta despejei-o no papel, como quem despeja a bexiga.
Ando cheio de contos lá por dentro. Contos são bernes. A gente pega os germes aqui e ali, e eles ficam germinando, gestando-se em nossos misteriosos úteros subconscientes. Um dia, como o feto das mulheres aos nove meses, eles vêm à tona da consciência e anunciam-se: "Queremos sair!" E então escrevemos aquilo com a facilidade com que as fêmeas dão cria. Os contos fluem da pena para o papel como um "berne de tempo", bem esvurmado. O curioso é que quando produzo um conto, de forma nenhuma o tenho completo na cabeça; tenho lá dentro uma só coisa: a idéia central do conto. Tudo mais se forma no ato de escrever. A primeira frase que lanço determina as demais. N O Rapto não havia nem rapto nem nada; só havia esta idéia central: um cego que justamente por ser cego era o único da família que ganhava dinheiro e tinha importância. (2:253-254)
8. Não concebo artista capaz de construir obra valiosa, se reside em cidade pequenina, marasmada. Só nos grandes centros há ambiente para a criatividade, uma excitação cerebral contínua, formada pelos mil estimulantes urbanos. Na roça o cérebro assenta, como líquido vascolejado posto a repousar. (7:20)
9. Há duas espécies de obras, a que é feita e a que sai de dentro da gente — que sai no momento próprio, com a naturalidade do feto a espirrar do útero materno depois de nove meses de sono. É sempre difícil e doloroso fazer uma obra; mas é facílimo e delicioso parir uma. O delicioso está no aliviar-nos de qualquer coisa que nos incomoda lá dentro — certas pressões.
Antes de mais nada, porém, meu caro Flávio, devo confessar-te que eu já morri. O que ainda anda cá pelo mundo é apenas a materialização ódica do Lobato morto. Quer que te conte como ele escrevia contos? Isso talvez te ajude no romance, esclarecendo a fisiologia estética. Lobato não fazia contos, paria-os.
Não escrevia deliberadamente; só quando a coisa vinha, quando a bolsa das águas rebentava e não havia remédio senão parir. Ele paria para aliviar-se de subitâneos engravidamentos — sobretudo os causados pela indignação. O seu livro mais interessante seria o em que contasse a obstetrícia da sua literatura.(...)
Estude o teu caso como um bom médico e veja se convém operar ou esperar que o útero o expila naturalmente.
Os engravidamentos do Lobato eram instantâneos. Há-os mais lentos. O que friso é a indispensabilidade do engravidamento e da chegada a termo. Estude-se, Flávio. Seja obstetrício. (12:50-55)
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Ver: CARTA 5 (2:54)
LINGUA 1 (1:248-249)


CRÍTICA
1. E estou transformado na "última palavra" da crítica local, depois duns artigos sobre os trabalhos da minha namorada número 2 - a de função estética. O povo olha-me com uma espécie de terror sagrado, tantas foram as coisas bonitas que, em estilo de atelier de Paris, eu disse na análise dos quadros de Georgina - chama-se Georgina. O meio de sermos admirados pelo povo é não sermos entendidos. Outros artistas da terra, geniozinhos municipais, procuram-me; querem também que eu diga deles coisas incompreensíveis. E o diretor do jornal fez-me a honra de declarar que sou a "única autoridade crítica da terra". Quer dizer que também não me entende.
Ontem houve concerto no teatro e uma comissão veio implorar que do alto da minha Competência eu derramasse a potassa da Crítica sobre as gorduras do Desempenho. Desfiz-me em frases feitas desmerecedoras do meu Mérito e por fim prometi. E acabo de encher cinco tiras com quanto argot musical assimilei em S. Paulo nas críticas do Camarate e do Barjona. Falei em vocalização, registro de voz, euritmia, tonalidades cromáticas e outras pilhérias do caso. Saiu-me coisa tão boa que, relendo-a, eu mesmo não entendi nada. Imagine o sucesso que vai ser! (1:90-91)
2. Na "questão da simpatia" você me respondeu com argumentos ad hominem, o que em crítica não soa bem. Crítica tem que ser ciência, coisa alta, investigação dos fatos literários apenas. Fora disso a Crítica não passa de Impressionismo - ramo da literatura comum. Diz você: "Prefiro Goncourt a Manon". Mas isso não prova a superioridade de Goncourt sobre Manon. Do mesmo modo que se você preferir Silvestre Ferraz a Londres, isso não prova que Londres não seja a capital do Império Britânico. Voltaire preferia Scarron a Shakespeare, o que não impediu que a Posteridade preferisse Shakespeare a Scarron. Quem quer fazer-se crítico deve pôr-se de lado, afastar o subjetivo; e se não for assim, faz literatura em vez de crítica. (1:133)
3. Não concordo com a tua idéia de que todo crítico é um raté da literatura, porque a crítica é um ramo da literatura para o qual certos sujeitos nascem com aptidões especiais. Olhe Taine, Sainte Beuve, Macaulay. Mas não deixa de ser certo que muitos críticos de segunda são literatos fracassados em outros gêneros. Sentem o prazer satânico de se suporem numa sacada, e lá de cima cuspirem nos que passam pela rua. Prazer de juiz sentenciador - mas juiz que se nomeia a si próprio, não é nomeado pelo governo. Vingança, picuínha contra a Fatalidade. "Falhei no meu poema? Pois esperem que vou desancar todos os poemas alheios". O Albalat me parece dos tais. Aquilo de só admitir Homero, e ir filiando um estilo a outro até chegar ao de Homero, aquilo me parece ódio aos seus contemporâneos donos de estilo. (1:278-279)
4. Mas isto de opinião é como nariz, cada qual tem a sua e essa é a boa, como o bom e certo é o nosso nariz. Tu és maior em letras, e eu me saio um tolo com estas pedagogias. Lá tens tua arte; cá tenho a minha. Criticar é sempre dizer: "Eu faria assim". Ao que pode o Autor objetar como o Maneco Lopes: "E que tenho eu com isso?" Por essa razão não me meto a criticar as Águas. Dou apenas a impressão geral que pediste. (2:16)
5. Obrigado pelo oferecimento, mas prefiro que digam de meus livros os estranhos. Aos amigos quero-os calados: já lhes conheço a opinião e também conheço o grau de amizade de cada um. A amizade nunca foi boa crítica. E, entretanto, recorreria a ela se o livro empacasse. Quem quer um filho empacado? Mas não empacou. Fui feliz. Não pedi juízo crítico a ninguém e estou tendo mais e melhor do que realmente mereço. Ainda ontem falou a Gazeta de Notícias em artigo especial, e na véspera havia falado O País. Mando os recortes. De você eu queria uma crítica à nossa moda, confidencial, em carta - sobretudo apontando os defeitos. Um defeito apontado é muitas vezes um defeito corrigido. Já uma qualidade elogiada é quase sempre um vício futuro: o autor passa a apurá-la em demasia e cai no excesso, como o econômico cai na avareza ou o liberal na prodigalidade. (2:179)
6. Estás fazendo a crítica como a quero, à moda do Will Durant, na História da Filosofia. A crítica há de ser assim. A obra dos homens vista à luz da vida dos homens. O sucesso imenso de Durant vem de que pintou conjuntamente a vida dos filósofos e suas filosofias. Interpenetram-se tanto, a vida e as idéias da gente, que não há desligar as duas coisas. (12:49)
7. Tu és um monstro de orgulho, Flávio. Pois queres atacar ao Mário só porque ele exerceu o seu natural direito de crítica? Ele não te insultou, não te ofendeu. Como então revidar? Revidar o quê? Se tiras ao crítico a liberdade de criticar, matas a crítica, Flávio. Faço votos para que a Censura impeça a saída do teu artigo no Casmurro. Fica feio para você danar com um cabra criticamente só porque ele não gostou do teu livro da maneira pela qual querias que ele gostasse. (12:75)

CRÍTICO
1. Isto de falar na crítica e dar balanço aos críticos é sintoma de gravidez de livro. Mal a gente pensa em editar-se e já o pensamento nos vai para os tais que declaram ao público se somos gênios, talentos, simples promessas ou cavalgaduras. Que asneira fazer um livro! Arriscar a dolorosas decepções - para que e por quê, santo Deus? (2:109)
2. Chegada hoje tua carta de 14, com o recorte. Deu-me prazer que o 1.º artigo que aparece (ou que me chega) sobre as O.C. seja o teu, e não o de algum crítico profissional. Crítico diz o que convém; já você diz o que sente. (4:219)
3. A incompreensão, meu caro, é o grande mal da vida, e a compreensão a coisa rara, por excelência. Tu compreendes, e me compreendeste: um sujeitinho que trabalha na sua toca, descreve o que viu e sentiu, e no fundo chora das coisas serem como são e não como deveriam ser. Só isso. Tão simples e ninguém acerta. Os críticos comprazem-se em malabarizar sobre as teorias e explicações mais difíceis, que vão procurar longe, esquecidos sempre que a verdade anda-lhes ao pé, caseira e humilde. (13:56)
4. — Que quer dizer críticos? — perguntou Narizinho.
— Críticos são os homens sabidões que nos dizem o que é bom e o que não presta. São os nossos cicerones, ou guias, em assunto de arte. (22:225)
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Ver: CRÍTICA 7 (12:75)
LÍNGUA 1 (1:248-249)


D


DEFINIÇÃO
Uma das características da boa definição é ser curta. "O homem é um bípede implume". Quando a definição se estende demais, tentando abarcar todos os mobilíssimos pseudopodos da coisa definida, degenera em "noção" ou "tratado" sobre a coisa. Deixa de ser definição, súmula da essência. (...)
O meio prático de pôr em prova uma definição é aplicá-la como um cobertor sobre a coisa definida; se a definição a cobre bem, não deixando nenhum rabinho de fora, é ótima. (5:12-13)

DESCRIÇÃO
Se Águas e Arvoredos está um borrão, posso anotar nas costas, não é assim? Um defeito, meu, teu, nosso: damos espaço demais ao cenário, com prejuízo das figuras. Em Camilo quase não há cenário; as almas vão logo entrando em cena. Shakespeare pinta-o com uma palavra. Nós nos perdemos nas mignardises da paisagem, a copiar até as perninhas dos carrapatos - vício que vem do tempo em que o Naturalismo zolaiesco nos seduziu. Mas aquilo era exagero propositado. Eles estavam botando a língua para o Romantismo. Tu tens paisagens belíssimas, mas estragadas pela abundância dos detalhes. Queres escrever tudo, quando o certo é apenas sugerir - é dar um rápido relevo de estereoscópio com meia dúzia de pinceladas rápidas e manhosas. Pinceladas-carrapicho, nas quais se enganchem as reminiscências do leitor. Forçamo-lo assim a colaborar conosco — ele vê mil coisas que não dissemos, mas que com os nossos carrapichos soubemos acordar dentro dele.
O mais belo e sugestivo cenário que conheço é um de Shakespeare no Henrique IV, ato 30, suponho: "A street". Nessa rua eu pus toda a impressão sugerida pelo transcorrer dos dois primeiros atos. Vi uma velha rua da cidade inglesa, como naquele meu momento me parecia que devem ser as ruas trafegadas por Falstaff. Qualquer outra indicação prejudicaria a idéia pré-sugerida lá no meu imo, colidindo. Isto mostra como a extrema sobriedade, quando hábil, desentranha maravilhas da imaginação do leitor — e o tolo as vai atribuindo ao romancista esperto. Em suma, o caso é esperteza, como nas fábulas do jaboti. Fazer que o leitor puxe o carro sem o perceber. Sugerir. Arte é isso só. (2:13-14)

DIÁRIO
Que te direi do teu Diário que já não tenha dito? Devorei-o, coisa de começar e não largar, e a impressão foi a dum filme que alternasse fotografias de idéias com fotomontagens de cenas. Diz você na carta que o mandou como reflexo do teu Eu atual, e vejo que muito já se distanciou daquele Rangel amoroso e em excesso descritivo dos anteriores volumes. Agora sim, está como compreendo um Diário: repositório de sensações de primeira mão, dos tais pensamentinhos que nos passam pela cabeça como relâmpagos, de idéias nascidas como em geração espontânea, insubsistentes, de vida curta como a dos fogos fátuos; poeira luminosa, pó de diamante da inconsciente e ininterrupta lapidação da nossa inteligência. Mil coisinhas enfim que se perderiam se não fosse a patena dum diário a recolhê-las. Perguntas em francês o por que da coisa e afirmas que Robinson não cuidaria disso. Chi lo sa? O maior prazer do nosso egoísmo é gozar a sensação da nossa personalidade — pelos ouvidos, ouvindo-nos — pelos olhos, vendo-nos — pela inteligência, introspeccionando-nos. O resto do mundo só nos importa pelos acréscimos, ou o "emprosperamento" que traz para o nosso Eu. Porque, afinal de contas, somos cada um o centro do Universo. Ora, um Diário conserva a imagem do nosso Eu no passado, fomenta-nos portanto os instintos do egoísmo, desse modo redobrando a sensação dos eus passados, isto é, das nossas fases evolutivas. Se um espelho comum já nos dá prazer, que valor não é um espelho retrospectivo que nos dê a cara dia a dia, pelo espaço de anos! O Diário é esse retrospecto da nossa inteligência. Por isso creio que, sendo como somos, ainda que fôssemos Robinsons escreveríamos Diários. (1:130-131)
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Ver: IDÉIAS (Registro de) (1:114-115)

DICIONÁRIO
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Ver: VOCÁBULOS 1 (1:239-241)
LÍNGUA 8 (8:101-107)

DRAMA
O drama é tudo na arte, porque o drama é a biografia da Dor e a Dor é a mãe da Arte. Inda ontem, relendo Ésquilo, vi que sua grandeza repousa na grandeza das dores que pinta. Os Átridas, Prometeu, Orestes, Eletra, Atossa, Cassandra — dor, só dor, na desesperada luta contra a Fatalidade. A arte nasce da dor, como a pérola. Sabe que a pérola é o produto duma doença da ostra? Onde há doença há dor —- logo a pérola vem da dor. (1:174)


E


EDIÇÃO
1. Minha idéia é que quem se edita por conta própria faz uma coisa anti-natural — como entre as mulheres o parir pela barriga, na cesariana. Mas, seja lá como for, proponho estes pontos: 1) Não haver pressa; 2) Apurarmos a forma, de modo que os críticos exigentes não descubram nem uma lêndia de pronome mal colocado; 3) Ler um a produção do outro, comentar, criticar, sugerir, vetar; 4) As duas partes conformar-se-ão com as sentenças, mas ficam com o direito de rejeitar o veto; 5) A fatura material do livro será perfeita; prosa boa impressa em papel de embrulho vira carne seca da fedorenta; champanha em caneca de lata vira zurrapa. (1:242-243)
2. Anda o Nogueira com livro em Portugal! Há de ser o Venerando, história já minha conhecida. Nogueira tem preocupações cômicas — a qualidade do papel, o tamanho das margens, ilustrações, como se um livro valesse por outra coisa que não o miolo. Quem procura essas galantezas estranhas à literatura não mostra confiança no que escreve. É procurar muletas. Veja se um Machado, um Anatole, um Euclides, lá vão pensar nessas bobagenzinhas. (1:327)
3. Veja você como para o mundo tem peso um nome que assina artigos no jornal. A gente passa de servo da gleba à classe dos senhores. O "senhor" é o homem armado, que pode desta ou daquela maneira tornar-se ofensivo. A grande desgraça na vida é ser inofensivo, Rangel. Veja as minhocas. Por essas e outras, não concordo com o teu afastamento do jornal. Para quem pretende vir com livro, a exposição periódica do nomezinho equivale aos bons anúncios das casas de comércio — e em vez de pagarmos aos jornais pela publicação dos nossos anúncios, eles nos pagam — ou prometem pagar. (2:20-21)
4. A vantagem de dar a Vida em revista é poderes tê-la em forma impressa para o "passar a ferro" final. Em manuscrito a gente não vê totalmente um livro. (2:102)
5. É indispensável vires a público em livro, porque o livro é como o germe que faz a palma, a chuca que faz o mar. (2:180)
6. O meu segredo foi continuamente e sempre o mesmo editor. O Otales editou-me desde o começo até a vinda da "Brasiliense". Tens de fixar-te num editor aí, e ir ganhando-lhe a confiança. Assegurado o editor, nada mais tens que fazer senão ir botando ovos literários como uma boa galinha Leghorn; todos os anos, um ou dois ovinhos — e mantendo sempre reeditados os ovos anteriores.(...)
Para conseguir uma casa o pedreiro tem que assentar muitos tijolos; para criar uma renda de direitos autorais o escritor tem de escrever muitos livros e cuidar muito deles, e mantê-los sempre editados, etc. Com um livro, ou dois, ou três, um escritor não arranja a vida, como com um tijolo, ou dois ou três, o pedreiro não constrói uma casa. Mas com 30, 40, 50 livros um escritor cria uma torneira donde manará money durante toda a sua vida e a dos filhos. Eu, por exemplo, disponho de 30 torneiras na "Brasiliense" e 25 aqui - total 55, todas pingando água sem parar. Não basta fazer o livro; é preciso editá-lo; e depois, reeditá-lo sempre; só assim um autor cria um manancial perene. (4:210-212)
7. Escolha um bom editor e fique com nele toda a vida. Não ande pulando de um para outro como um saltamontes com formicida no rabo. Bom autor faz o bom editor - o editor amigo. Para fazer um bom editor várias coisas são precisas, e entre elas a mais absoluta correção nas contas. Nunca sacar dinheiro antecipadamente. Autor que faz isto, perde logo o editor, porque não há nenhum que tolere semelhante prática. (4:214)
8. Faze o que fiz. Vira-te editor, e então terás sempre editor em casa absolutamente conforme aos teus desejos e caprichos. Foi como fiz em 1917 e deu certo. E como faço ainda hoje. Entrei como sócio para a Editora Brasiliense e tirei meus livros do Octales; e agora vou na Argentina estudar o lançamento da Editora Continental, com muitos elementos dinheirosos daqui. Por quê? Para também lá ter editor como quero para os meus livros. Era o que eu te aconselharia, meu caro Flávio, a você um sol novo que anunciei mas ainda sempre impedido de soltar raios. (12:71)
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Ver: LÍNGUA 1 (1:248-249)

EDUCAÇÃO
1. Recordando minha vida colegial vejo quão pouco os mestres contribuíram para a formação do meu espírito. No entanto, a Júlio Verne todo um mundo de coisas devo! E a Robinson? Falaram-me à imaginação, despertaram-me a curiosidade — e o resto se fez por si.
Júlio Verne levou-me a Humboldt, e depois à Geografia e às demais ciências físicas e sociais. Foi o aperitivo. Entreabriu-me as cortinas do mundo como coisa viva pitoresca, composta de paisagens e dramas. De posse dessa visão, e esporeada pela imaginativa, a inteligência "compreendeu e quis saber". Que menino, após a leitura de Keraban o Cabeçudo, não corre espontaneamente a abrir um atlas para ver onde fica o Bósforo?
A Inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a imaginação lhe serve de guia. A bagagem de Júlio Verne, amontoada na memória, faz nascer o desejo de estudo. Suportamos e compreendemos o abstrato só quando já existe material concreto na memória. Mas pegar de uma pobre criança e pô-la a decorar nomes de rios, cidades, golfos, mares, como se faz hoje, sem intermédio da imaginação, chega a ser criminoso. É no entanto o que se faz!... A arte abrindo caminho à ciência: quando compreenderão os professores que o segredo de tudo está aqui? (7:8-9)
2. O Coronel Teodorico não concordava com o modo de Dona Benta tratar os meninos.
― A comadre dá muita liberdade para eles. Criança não é assim que a gente trata. Criança a gente doma, como os potros.
E era assim na casa dele. Havia castigos: puxões de orelha, cocres, chinelo ― e ficar sentado num canto ― e não ter sobremesa no jantar ― e não ir à cidade no domingo. Apesar de tudo isso, seus filhos não eram bem educados e não faziam progressos nos estudos.
Dona Benta respondeu:
― Isto de educar crianças é a arte mais delicada que existe. O mesmo que lidar com broto de roseira. Qualquer coisa errada que a gente faça para um broto, ele "sente" e fica marcado pelo resto da vida ― para bem ou para mal.
E Dona Benta foi além, a filosofar em termos muito acima da compreensão do coronel, tão acima que ele cochilou e dormiu.
Era sempre assim nas visitas do fazendeiro à sua comadre; quando a conversa se elevava um pouco, e Dona Benta entra a discorrer com a sua elevação de sempre, ele "tirava um corte."
As idéias de Dona Benta sobre educação eram muito especiais. Quem entrasse em sua cabeça assistiria ao jogo do seu pensamento. (É interessante o jogo de futebol do nosso pensamento. Um jogo que não se interrompe nunca ― só quando dormimos. Um solilóquio. Falamos como nós mesmos numa conversa mental que não tem fim. Certas pessoas, quando perdem o perfeito equilíbrio, "falam sozinhas", na rua ou onde estejam. Muito freqüente ouvimos esta frase: "Fulano anda falando sozinho", com o significado de "Fulano está desarranjado da cabeça." Mas mentalmente não há no mundo quem não viva a falar sozinho, pois que o ato de pensar é isso.)
Enquanto o seu compadre Teodorico roncava na cadeira de balanço, Dona Benta falava sozinha.
― "Criança a gente doma, como os potros!" disse o compadre e como quase todas as pessoas pensam ― é aqui no sítio que eu vejo exatamente o contrário. Não domei Pedrinho, nem Narizinho, nem Emília, e duvido que haja crianças mais bem educadas. "Bem educadas" no verdadeiro sentido, não no sentido comum; pois o que vejo por aí é confusão de "bem educado" com "bem comportado", isto é, com a submissão das pobres crianças a todas as ordens dos pais ou professores. "Sente-se com as mãos sobre o colo e fique quietinha ― e a triste criança, o bichinho mais irrequieto da natureza, fica ali a constranger-se e a bocejar de tédio, para que umas toupeiras, como este meu compadre, se rejubilem e digam: "Estão vendo como é bem educada esta criança?"
E há a significação da criança! Para quanta gente as crianças não passam duma simples annoyance, como dizem os ingleses! Para outras são brinquedos, enfeites da casa, bonecas vivas. Poucos têm a verdadeira noção do que é criança para o mundo, ou para a humanidade. É a própria humanidade na parte em que se vai formando o futuro. O futuro!... Palavra tremenda. O futuro é tudo, é a continuidade, a perpetuação. O passado da humanidade é de alguns milhares de anos. O presente é o dia de hoje. O futuro é toda a imensidade de tempo que o homem possa viver neste planeta!... O presente é 1, o passado é 10 ― o futuro é 1.000 ou 1.000.000 ― que sabemos nós?
Tudo o que a humanidade de amanhã vai ser está em germe na criança de hoje. Se fôssemos mais inteligentes e compreensivos, a vida na terra poderia tornar-se edênica. E o caminho para isso seria dos mais simples: considerar a criança como o broto do futuro e condicionar esse futuro por meio do condicionamento do broto. Poderíamos planejar o futuro! Fazer do futuro um sonho de felicidade e beleza, com o simples condicionamento do broto!
Narizinho apareceu na varanda! Veio dizer que Emília estava judiando do Visconde.
― Judiando como? ― perguntou Dona Benta.
― Judiando mentalmente, vovó. Quer que o Visconde mude de idéia, como a gente muda de roupa.
― Que idéia ela quer que o Visconde mude?
― Há um broto de roseira que teima em se voltar para o lado do sol, isto é, para fora da janela. Emília não quer isso. Quer que o broto se volte para dentro, a fim de que quando o broto der rosas ela nem precise levantar-se na redinha para apanhá-las — será só espichar a mão. E o Visconde diz que o broto age assim por causa dum tal "tropismo", que é a irresistível tendência dos brotos de se voltarem para o lado em que há mais luz.
― E que tem isso?
― Tem que Emília não quer que o Visconde admita o tal tropismo.
Dona Benta riu-se. Aquelas crianças brincavam com expressões científicas como outras brincam de bolinhas ou pelota. Emília a judiar do Visconde por causa do tropismo ― a atração ou repulsão que certas substâncias ou fenômenos exercem sobre o protoplasma! Ali no broto da roseira era o fenômeno luz que atraía a protoplasma do broto...
― Luz!... falou Dona Benta. Nem Einstein sabe o que é a luz! Tropismo: atração que a luz exerce sobre o broto humano, a criança?
Quantos problemas, meu Deus! Mas uma coisa me parece certa: está nas mãos do presente condicionar o futuro por meio da moldagem dessa cera mole chamada criança. Desde que a criança é a massa de que sai o futuro, se soubermos lidar com essa massa daremos ao futuro a forma que quisermos ― que planejarmos.
E a boa velhinha devaneou longamente sobre as tremendas possibilidades duma coisa que viesse substituir a atual imbecilidade a que damos o nome de educação, e que seria o Planejamento do Futuro ― O Plano Qüinqüenal que da cera de hoje fizesse sair um Futuro Maravilhoso, planejado, estudado, idealizado, em vez do que, como até hoje, o que o Acaso quer que saia.
Nesse momento o coronel acordou. Bocejou, espreguiçou-se.
― Parece que dormi, comadre...
― Dormiu, sim, uma boa soneca.
O coronel acabou de despertar e recordou-se do que estava conversando. Retomou o fio das idéias e disse:
― Pois é como eu estava dizendo, comadre. Criança a gente doma, como os potros.
― E se em vez de as domar nós a condicionássemos de acordo com um sábio planejamento do futuro?
O Coronel Teodorico abriu a boca. Piscou três vezes. Não entendeu nada.
Dona Benta suspirou, e lá consigo disse para si mesma:
― A dificuldade é essa. Este idiota do meu compadre é o 90 por cento da humanidade. Nada podemos fazer sem o seu apoio — mas como obter apoio de quem não compreende?
O fazendeiro bocejou de novo e tentou prosseguir em suas teorias, mas Dona Benta o interrompeu:
― Durma, compadre. Deixe isso de pensar para mim... (9:297-301)
3. Sair da Quinta Avenida, o torvelinho perpétuo, e cair na Biblioteca Pública, corresponde a mudar de planeta. Reina lá um silêncio de recolhimento, e ainda uma constante temperatura de primavera, por mais que fora o verão escalde.
Mr. Slang levou-me à seção das crianças, que eu ainda não conhecia.
As crianças... Creio que foi Dumas quem disse ser estranho como duns animaizinhos tão inteligentes sai o estúpido bicho que é o homem adulto. Sim, sim. Tem razão. O lindo da criança, o ultra lindo das crianças está em que são naturais. Com o crescer mete-se a educação a fazer do animalzinho natural o animalejo social. Educar vale dizer socializar, isto é, artificializar. Daí a estupidez adulta. Educação... Meio de arruinar a exceção em proveito da regra, disse Nietzsche. Meio de destruir a coisa única que dá valor: — personalidade, individualidade. Mas...
Encantou-me, aquilo. Em duas grandes salas, presididas, do centro, por uma guardiã na sua mesa entre grades (ótimo esse engradamento do único adulto ali existente), desdobram-se, cobrindo as paredes, as estantes baixas onde tudo que é literatura infantil publicada no mundo se reúne. Cadeirinhas de meia altura, mesinhas em miniatura, toda a mobília criada "ad hoc" para os freqüentadores da seção, fazem-nos sorrir logo de entrada. Apesar de estupidificado pela educação, o pobre adulto conserva dentro de si a criança que foi ― e sorri sãmente, animalmente, todas as vezes que algo lhe fala a essa criança.
Assim se deu comigo. Pus-me a sorrir o sorriso puramente biológico, sem intenção, sem causa — o sorriso da criança solta. Aquelas cadeirinhas, aquelas mesinhas, aqueles livros de figuras...
Não há ali regulamento estragador do prazer do consulente; ou então o regulamento é feito de modo a coincidir com os impulsos naturais da criança que entra: ― "fossar" na imensidão de livros, sem atender a mais nada além da sua natural curiosidade e irrequietismo.
Gostei, sim; gostei do sistema. Vi dois meninos entrarem, de narizinho para o ar, farejando. Já conheciam os recantos da biblioteca. Foram a uma estante e sem vacilar um deles puxou certo livro. Sentaram-se no chão para folheá-lo.
Aproximei-me para ver que obra os havia interessado. Era um livro de ciência infantil, aberto na página dos aeroplanos. O mais taludo explicava ao menor uma particularidade qualquer de certo aparelho, talvez expondo uma grande idéia que tivesse na cabeça. O outro olhava apenas, sem ânimo de objetar.
― Um futuro Lindbergh, murmurou Mr. Slang. É assim que eles se formam.
― Estou gostando imensamente da liberdade que gozam aqui as crianças, Mr. Slang! Deitados sobre o livro, no chão, esses dois! Mas isto é único! Chega a fazer-me perdoar vários crimes da América.
O prazer das crianças é ali intenso, porque podem mexer à vontade. O "não faça isso, não bula nisso" não existe. Podem tirar das estantes os livros que desejarem, dois, três, quatro ao mesmo tempo, e vê-los, lê-los, cheirá-los quanto quiserem, onde e como quiserem — no chão, como os nossos dois futuros aviadores, nas mesinhas, nas cadeirinhas de balanço. E nem sequer necessitam repô-los no lugar. Nenhuma obrigação ali, além da de se regalarem com a livralhada deliciosa, cheia de coelhinhos que falam, como o famoso Uncle Wrigley que todas as crianças adoram; e a Raggedy Ann, boneca de pano famosa, e Alice in Wonderland, e Robinsons de todos os jeitos, e Gullivers de todos os formatos, e Tom up my thumb e Cinderela...
Quanta razão tinha Peter Pan, o menino que jamais quis crescer! murmurei com toda a sinceridade de alma. Que asneira crescer, ficar gente grande, ter de virar bicho social ― estúpido, hipócrita, recalcado... Ser um Hoover, atrapalhadíssimo com os tremendos problemas do após-guerra, quando se pode ser aquele garoto, que sonha talvez um novo aeroplano, sem asas, sem motor, sem rabo...
Mr. Slang concordou, confessando que a vida lhe fôra um perfeito sonho mágico até o dia em que perdeu a crença nos coelhinhos que falam, nas fadas que com a varinha de condão viram uma coisa noutra, nos príncipes encantados que se casam com princesas mais encantadas ainda. E como contou vários episódios da sua infância de sonho, passados no Kensington Garden de Londres, parque onde jamais se atreveu a entrar depois de adulto ― de medo de matar as deliciosas impressões ali recebidas em criança. (15:211-214)
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Ver: LITERATURA INFANTIL-JUVENIL 8 (9:249-256)

EPOPÉIA
— Pura verdade, meu filho. A navegação a vela foi uma epopéia.
— Que é epopéia, vovó? — perguntou a menina
— Eu sei! — exclamou o menino. — Epopéia é, por exemplo, Os lusíadas, de Camões, não é, vovó?
— Não é, meu filho. Dar exemplos não é definir. Epopéia quer dizer poema em que o poeta canta uma grande empresa heróica, uma alta façanha. Os lusíadas são uma epopéia mas "a epopéia não é, por exemplo, Os lusíadas..."
— Mas então, vovó, navegação é epopéia? É algum poema?
— Sim. É um poema não escrito, porque está acima das forças de um poeta cantar a série infinita de dramas, heroísmos, abnegações e sacrifícios que enchem os anais da navegação. (21:106)


ESCREVER
1. Tua carta é um atestado da tua doença: literatura errada. Julgas que para ser um homem de letras vitorioso faz-se mister uma obsessão constante, uma consciente martelação na mesma idéia —- e a mim a coisa me parece diferente. Tenho que o bom é que as aquisições sejam inconscientes, num processo de sedimentação geológica. Qualquer coisa que cresça por si, como a árvore, apenas arrastada por aquilo que Aristóteles chamava entelequia — e que em você é o rangelismo e em mim o lobatismo. Deixa-te em paz, homem, não tortures assim o teu pobre cérebro. Andas a fazer com ele como os comilões ininteligentes que comem até adoecerem. Esqueça que há literaturas no mundo e viva aí uma vida bem natural. Ande muito a pé ou a cavalo, converse com toda gente, coma bem, namore caboclinhas nas estradas, vá aos serões do senhor Cura, arrote - e quando dormir, ronque. Verás que boa é a vida sem literatura. E também verás como fica boa a literatura quando o corpo está contente.
Já notei que esses constantes e permanentes contatos com as Grandes Idéias e os Grandes Prestígios operam do mesmo modo que aqueles inúmeros "confortos" do Jacinto Galião das Cidades e as Serras. Enfaram, esmagam. Pensamos que aquilo saiu da cabeça dos autores como Minerva da cabeça de Júpiter e achamo-nos inferiores, com grande dor do nosso amor próprio. E, perturbado, com os olhos tontos pela doença, chegas até a ver em mim algo nuevo, quando na realidade o que há é um pouco da coisa saborosa que o Sieur de Montaigne inventou (literalmente): bom senso, horse sense, como dizem os ingleses - senso de cavalo. O Bom Senso é a filosofia da justa medida, do ver-claro, do enxergar até de noite, como os cavalos.
Perguntas quantas horas "literatizo". Nem uma, meu caro, porque só leio o que me agrada e só quando estou com apetite. Não troco uma conversa com uma macaquinha (o sexo na mulher corrige a banalidade, no homem agrava-a, diz Machado) pela melhor tragédia de Eurípedes, porque por mais banal que seja a moça é sempre mais humana que um livro — e o humano quer o humano. Ler e comer, só quando há apetite; fora daí é uma insuportável corv‚e. Também não escrevo por obrigação. Escrevo quando os dedos comicham — ou quando o Benjamim me forja a escrever. Neste caso é o meio de ver-me livre do Benjamim. Não tenho horas prediletas — minhas horas são as que coincidem com a disposição. Há horas em que nos sentimos extraordinariamente aptos para pensar e tudo nos vem fácil e claro. Outras há em que estamos imaginosos, todo cheios de casulos a picarem, como ovo na hora de sair o pinto. Queira você tirar o pinto antes do tempo — o pinto morre. Estômago e cérebro: duas respeitabilidades. Respeitêmo-las, Rangel.
Estou de viagem para Taubaté, onde vou ganhar dinheiro e juntá-lo para o sonhado tour du monde. Podias te mudar para lá e organizaríamos o trust da advocacia no Norte de São Paulo. O Benjamim seria o nosso representante em Pinda e o Pereira de Matos em Caçapava. Sare, homem! Estás malíssimo de engurgitamento literário. Vomite o Flaubert. (1:47-49)
2. Escrever é como comer, exige fome ou pelo menos apetite... (1:129)
3. Mas não tolero escrever por obrigação. Traduzo quando quero. Faço coisas para A Tribuna quando quero. Do contrário, sentir-me-ia escravo no eito. (1:250)
4. No momento em que escrevemos, o nosso espírito acostuma-se com os defeitos, não os vê. Mas se passados uns dias relemos, já os defeitos se visibilizam. (1:255)
5. Que importa que a massa nos não entenda? À massa compete admirar. O entender é só das minorias. Atenta neste belo clarão de Fialho: "Tomou as mãos do agonizante, um mármore molhado." A minoria entrepara, atônita com a beleza. A maioria não para, passa, mas admira, porque não entendeu - o inteligível é o supremo pasmo das multidões. Vejamos agora isso dito no estilo bunda: "Tomou as mãos do agonizante: estavam geladas por um suor frio." O clarão da frase de Fialho vira aqui uma luzinha de vela de sebo; entendem-na todos; a clareza democrática atinge o apogeu - mas que analidade! Língua bunda, estilo anal, idéias de toda-gente, aninhadas como piolhos dentro de bolas de escaravelho. O escaravelho da adjetivação dessorada pelo advérbio. O adjetivo sempre médio (porque in medio virtus! O in medio em tudo na vida só dá o medíocre). Nunca o adjetivo extremo; e para desenervar o adjetivo médio de suas últimas fibrilas ainda não flácidas, um auxílio pré ou posposto. Este auxílio é sempre muleta. É um modificativo que dessangra e empalidece o adjetivo, cambando o vigor da frase. (2:51-52)
6. É inútil andares ajuntando e mandando opiniões sobre minhas literaturas. Não dou valor a essas reações, nem as procuro. Escrevo porque tenho de escrever, porque sou forçado a escrever, para dar vazão ao pus dum furúnculo scribendi de incurável intermitência - não para conquistar nome, glória, o que seja. E a prova é que para não me inscreverem no rol dos literatos, a mim que não passo de simples fazendeiro, voltei a usar os velhos pseudônimos com que me escondia no Minarete - Hélio Bruma, Mem Bugalho e Chico Taboca (este, invenção do Simões Pinto e saiu como o nariz dele). E não escrevo mais no Estado nem na Revista do Brasil, à qual havia prometido um artigo sobre o pintor Almeida Júnior, porque estou em maré vazante e com horror aos literatos. As rodinhas do Pirralho, da Vida Moderna, do Estado, da Cigarra e outras que freqüentei em meu último mês em S. Paulo, fizeram-me mudar de opinião quanto a estes urupês daqui. O caboclo parece-me hoje açúcar refinado perto do açúcar preto que são os urupês citadinos de gravata. Que pulhas! (2:122-123)
7. Isso de melhorar o escrito velho não melhora coisa nenhuma; há o caso do santeiro que de tanto apurar o olho do santo deixou-o cego. (2:175)
8. Falas em colaboração para a Tribuna, paga... Isso é grave e merece ponderação. Escrever é uma maçada, como bem sabes, depois de passada a época em que a gente escreve unicamente pelo prazer de ver-se impresso. Ora, eu já passei essa época feliz e hoje só concebo que se extravaze pelo bico da pena tantos ideais sobre umas tantas tiras de papel quando alguma vantagenzinha resulta disso. E pensando assim, assim o faço. Por isso, se quiseres, te mandarei umas amostras de artigo, de vários gêneros, a ver se encontram cotação na bolsa jornalística daí. Se não, você nos devolverá, porque não é nenhuma honra a gente ver-se impresso de graça e lido a cem-réis por pessoa. (3:101-102)
9. Como vês tenho andado constante na "Tribuna" - o que ainda não pude conseguir é prestar: o interior burrifica e escrever vai muito do hábito, que perdi com um interregno de vários anos. (3:109)
10. Não pare de escrever. Como uma pianista se torna uma Guiomar, se não trabuca todos os dias no exercício para adquirir agilidade nos dedos e apuramento do ouvido? Discipline o corpo. Todos os dias, à mesma hora, sente-se à mesa e escreva. Dentro dum mês estará acostumada - e pronto. (4:43)
11. O segredo de escrever bem está aí. O leitor é um túnel. O escritor tem de atravessá-lo com o seu comboio de idéias. Se as idéias não vão na ordem prescrita por Brisbane, uma depois da outra, uma bem engatadinha na outra, fica na porta do túnel um bolo de freight cars que não passa, que não entra, está entendendo?
Você, exuberante que é, demasiado rica de idéias, amontoa-as em excesso na mesma frase — embolota-as, encaroça-as, esquecida que está levando-as a atravessar um túnel escuro, úmido, apático, e geralmente estúpido. Se você pretende escrever para V. mesma, então está ótimo, porque, como mãe das idéias, todas se te apresentarão claras como são claros e louros até os filhinhos pigmentosos das mães pretas. Mas se pretende levar comboios de idéias (contos) através do túnel escuro chamado leitor, então tem de mudar de tática e seguir o conselho de Brisbane. Sabe quem era ele? O maior jornalista americano, o mais lido, o mais bem pago. Por quê? Porque fez essa mirífica descoberta de que o leitor é um túnel escuro. (4:66-67)
12. Se V. pretende dedicar-se à literatura o meu conselho é que leia e releia Machado de Assis, sobretudo nos contos. É o único mestre que temos. Tudo mais perto dele se apaga. Durante este carnaval reli-lhe 5 livros, e humilhei-me da minha literatura. Diante dele sou a maior das bestas. (4:69)
13. Compense os amargozinhos do cotidiano com a criação literária - com a fatura do romance. Nada absorve tanto. Nada nos faz tanto "esquecer". É como a pinga para o pau-d água. Para esquecer os seus males físicos, Gibbson absorveu-se na obra que o imortalizou. A crítica reconhece que se gozasse de boa saúde não teria criado coisa tão grande — ter-se-ia dispersado. (4:228)
14. Resta agora que se realize e não desaponte o pagozinho natal. Isto é - que escreva as Memórias. Há dois modos de escrever. Um, é escrever com a idéia de não desagradar ou chocar ninguém - escrever ataulfamente, academicamente, gaspardutramente, cardinaliciamente, nãofedenemcheiramente. É o meio mais prático de não ser lido por ninguém de perpetuar-se inédito embora publique mil obras. Outro modo é dizer desassombradamente o que pensa, dê onde der, haja o que houver - cadeia, forca, exílio. Se o futuro Palma escritor tomar pelo primeiro caminho, irá para o céu quando morrer e terá na terra as bênçãos de todos os bispos e mais "máquinas de manter o status quo". E se o Palma escrever com fiel gramática e bem comportadamente, como Xavier Marques, o mais aguado coco literário que os cocais baianos produziram, é capaz de acabar na Academia Brasileira de Letras, com um panegírico do Ataulfo colado no fió. E ao morrer será enterrado com fardão, o famoso fardão todo galões — um caixão de defunto dentro do outro. Mas se disser o que pensa, em estilo brabo como o do Vasconcelos Maia, um maravilhoso contista que vocês têm aí, Palma o Marujo receberá as palmas da vitória e terá palmas até dos ranzinzas ao tipo lobatiano.
Vamos ver que caminho escolhe - o dos bispos ou o dos pestes. O assunto é ótimo. Todo assunto é ótimo. O que raramente é ótimo é o manipulador do assunto. Porque os homens são uns quando falam — interessantes, expressivos, pinturescos, e ficam idiotas quando escrevem. O mesmo que diante do fotógrafo. Raro o fotografando que diante do fotógrafo não "muda de cara" — deixa de ser o que naturalmente é para tornar-se o lorpa que é em geral o sujeito fotografado com pose. Cumpre distinguir. Se é fotografado instantaneamente, não tem jeito de virar lorpa e sai como Deus o fez; mas se se fotografa com pose, ah, minha Nossa Senhora das Candeias! Como muda!... (4:254-255)
15. E a conclusão a que cheguei aqui a deixo para meditação de Edgar Cavalheiro e outros críticos. Parece que o segredo de escrever e ser lido está em duas coisas — ter talento de verdade e escrever com a maior aproximação possível da língua falada, sem perder, portanto, nenhum dos farelinhos ou sujeirinhas da vida, pois é aí que se escondem as vitaminas produtoras do misterioso e perturbador "quê" das verdadeiras obras d arte". (5:57)
16. Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena — e disso vem o valor da literatura. Por meio dela fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo. (6:3)
17. Uma grande lição para os escritores é o fato de só sobreviverem os livros vividos. E são raros, porque os homens que vivem não têm tempo de escrever; e os que escrevem profissionalmente, não vivem. Poderá chamar-se vida o marasmo do escritor sempre metido entre quatro paredes, a ler o que os outros escreveram e sem ânimo, ou sem jeito, ou sem oportunidade, ou sem temperamento, para viver a crueza e a violência da vida? Eles apenas imaginam a vida, e na pintura duma floresta ou dum tipo não conseguem esconder a imitação inconsciente que em sua arte substitui a criação.
Daniel Dafoe escreveu dezenas de livros. Um só nasceu vivo, e vive ainda hoje, e viverá sempre, Robinson Crusoé, porque foi tomado da boca de um marujo que realmente naufragara e vivera sozinho numa ilha deserta.
Prevost também escreveu às dúzias, mas só a história de Manon Lescaut vive e viverá eternamente, porque nela a vida estua e palpita como um coração ofegante.
O valor de Kipling, de Conrad, de Jack London, está na intensidade e na variedade de vida que esses homens viveram.
Não há em seus livros cena ou paisagem que não ressalte como coisa vista e vivida.
E no caso dos livros vividos pouco importa que os autores tenham sido escritores; a vida interessa tanto à humanidade, que ela tudo perdoa a uma obra vivida. Venha sem forma, venha bárbara, grosseira, incompleta, ao avesso de todos os cânones da arte. Se é obra viva, viverá. (6:117-118)
18. Há os que aprendem a escrever, como os papagaios aprendem a falar; e há os que escrevem por destino, tão organicamente como respiram, suam e o mais. (7:229)
19. Começa a escrever, isto é, a lançar no papel as suas ainda informes reações mentais. (7:332)
20. A hora mais preciosa dum escritor está na concisão. Quem diz em vinte palavras aquilo que outro o faz em cem é, pelo menos num ponto, cinco vezes mais interessante. Que ponto? No tempo que toma o leitor. Mas a regra de ouro da concisão é das mais difíceis de ser seguida. A tendência de quase todos que escrevem consiste justamente no contrário: dizer em cem palavras aquilo que caberia em vinte. (9:167)
21. BENTIM — Quero que o sr. diga o que um jovem deve fazer para ser um grande escritor como o foi.
MURILO — Aliás, o é...
LOBATO — Crescer e aparecer. Esta é uma condição indispensável. Antes que esse jovem cresça e apareça ele não poderá ser nada. Crescendo ele alcançará a maturidade, ele dará tudo de si, porá em relevo as qualidades latentes que ele possua e se, de fato, ele tem qualidades, esse jovem aparecerá. De maneira que o aparecimento de um jovem no mundo das letras é uma coisa que depende exclusivamente das qualidades naturais desse jovem. Se ele tiver qualidades boas, ele vencerá; se ele não tiver qualidades boas, ele fracassará e com muita justiça. Eis o que pensa o velho Lobato, com a sua longa experiência acumulada.
MURILO — A conversa está muito interessante, mas urge terminar. Pediria permissão para rematar com duas ou três perguntas de ordem pessoal. A primeira seria esta: de todas as suas obras, qual a que mais lhe agrada, qual a que fala mais de perto ao seu coração?
LOBATO — De todas as minhas obras, a que mais me agrada é a que me dá mais dinheiro, a que me dá maior lucro. Revendo as minhas contas eu vejo que é "Narizinho Arrebitado", porque já vendi uma série de edições de "Narizinho", mais de 100.000 exemplares. Portanto, esta é a querida do meu coração. Se eu dissesse qualquer coisa diferente, seria mentira ou hipocrisia.
MURILO — Bem. E agora, Monteiro Lobato, uma outra pergunta de caráter estritamente pessoal: se lhe fosse dado viver de novo a sua vida, gostaria de ter vivido como viveu, teria, por exemplo, sido escritor?
LOBATO — É uma pergunta muito insidiosa esta. Várias respostas me acodem de pronto, mas não sei se elas merecem exposição. Eu francamente não sei... não sei se voltaria a esta posição. Talvez voltasse porque há nela uma coisa que me seduz muito — é o interesse que as crianças revelaram por uma parte de minha obra: a parte infantil. O grande número de cartas de crianças que recebo, a sinceridade com que elas dizem e o fato de virem não só do Brasil, como de outros países, sobretudo dos países de língua espanhola, me fazem crer que se eu voltasse a viver de novo a minha vida, eu ia entrar pelo mesmo caminho, porque não creio que em qualquer outro setor me fosse possível ter as mesmas compensações que tenho com as crianças. Ainda agora mesmo eu recebi aqui uma senhora, mãe de Lilibeth. Essa Lilibeth é uma menina encantadora, que mora na Rua Monte Alegre, que prometeu me visitar. Eu estou ansioso, à espera da visita da Lilibeth. Eu considero uma visita de Lilibeth um prêmio. Ora, sendo inúmeras as crianças que me visitam e sendo a maioria delas crianças de grandes qualidades, que eu aprecio imensamente, eu considero cada uma delas um prêmio. De maneira que eu sou um sujeito multipremiado. E um sujeito que se acostuma a ser multipremiado numa vida, se voltar outra vez ao mundo ele quer continuar assim. De maneira que eu acho que queria isso: viver de novo a minha vida, a vida que eu vivi escrevendo coisas mais variadas, de mais interesse para as crianças e mais, porque as crianças me condenam uma coisa: que eu escrevi pouco para elas; poderia ter escrito muito mais. E eu creio que sim. Eu perdi o tempo escrevendo para gente grande, que ‚é uma coisa que não vale a pena.
MURILO — Chegamos à última pergunta: nesta hora, neste momento, qual seria o seu maior desejo, Monteiro Lobato?
LOBATO — Meu maior desejo, neste momento, seria ver este locutor pelas costas e eu já lá em cima, no meu apartamento, na cama, para descansar desta esfrega que eu levei hoje." (9:347-349)
22. Minha literatura, meu caro, não é literatura usual dos "homens de letras" convencidos de uma porção de coisas e sem olhos para os pés, como os pavões. É literatura de ocasião. É ramo da grande indústria do recuperamento, ou do aproveitamento das coisas do chão. Por isso não escrevo habitualmente — só quando o acaso me favorece com o encontro de uma coisa feita pela vida e só à espera de quem a tome, lapide e engaste. Indústria. (12:57-58)
23. E que estilo, Veríssimo! A língua te obedece como massa de pão entre os dedos do bom padeiro. Absolutamente limpo de estáticas — maneirismos, exibicionismos, flores de cera, besteiras. Escrever bem é isso, Veríssimo — é escrever como V. escreve — organicamente, com o correntio de uma função natural da nossa filosofia. Escrever bem é mijar. É deixar que o pensamento flua como a vontade da mijada feliz. (12:64)
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Ver: CARTAS 5 (2:54)
ESTILO 17 (8:327-328)
FORMA 3 (10:22-23)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)

ESCRITOR MODERNO
O escritor moderno não pode mais ser ao tipo daqueles pobres iluminados da geração Coelho Neto, totalmente ignorantes de que as ciências do homem existem e permeiam tudo, e tornam inaceitável qualquer manifestação artística que não traia as suas imensas, tremendas conquistas. (12:62)

ESCRITORES
1. Bilac perguntou ao Heitor de Morais por que motivo eu lhe fugia (isto é, por que o não incensava) e achou-me "esquisito". Acostumou-se o grande poeta ao coro perpétuo de "Ohs!" da rodinha do Estado. Os literatos célebres lembram-me os políticos que jamais caem, como o Rodrigues Alves. Estes espantam-se duma oposiçãozinha; aqueles não admitem essa coisa linda que é uma pequenina animadversão gratuita. Porque têm um nome do tamanho dum bonde amarelo e moram no andor da apoteose, acham inadmissível que um ignaro anônimo tenha a preguiça do rapaz‚ e por higiene fuja ao beija-mão. (2:144)
2. O que me increpas ao estilo é certo. Reconheço-o e é deliberadamente que sorvo as brutezas de Camilo. Esse galego soa a carne crua numa terra em que, a avaliar pelo "amarelão" do estilo comum, os escritores só se alimentam de marmelada branca. Em todas as literaturas eu procuro sempre o carnívoro — os Kiplings, os Menckens, os Gorkis — e ponho os alfenins de banda: Pierre Loti, Catulle Mendes e mais mimos de Vênus. Meu regime dietético é dos cloróticos: Ferro Bravais, bifes vermelhos, coisa bem azotadas. Evito farinhas. O fim em vista é mineralizar o Verbo para ver se não morro da tísica mesentérica do "estilo brasileiro", para o qual devo ter predisposição congenial: "Colhe hoje mais uma primavera no jardim risonho da sua preciosa existência, etc." O estilo nacional, morno e sorna, revê capilé com goma, xarope de melancia, mingau de araruta.
Camilo é o estilo estadulho. Dá porradas geniais! Kipling é o estilo White Label. Enebria depressa. Gorki é vodka. Derruba. E nós? Alencar é capilé com água Florida, bebido em "copo de leite". Macedo é capilé com canela, bebido em caneca de folha. Bernardo Guimarães é capilé com arruda, bebido em cuia. Coelho Neto é capilé com Grécia, bebido em ânfora de cabaça. Machado de Assis é capilé refinado, filtrado, puríssimo, bebido pela taça da cicuta de Sócrates. Afrânio é capilé com ácido fênico. Ruy é... Mentira! Ruy não é capilé. Euclides também não é — mas se fosse, seria capilé com geodésia. Grandes ou pequenos, bons ou maus, em todos nós o capilé perce; como transparecem em todos nós, socialmente, as taras vindas naquela nau de Tomé de Souza que nos abasteceu a estirpe com 400 degredados e 40 jesuítas. (2:162-163)
3. Recebi a sua de 14, com os retratos... que entusiasmo, meu Deus! remédio para curá-lo é um só: Chegar até aí, jantar com vocês na ponta do quebra-mar e... decepcioná-los! O melhor da festa é sempre, sempre, sempre, esperar por ela. Os escritores são grandes e interessantes vistos através de sua obras. De perto, nas pessoas meu Deus! São como bestas e vulgares! Eu tinha uma fã que perdia a fala cada vez que se encontrava comigo em qualquer parte. Resolvi curá-la. Mostrei-me como sou e ela... não só nunca mais perdeu a fala ao ver-me como nunca mais quis saber de mim. Com você, o Aramis e a turma lobatífera vai se dar o mesmo. Vocês almoçam-me ou jantam-me na ponta do quebra-mar e...
—_ "Que decepção, hein, Aramis? É um cretino como todos os outros", e no túmulo desse Lobato idealizado, que tanto te entusiasma, depositarás a florzinha amarela da desilusão! (4:238)
4. Em matéria de escritores, temo-los de duas categorias: a dos necessários e a dos inúteis. Uns revelam o país a si próprio, bem vendo, bem sentindo e bem reproduzindo os estados d alma e de corpo da brasileira coisa e da brasileira gente; outros tomam o tempo dos ocupados com uma arte pela arte singularmente pulha.
Uns constroem deveras uma literatura: fixação exata do momento étnico, cósmico e mental. Outros bizantinizam. Cronistas, às vezes brilhantes do omini re, a varridela saneadora do tempo não deixará da agitação desses escritores uma isca sequer. (8:48)
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Ver: LITERATURA BRASILEIRA 1 (10:3-9)
POETISA (6:187-188)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)
ROMANCISTAS 1 (7:228)

ALBERTO RANGEL: Alberto Rangel levou ao apogeu a arte de construir pirâmides de acrobacia, com idéias que se agarram umas às outras, pelas mãos ou com os dentes, e com encantadora perícia tenteam no nariz vocábulos raros ou técnicos — tudo perfeitamente matem tico, e a tal ponto que se retirarmos um toda a pirâmide desaba em escombros. Os assuntos, os temas, as paisagens, os tipos e o enredo só entram ali como pretexto para a demonstração da perícia malabar do autor.
— Quer ver que maravilhoso arranjo melo-estético-científico eu faço com caboclo maleiteiro do Amazonas?
E faz. Faz uma perfeita maravilha melo-lítero-científica, com todas as dificuldades brilhantemente vencidas, para encanto dos cultos apreciadores do "raro". Mas a coisa descrita não tem importância. Mera talagarça. Mero pretexto para a "performance", como diria Guilherme de Almeida. (7:230)

ALMEIDA GARRETT: Peguei de Garrett estes dias. É elegante, vivo, chistoso e libérrimo, no sentido de fugir a cangas de escolas e métodos. Estou em Arco de Sant Ana e Viagens. Falta-lhe a genial truculência de Camilo. (2:64)

BERNARD SHAW: E depois de Wells terás de ler Bernard Shaw, o Voltaire moderno. Este te dará o modelo do homem que sabe pensar e apresentar idéias na forma mais perfeita. Shaw constitui um complemento de cultura, um remate final. Sem lê-lo, nenhum homem moderno completou seu curso. Mas Shaw está em inglês; não foi traduzido ainda em nossa língua — e parece que V. não sabe inglês. Outro percalço tremendo. Não saber inglês em nossos tempos é ser apenas meio homem — um toco sem pernas. De volta para o Brasil tenho idéia de fechar minha vida com a tradução de Shaw — mas uma tradução capaz de ser aplaudida pelo terrível velhinho — a minha obra prima. Isso porque não encontro um melhor fim de vida do que passar meus últimos anos mergulhado no oceano do novo Voltaire, como um bicho de goiaba dentro da goiaba. Shaw é mar e a mais deliciosa das goiabas. (18:47)

CAMILO CASTELO BRANCO: 1. Confundes bobamente duas coisas: clássicos e Camilo. Camilo não é clássico no sentido gramaticóide do termo; e para afundarmos os dois no mar do classicismo, nunca te convidaria eu, porque os aborreço sobre todas as coisas. Convidei-te para o passeio através de Camilo como remédio contra o estilo redondo dos jornais que somos forçados a ingerir todos os dias. Camilo é laxante. Faz que eliminemos a "redondeza". É a água limpa onde nos lavamos dos solecismos, das frouxidões do dizer do noticiário — e também nos lavamos da adjetivação de homens copados como Coelho Neto. Camilo é lixívia contra todas as gafeiras. E além desse papel de potassa cáustica, ele nos dá essa coisa linda chamada topete. Camilo nos "desabusa", como aos seminaristas tímidos um companheiro desbocado. Ensina-nos a liberdade de dizer fora de qualquer forma. Cada vez que mergulho em Camilo, saio lá adiante mais eu mesmo — mais topetudo. E o topete filosófico eu o extraio de Nietzsche. Agora estou fazendo uma viagem com o meu topetudo estilístico em Vinte Horas de Liteira. (2:10-11)
2. Quanto a Camilo, vejo-o sempre o mesmo e único. E cada vez mais me dá Eça a idéia dum creme Chantilly, muito gostoso. Camilo é rosbife quase cru, vermelho. A semana passada li dum fôlego Agulha em Palheiro. Que garbo! É um romance saído de dentro dele como um rato sai dum buraco. É um jato. E sabe que anda em Portugal um vivo movimento de reação pró-Camilo? O câmbio do Eça cai, e como não há nenhum "grande novo", o remédio é retroceder umas estações e parar em Camilo. Amiudam-se os estudos camilianos. Recebi mais um de Pimentel e há dias o Jornal do Comércio trouxe colunas sobre ele.
Eu de mim não quero outro mestre. Leia isto:
"As portuguesas caem de maduras, ou porque a lascívia as sorveu antes de sazonadas, ou porque vêm ao chão, de velhas. As indígenas são pardas como pão de rala, têm uns palavriados que travam a ervilhaca e gelam os mais escandescidos desejos. São carnes de ralé onde amor não acha em que pegue. Lembra-se (é de Camões que Camilo fala) das lisboetas que chiam como pucarinho novo com água."
Que desgarre!... "chiam como pucarinho novo com água..." e mais adiante:
"Mas entrevejo na cerração de três séculos que o poeta, na apoteose de Albuquerque terribil e do Castro forte, elaborando a epopéia que sagrou a idolatria de semi-deuses uma falange de piratas, escrevia com as mãos lavadas de sangue inocente do índio, a quem os conquistadores apenas concediam terra para sepultura como precaução contra a peste dos cadáveres insepultos, quando não exumavam os dos reis indígenas, na esperança de que lhos resgatassem com aljofar e canela. Façanhas de Camões não sei decifrá-las nos seus poemas; eles, os poemas, só por si sobejam na sua história como ações gloriosíssimas".
Isto, Rangel, não é dizer passado por alambique, mas mijado! Nada aqui da impecabilidade estafante de Flaubert, anti-natural, anti-humana, anti-artística, toda ficelles, receita e formas. As ficelles do Eça também transparecem muito, e começam a enjoar quando percebemos que são ficelles. Camilo é floresta virgem, irregular, com perambeiras e espigões, com taquaruçus, bromélias, borboletas de azul celeste em vôos boiados, e mamangavas tremendas e sapos que espirram leite venenoso. Eça é um jardim francês daqueles que Le Notre desenhava. É possível levantar a planta dum jardim, mas quem tira a planta duma floresta virgem — dum Camilo? Eu recomendo a Boemia do Espírito aos que sofrem de lazeira de estilo. (2:25-26)
3. Em Camilo noto curiosa evolução: nos últimos livros, velho e doente, é ele um feixe de ossos amarrados por uma rede telefônica de nervos mais vibráteis que cordas eólias. Seu estilo reflete o Camilo do fim. Não há ali células de gordura. Nada balofo, só durezas. Veja na Boemia do Espírito:
"Se o adversário Rodrigues almeja desforrar-se da justiça dura e rude com que o incomodo, haja-se por vingado na repugnância com que lhe replico. Tenho pesar de haver sacudido com a pena e a luva que me atirou. Enganaram-me uns fementidos jornais que por aí inculcaram o teólogo com a adjetivação encomiástica das pílulas de família. Caluniaram-no. A sua ignorância dava-lhe jús a uma sossegada irresponsabilidade em coisas de letras. Colocaram-me nesta atitude de lutador pimpão, em mangas de camisa, obrigado a defender-me das vaias de ignorantes ao cabo de 36 anos de estudo apenas interrompido pelas dores de todas as espécies e pelas prostrações das longas vigílias, etc.
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Pelo contrário, escrevo com a tristeza dos velhos que, na penúltima estação da viagem, olham para o passado e não avistam na via dolorosa clareira onde não avulte um grupo de miseráveis. A Teologia era a única potência que me tinha deixado passar sem pedrada, mas afinal nem essa... Ela depois disso raros filhos desova que não venham gafos de oftalmia purulenta que os não deixa encarar as frechas aflitivas da luz. Alguns, porém, conheço com a íris normal, sã, remirando a fito todos os esplendores da ciência, etc.
Temos aqui 13 adjetivos para 198 palavras — 6%! Não pode haver linguagem mais virilizada, mais enxuta, mais ossos e nervos — e gordura nenhuma. Nada amolengante. Lembra vergalho de boi estorricado ao sol. Só 13 adjetivos e todos matematicamente exatos. Vejamos Fialho:
"Tomou as mãos do agonizante, um mármore molhado. Está a amanhecer lá fora, e os cinzentos azuis dessa madrugada de inverno entram no quarto como albescências funérias que me espantam."
Temos aqui 3 para 30 palavras — 10% e em descritivo!
O pior vezo nacional é cevar o estilo como se cevam porcos. O ideal literário parece que é a banha. Está gordinho? Ah, então está lindo.
Toca jejuar até emagrecer às justas proporções — jejuar de adjetivos modificatórios. São a gafa. O qualificativo é tinta boa, viva, crua; o modificativo é água diluente, dessorante: "Radiava um céu azul"; o azul está forte, na pureza com que sai dum tubinho do Ceruleum Blue do Windsor & Newton. Posponha-se-lhe um "desmaiado".
Radiava um céu azul desmaiado...
Adeus, vigor! Junte-se mais um "diafano",
Radiava um céu azul, desmaiado, diafano...
e do Portugal nervoso de Camilo saltamos para o Brasil toucinhento de João do Rio. Já é aquarela, água rala, água parada, pintura de moça. Dirão: "É um gênero como outro qualquer." Sim, mas que não sobrevive, como sobrevivem os fortes claro-escuros de Rembrandt — e o tudo na biologia é sobreviver. O que já nasceu desbotado, continua a desbotar pela ação do tempo. Cumpre notar que a coisa descrita perde, na passagem do cérebro do autor para o do leitor, uns 30% de força pictural, como a corrente elétrica perde de intensidade na passagem do gerador para o quadro de distribuição. (2: 52-54)
4. O mérito de Camilo está em que nos ensina todas as acrobacias da língua, e nos mostra todas as "bravuras" e ainda nos diverte. Quando se põe a troçar é enorme! Quando vira palhaço e vai descambando para o reles, sai-se com um disparate de gênio e salva tudo... Em matéria de diálogos de gente do povo, não sei de nada igual. Veja isto, do Onde está a Felicidade?
O João Antunes, por alcunha o Cágado, natural de Lixa, viera rapazito de 12 anos para Lisboa, conduzido pelo seu tio materno, o tio Antonio Cabeda, com destino de embarcar para o Brasil. Achando-se no cais da Ribeira com o dito seu tio, admirando o tamanho do iate, que o bom Antonio Cabeda denominava uma anau de guerra marítema, com grande espanto do rapaz chegou-se a eles um homem gordo, de jaqueta de ganga amarela e chinelos de ourelo, perguntando ao tio Cabeda se o rapaz embarcava.. À resposta afirmativa, disse o homem gordo, mandando que se cobrissem os admiradores da anau de guerra marítema, que era dono de duas lojas de mercearia na Fonte Taurina, e muito desejava manter em uma delas um rapaz que tivesse boa pinta para o negócio.
— A respeito de pinta, ela aqui está como se quer, disse o tio, levantando com orgulho a cara do sobrinho, como o troquilhas que mostra os dentes duma cavalgadura.
— Não tem mau olho, não, disse o merceerio. Quer V. deixá-lo comigo? O Brasil é em toda parte. Tenha ele cabeça e boa aquela para o negócio, que em toda parte se arranja dinheiro
— Tu queres ir ou ficar, rapaz?, perguntou o tio, atirando com a perna direita sobre o pau de lodo.
— Eu... resmungou o rapaz, fazendo em torcidinhas a borda do barrete.
— Vá... É decidir! Isto é maré de encambar enguias. Assim como assim, este senhor diz bem: o Brasil é em toda parte. Queres ou não queres?
— O que vosmecê quiser; eu antes queria ficar aqui mais perto da minha gente. Acho que o Brasil é por aí abaixo muito longe. Etc.
Qual é o naturalista que apanha viva assim uma cenazinha destas, de todos os dias? Eis porque incursiono nos outros, mas em matéria de língua minha base de operações é Camilo. (2:65-66)
5. Eu continuo a não achar salvação fora de Camilo, a ponto de não conseguir ler Os Maias. Já o Machado de Assis eu o alterno com Camilo. Donde concluo que em matéria de estilo há dois, Camilo lá e Machado aqui. Todos os demais cansam. Agradam muito no começo, como um pedaço de bolo inglês, mas acabam enfarando. Camilo e Machado são como o pão com manteiga — coisas de que ninguém enjoa nunca.
Rangel, não abandones o Camilo! É um par de halteres, um trapézio, uma barra fixa, um campo de futebol, um barco de regata ou um salão de ginástica dos mais completos onde apuramos todos os músculos da língua. A razão de haver eu parado de escrever ‚ que estou amolando o estilo no rebolo camiliano. Se me pega o fio, volto à arena. Se não, paciência. Fico de fora, no sereno. (2:98-99)
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Ver: VOCÁBULOS 7 (2:13)

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE: Catulo é o grande poeta nacional.
O Brasil possui poetas em barda e alguns magníficos; mas não são poetas universais que jogam com imagens vindas de longe — de Anacreonte a Verlaine. Poetas que tanto seriam brasileiros como mexicanos, franceses ou russos.
Catulo, porém, é o poeta da terra, a harpa eólea que ressoa ao menor arfar destes chãos. Amores, anseios, sofrimentos humildes, cismas vagas, o verdadeiro sentir da nossa gente só nele encontra voz. E que voz! Com que vigor se exprime! Com que inaudita riqueza de imagens novas, sem eiva de reflexo europeu!
Catulo é bem a voz da terra brasílica. Voz das coisas e voz das gentes. Tanto fala nele o amor do vaqueiro como a angústia bracejante da peroba que a queima da floresta deixou semi-carbonizada no viso do espigão.
Aos demais poetas ouvimo-los tomados dum estranho transtorno interno. Uma coisa grande, uma coisa vaga, informe, monstruosa, cresce dentro de nós, expulsa o moderno de importação e nos deixa sozinhos com a raça. Nosso peito se enche de avós, como um albergue tomado de assalto por sombras ambientes.
Acodem tupinambás de pedras verdes nos lábios dos que comiam portugueses com tripas e tudo; acodem velhos lusos de barba em colar; acodem as iracemas que se cruzaram com esses barbadões iniciais; acodem avós fazendeiros de açúcar, bandeirantes, tropeiros que acabaram barões do Império, acodem homens dos garimpos, caçadores de onça, senhores de escravos, sinhás-moças e sinhás-velhas — toda essa gente passada que viveu, amou, chorou e com as armas que pode foi tirando da floresta imensa um país.
Acodem em tumulto para ouvir a língua que foi a deles e ouvir aquelas imagens, únicas que lhes sugerem coisas vistas e vividas. E enquanto o poeta geme ao violão o seu descante, permanecemos assim, obstruídos de raça, no êxtase de íncubos atravancados de veneráveis súcubos avós. (6:136-137)

CHARLES DICKENS: Sabe o que estou lendo com enorme agrado? Macaulay o incomparável, e Dickens. As memórias de Pickwick são um modelo de arte. Diz-se lá num capítulo o que os cacetíssimos psicólogos de hoje dizem em todo um livro. Acho arqui-preciosa a leitura dos ingleses: livra-nos de absorver a infecção luética dos franceses: galiqueira mental que vai dessorando as nossas letras e fazendo-as um luar da francesa. E, fora dos ingleses, leio Camilo; não passo dia sem umas páginas. (2:139)

COELHO NETO: Coelho Neto queixa-se de que recebe poucas "missivas". Isso é sinal de reação, assoupissement. Neto é aquela jaboticabeira que vejo daqui. A folhagem excessiva não me deixa ver o desenho nervoso e bonito do tronco e dos galhos. Se Neto tivesse a coragem de podar-se, que lindo não ficaria! Há nele 200 mil adjetivos a mais. (2:31)

EÇA DE QUEIROZ: 1. Releio Os Maias. Como é grande, no sentido de volumoso. Dava dois, três livros diferentes. Acho que Os Maias seriam um belo romance se fosse traduzido em português e levasse poda de foice. Há frases como esta: "Desde moço fora célebre, na capital, por pôr casas a espanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mês". Acho o Eça o culpado de metade do emporcalhamento da língua no Brasil, onde o lido e o imitado é só ele, ele e mais ele. Mas Eça progrediu muito no fim. A Ilustre Casa de Ramires já está escrita em língua que escova os dentes. (2:58)
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Ver: ESCRITORES - CAMILO CASTELO BRANCO 2 (2:25-26)
ESCRITORES - FIALHO DE ALMEIDA 2 (2:153-154)

EMILE ZOLA: Le docteur Pascal. A sensação de quem sai dum romance de Zola é sempre a mesma, de reconciliação com o mau presente e de imensa esperança no futuro. Pascal é o homem por vir, cidadão desse mundo de verdade e justiça que Zola sonhou. Também Clotilde é a mulher futura, companheira meiga dos futuros Pascais. Nascidos assim fora de tempo, caíram vítimas da precocidade, hostilizados pelo meio.
É grande Zola nestes revôos pelos países quiméricos donde traz criações deste jaez. E é o maior dos românticos. Abandona o passado e romantiza o futuro. Lógico, talvez sua obra morra por excesso de lógica. Todo excesso mata. (7:38-39)
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Ver: ESCRITORES - HONORÉ DE BALZAC 1 (1:354-355); 2 (7:6-7)
ESTILO 11 ( 2:59-60 )

EUCLIDES DA CUNHA: 1. Tua análise do estilo rompente de Euclides me satisfaz. A ossatura e o músculo, ele os consegue como dizes. Mas não bastaria isso. Sem a rede de nervos dum pensar original, fortemente enfibrado pelo metal deploy‚ das ciências naturais e sociais e da filosofia moderna, bem digeridas e assimiladas, Euclides não seria esse fenômeno novo que nos esbarronda, um homem que tem o que dizer, sabe o que diz e o diz — assombro! — em português de verdade. Porque a língua de Euclides já é a Língua. (2:51)
2. Súbito, um relâmpago. Explodem Os Sertões. A dose de ciência que Euclides ensartou no grande livro soube-nos ao paladar como revelação maravilhosa. Lemo-lo com os cabelos em pé. E quando Euclides citou Gumplowicz, sentimo-nos siderados. Aquilo dava impressão de arma secreta de Hitler...
O fenomenal triunfo d Os Sertões proveio sobretudo da dose de ciência embrechada no livro e do arrojo de suas antíteses. Novidade das grandes. Mergulhados que ainda vivíamos no impressionismo dos "Perfís de Mulher" de Alencar, os relâmpagos euclidianos nos cegavam os olhos. E também não estávamos afeitos ao estilo nervoso, aqui e ali cortado de curtos-circuitos chispantes. Euclides foi o nosso primeiro desasnador. (5:107-108)
3. Na nossa literatura de reflexo, insistentemente água de rosas, cor de rosa, maciazinha, cheia de "pequenas" cor de batata, de morenas de buço, de "Moreninhas" que se perdem com boêmios velhos e se casam com amanuenses de peito afundado; tremendamente burocrática em Machado de Assis; sem um herói que não fosse suburbano, sem uma paisagem que não fosse variante da palmeira com um céu "americanamente azul" atrás, irrompe de súbito Euclides como um Mongol Tonante a chispar raios — raios de metáforas inéditas, uivos de indignação, com asperezas de lixa grossa, com desprezo de todos os veludilhos. A forçar, a reforçar, a dobrar a força dos verbos dessorados com o adminículo do "re" reforçante — ressurte, rebrame, recresce, refoge, ressalta... A enxertar na pobreza do vocabulário beletrístico uma quantidade de termos técnicos de alto efeito analógico — imprimadura, jusante, a montante, incoercível... A introduzir todas as ciências na literatura — até a Geologia, coisa que os nossos antigos vates de cabeleira desconfiavam ser alguma irmã esquecida do velho lote das musas gregas. A arremessar à cara do leitor incauto nomes-bombas: Maudsley, Gumplowicz... A ter a coragem de erguer os olhos dos detalhes meramente pitorescos à grande visão de conjunto — e a ver o país como ele é: sonho de Nabucodonosor. Colosso de pé-no-chão bichento na base (o sertão); de modesta calça de brim no meio (as cidadezinhas); de gravata de seda e cartola no topo (Rio de Janeiro). Indumentariamente civilizado na cabeça ao pescoço (cartola, pastinha, pince-nez de galalite, bigode raspado, colarinho americano, gravata de viscose (Capital Federal); semi-civilizado do pescoço ao umbigo (nos sentimentos de cordura e aceitação resignada, budística, chinesa, do marasmo eterno (o "interior" urbano); barbaresco do umbigo aos pés (no sertão sem fim, lá onde Getúlio acaba e Lampião começa).
E isso num meio geográfico literariamente canaãnesco, todo perfumes da "balsamina em flor", todo sabiás pousados em espanadores em pé (palmeiras), todo borboletas amarelas e agüinhas murmurejantes; mas na realidade, com a exceção do Sul, todo carrascais e caatingas espinhentas, e mandacarús cruéis, e rios que correm para dentro como unhas encravadas, e pantanais que não têm fim, e estiagens re-dantescas, e um sol, ah, que sol! que re-sol! que peste de sol! que eterno Lampião facinoroso!
Euclides, gênio que era, foi o primeiro a ver a realidade do conjunto, a tragédia do homem derrotado pelo meio, e a traçar um grandioso painel ... Gustavo Doré no Inferno, mas sem os arredondamentos clássicos de Doré. Quadro estupendo! E pintou-o com tintas inéditas; não com os tubinhos de aquarela Windsor & Newton ou Gunther Wagner, mas com tintas tomadas do chão: a lama negra dos barreiros, o vermelho do sangue em coágulos dos jagunços, as escorrências sépias do cangaço dos sertões e do cangaço pior da mazela administrativa. E não espalhou essas tintas com pinceizinhos macios de pêlo de marta, sim com estupendas brochas de barba de bode amarradas com cipó arranha-gato. Na "casa dos dois mil réis" da nossa literatura, Os Sertões de Euclides equivalem a um bloco de pedra, trabalhado a picareta por um Bourdelle mongol e estouvadamente atirado para cima de todos aqueles pentinhos e sabonetinhos e miminhos de celulóide. (6:250-252)
4. A arte de Euclides da Cunha, por exemplo, era uma esplêndida demonstração da engenharia e do cienticismo feita com palavras literárias. (7:230)

FIALHO DE ALMEIDA: 1. Talvez seja influência de Camilo e Fialho, esses dois impenitentes. Sobretudo Fialho, que chega a tornar-se antipático de tanta ferocidade. Uma hiena com cirrose no fígado e enjaulada não estilaria tanto fel como a pena desse tranca. Que estilo! Bárbaro como um huno, belo como a saúde. Estilo que não da satisfações a ninguém — que não manda dizer. (2:25)
2. Fialho é um estilo, Rangel! São dois os grandes estilos — Camilo e Fialho. Eça, que eu tanto admirava, parece-me, ao pé destes dois colossos, um alegre cozinheiro de operetas parisienses. Um arregalador. Sabe o que é? Calão de "mambembe". O trabalho deles aparece nos anúncios de espetáculo.




Hoje Hoje
O REI BABAU

Arreglo de "Le Roi Bobeche" de Coignard
por
Eça de Queiroz

A palavra me arrepiou quando a topei pela primeira vez; hoje compreendo o valor expressivo do neologismo. Com grande talento, Eça arreglou Paris para uso de Lisboa.
Mas em Fialho há gênio, há estilo. Possui ele uma visão artilhada de telescópios e microscópios. Vai logo aos recessos mais íntimos, às privadas, aos subterrâneos da alma humana e revela as pudicas e escondidíssimas escorrências. E quando descreve cenários, usa lucilações de relâmpagos. Quis a janela aberta: estava um dia supremo, vivo de sol, com tintas loiras de inverno sobre os montes." (2:154-154)
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Ver: ESTILO 10 (2:22)

FRANCISCA JÚLIA: Tal a feição real que a distingue. Tanta majestade, porém, não lhe apaga e sequer obscurece o brilho. Os versos de Francisca Júlia primam, sobremodo, por brilhantes. É a sua característica: refulgem a cada passo, no felicíssimo da expressão, no entremostrar da imagem, no inesperado de uma evocação longínqua. Senhora do segredo da palavra, do contexto ideal dos termos, tem pronto o vocábulo-padrão para o renovamento das idéias e para as associações novas.
A acusação de impassibilidade e frieza, comum, aliás, a todos os parnasianos, pesa também sobre essa genuína representante da escola. Mas, sem razão, de certo. Não é impassível o que brilha, nem frio pode ser. Brilho é vibração, é luz e calor, é vida, sensível e ardente. (10:189-190)

FREI LUIZ DE SOUZA: Também tentei umas leituras de clássicos, Vieira nas cartas, Lucena, Fr. Luiz de Souza... Não vai. Não me dão prazer nenhum. Jurei ler todo um volume de Fr. Luiz e fiquei perjuro. O mesmo que subir um Himalaia. Por maior que seja a decisão, a gente arreia a meio morro. O sono não deixa. Dormi dez páginas do maravilhoso Fr. Luiz de Souza. E que sono, Rangel! Dos incoercíveis. Duns que eu tinha em menino, quando me levavam ao teatro, de camarote. Lembro-me duma Traviata. Eu fazia esforços inauditos para ver o que acontecia àquela mulher, e consegui manter os olhos abertos até lá pelas onze horas. Aí não agüentei mais. Lembro-me que fiz um esforço prodigioso para ficar acordado — mas o sono me derrubou. Fiquei toda a vida com essa impressão na memória — a incoercibilidade do sono — e agora, nesta idade, vejo a coisa repetir-se, nesta fazenda, por obra e graça do "mavioso", do "maravilhoso" Fr. Luiz, o clássico que recebe os melhores adjetivos. Tanto adjetivo me faz desconfiar. Quando a gente dorme no meio duma coisa, o remorso nos faz dizer maravilhas dessa coisa. Impossível que os outros leitores desse frade também não hajam sentido o "sono da Traviata" que eu senti. (2:64-65)

GILBERTO FREYRE: No caso de Gilberto houve olhares desconfiados. Seu livro era sociologia, jogava com toda a técnica da misteriosa ciência e com a sua estranha terminologia. A desconfiança vinha de ser tudo aquilo muito amável e límpido — ou muito caseiro. Era lá possível que na tal sociologia coubessem vatapá baiano e mais coisas gostosas? E que fosse ciência verdadeira tanto negrinho insinuado nas casas-grandes, e tanta mucama a fazer cafunés nos primeiros herdeiros dos latifúndios? Nos primeiros momentos o Brasil ficou na dúvida ou "interdito", como dizem os franceses, sem saber ao certo que gênero de literatura ou ciência era a tal Casa-Grande & Senzala. Os críticos juravam ser ciência, mas o tom era muito alegre, sadio e pitoresco para ser ciência. Muito transitável. Nossa concepção de ciência ainda estava ligada ao ar macilento, às olheiras fundas, à magreza ascética, aos olhos cansados e exigidores de óculos fortíssimos. Ciência de verdade, só nos livros narcotizantes. Um livro de ciência tinha de adormentar o leitor já nos primeiros capítulos, levá-lo ao cemitério no fim.
Gilberto, porém, dava uma ciência viva, cabritante, sem papoulas, sem impenetrabilidades, e riquíssima de tons humanos. Ele falava em "cheiro de mulata", em bodum de negro, em leituras secretas, em brinquedos de crianças, em anúncios de jornais, em beijos atrás da porta, em modas de vestidos e penteados. E falava muito em comidas. Seu livro era uma casa inteira, com sala de visitas, sala de jantar, quartos de dormir, banheiro, copa, cozinha e quintal. Pois ciência então não era apenas sala de visitas? Em vez de nos pintar uma ficção ele nos pintava um Brasil que nos envolvia de todos os lados, cru, vivo, palpitante. Nada do narcisismo até àquela data obrigatório, nem da gravidade mazorra. Nada do preto que se entraja de ariano e como ariano procura impingir-se no baile — embora, como o asno da fábula que vestiu a pele do leão, ficasse com a catinga de fora.
Mas a desconfiança foi passando e Gilberto venceu. Ensinou ao país a Gaia Scienza de Nietszche ou essa deliciosa composição que é a ciência misturada com a arte — com todas as artes, inclusive a culinária, tão vital nos destinos humanos, e a erótica, a mais cultivada de todas. E Gilberto Freyre tornou-se o Grande Desasnador, o delicioso mestre da verdadeira ciência sociológica como a entendem os homens de gênio.
A essência dos livros de Gilberto é serem saborosos. Entrar neles não é entrar na cela de Spinosa, coitado, tão alto mas tão secant. De emendatione intellectus... que caixão de defunto! Entrar num livro de Gilberto é entrar numa sala de festa, cuja mesa de banquete fulgara e rescende como os quadros de natureza-morta dos planturosos pintores flamengos d antanho. Ali tudo é vida e joie de vivre — e é ao mesmo tempo ciência da mais alta, aprendida com os maiores mestres, os Franz Boas e os John Dewey. Mas ciência apresentada por um Raguenau tropical.
Na primeira carta que escrevi a Gilberto e Melo Meneses cita (coisa também daquele tempo da Revista do Brasil), dizia eu para o menino-prodígio: "Pobre Gilberto! Tens muito viva a marca, o signo terrível, que põe contra um homem a legião inteira dos medíocres". Fui profético. O grande inimigo de Gilberto Freyre tem sido sempre a mediocridade — na crítica, no governo, no leitor comum. Mas ainda está para aparecer uma verdadeira inteligência que com ele não comungue. Podemos até dizer que o melhor teste quanto ao valor duma inteligência é pô-la diante dum livro de Gilberto. A inteligência medíocre fatalmente o repelirá com o mesmo ímpeto com que o acolherá a inteligência de escol.
E além da mediocridade da inteligência há mais coisas que Gilberto teve o dom de ofender: o narcisismo patriótico, o jesuitismo de todas as cores, a velha mentira social clássica, que apesar de tão faisandée ainda vige e viça, sobretudo no clã dirigente. E não podia deixar de ser assim, porque Gilberto é luz e saúde de corpo, alma e espírito — o ambiente mais antipático aos morcegos e percevejos. O sangue que corre nas veias da sua literatura é um sangue arterial bem oxigenado — não é a gélida solução vermelha de permanganato de potássio dos bicharocos trevosos. O Brasil futuro, presumivelmente mais decente que o atual, vai dever muitíssimo a Gilberto, o Grande Desasnador. (5:108-111)

GUILHERME DE ALMEIDA: 1. Aquele nosso grande poeta parece-se com a água: é inodoro, incolor e insípido quando faz prosa. No verso melhora. Mas vem surgindo um Guilherme de Almeida, cujo Nós revela muita coisa. Parece-me poeta de verdade — não apenas burilador de versos como o F., ou parnasiano de miolo mole, essas venerandas relíquias do passado, Alberto, etc. E Bilac, que era a salvação, deu agora para rimar filosofia alheia e fazer patriotismo fardado. Alberto está um perfeito vieux beau. (...)
Guilherme é o balbucio duma corrente nova que acabar levando para o bueiro os lecomtistas de cabelos pintados com Juventude Alexandre. Tenho muita fé nesse menino de Almeida. São os dois de S. Paulo: Vicente de Carvalho, glória legítima mas já sem uma asa, e Guilherme, uma linda manhã. O espaço entre ambos é inter-estelar: é o Saco de Carvão da Via Lactea. ( 2:144-145 )
2. A característica da poesia de G. de A. reside na novidade. É possível fazer nuevo, em matéria de poesia, nesta Poetolândia? É. Guilherme o fez. E o fez, porque deixou de banda a imitação dos vates repimpados no pináculo da consagração, acadêmicos imortais por decreto com sanção penal aos incréus. E no assunto, na maneira, nas cambiantes, no ritmo, na rima, em tudo procura e consegue ser sempre ele próprio. Não ressaibam seus versos o marasmático parnasianismo greco-herediano, inçado de mármores heleno, gerebas de Atenas, marafonas de Corinto, pedras velhas da Acrópole, vagabundos-filósofos da âgora, nem bichos reais ou fabulosos, centauros e elefantes, pégasos e rinocerontes. O amor que os sonetos descantam é um amor fino, delicado, cheio de maciezas civilizadas. Não tresandam a cantáridas. Guilherme é um artista fino de um século e nunca vira fauno fumegante de satiríase de que se arredam desconfiados até os próprios leitores machos — como se representassem no papel certos poetas sorvados pela orgia, magérrimos e tisgüentos.
Não corre atrás da rima rara, nem anda com utensis, de ourives, a polir e repolir latões, a gessar plaquets, para dar aos seus Montanas um brilho fátuo que a ninguém ilude. A poesia coa-se-lhe para o verso fluente e puro, brotada dalma, sem recurso ao camartelo, à lima, ao buril, ao saca-rolhas para embrechados artificiosos. É em suma G. de. A. poeta como o foi Ricardo Gonçalves, e não joalheiro como ímpam por aí os malabaristas da forma que o não são integrais à moda velha de João de Deus, Byron e quantos fulgem com brilho eterno do Parnaso. Que delícia não é seguir com o pensamento os estádios do poema Guilhermino sem tropeçar uma só vez num tronco de coluna dórica, ou esbarrar com um centauro em desapoderado corcoveio empós de fugitiva ninfa! Como isto nos descansa da muita maçada que o Syllabus literário do momento nos força a adorar e beijar, impingindo como o zaimph da Salambó o que não passa de desbotada bandeira do Divino! ( 9:71-73 )

HONORÉ DE BALZAC: 1. Ontem perdi o sono e conclui a leitura do Cousine Bette. Rangel, Rangel! Balzac me assombra. É gênio dos absolutos. Lembro-me duma imagem de Zola, comparando a obra de Balzac a um colossal edifício inacabado - tijolos nús, andaimes, só o arcabouço externo. Não é nada disso. Não tem nada de inacabdo — mas Balzac não é homem que desça a truques, remates, ornatos secundários. Pinta a largas espatuladas. Diz o essencial, cria blocos apenas, formidáveis blocos, mas não alisa a pedra, não usa lixas, não lhes enfraquece a grandeza. Que tipos! Que prodígios! Que coerência! Que fertilidade! Que mina! Que celeiro de id‚ias e imagens! Que multidão de gente viva estua dentro de seus romances! Como perto dele é pálido e artificial Zola, com sua arte mecânica, sua lógica invariável, seu romantismo despido das belezas heróicas do romantismo! Balzac nem em capítulos divide a narrativa. Aquilo rompe e rasga, e vai numa catadupa tumultuosa, numa avalanche, até o fim. Quelle puissance! Já li Cesar Birotteau e a Cousine e afundo-me agora em toda a sua obra, como num mar. Já não dispenso todo Balzac! (1:354-355)
2. Desigual, Balzac, e irregular como a própria natureza: característica dos verdadeiros gênios. (...)
O contraste de Balzac é Zola, tipo do talento. Um é caos; outro, ordem. Um descompassa, desafina, estruge: é natureza, ora céu azul, ora desfeita pela tempestade; outro, sempre sereno, é um eterno jardim, uma "coisa feita" com infinitos de lógica, de disciplina e de método. Ambos grandes, cada qual da sua grandeza, mas um imenso — Balzac. (7:6-7)

JOÃO DO RIO: Quanto ao "no Brasil ninguém imita o Eça", do João do Rio, pode-se opor o "no Brasil toda gente imita o Eça". São exageros equivalentes. Eu já li e gostei do João do Rio; hoje parece-me tolo, plaquet chocalhante, maracá, cuia com pedrinhas dentro. Insubstancial. Usa umas elegâncias de rastacuero. Tem uns barões de Belfort que ele acha mais elegantes que os barões do Pilão Arcado ou um barão do Jambeiro da minha terra que não dava jambos. Não há mulheres em suas histórias, há madames — coisa muito parecida com madamas. E descobriu um homem inglês de nome Oscar Wilde que ninguém sabia quem era, e eu acho que é mentira dele. Dorian Gray! Potoca. Cárcere de Reading! Potoca. Salomé! Potoca. Esse misterioso "Oscar Wilde" (nome inteiro, Oscar Fingall O Flahertie Wills Wilde) é uma pura mistificação do João do Rio. Outra novidade dele foi o lançamento do adjetivo "inconcebível" e do "up to date" em vez de "na moda". João descobriu também uma tal língua inglesa, que igualmente me parece potoca. Tudo nele são potocas — tudo nele é Rua do Ouvidor. Não fica. (2:14-15)

JORGE AMADO: Seus livros da Bahia revelam-me mais que um escritor, que um romancista, que um artista. Revelam-me uma força da natureza, uma espécie de harpa eólia que ressoa à passagem dos ventos dos dramas da miséria. Daí a especialíssima impressão que causam — única inconfundível e TRÁGICA. Trágica no sentido grego da palavra. Na planura da literatura brasileira, Jorge Amado vai ficar com um bloco súbito de montanha híspida, cheia de alcantís, de cavernas, de precipícios, de massas brutas da natureza.
Difícil definir seus livros, meu caro Jorge. Eles desgarram todos os moldes assentes —- são livros de dar dor de cabeça aos acadêmicos, aos seguidores de regras de arte.
Livros dolorosamente terríveis porque contêm verdade demais. E contêm verdade demais porque, como harpa eólia que você é, eles são a própria verdade circulante no ar como ondas captadas por uma antena potentíssima.
As antenas que você possui vão-se aperfeiçoando em potência. "Jubiabá" me pareceu que seria o pico culminante. "Mar Morto" sobe mais.
Vou retribuir seu livro com um meu — o último. Ambos trazem a nossa visão desesperada da miséria brasileira.
Você pinta-lhe os quadros mais dramáticos. Eu ingenuamente aponto um remédio. Diferença de idade. Talvez com a minha idade você também cometa a ingenuidade de apontar remédios... (4:14-15)

LIMA BARRETO: 1. Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento — ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda d água. Vou ver se encontro um Policarpo e aí o terás. Bacoreja-me que temos pela proa o ramancista brasileiro que faltava. (2:108)
2. Como ainda estou de resguardo e preso em casa, leio como nos bons tempos de Taubaté. Fechei neste momento um romance de Lima Barreto, Isaías Caminha. É dos tais legíveis de cabo a rabo. Romancista de verdade. Amanhã vou assinar com ele contrato para a edição dum livro novo, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, cujos originais já estão aqui. A letra é infamérrima e irregularíssima. Há trechos em que o autor positivamente cambaleia, e outros em que pára para "destripar o mico". Mas quanto talento e do bom! (2:186)

MACHADO DE ASSIS: 1. Há a Magia Negra, a Magia Branca — e a Magia Literária. D Amicis é um grande Mago Literário. E sabe, Rangel, que aqui no Brasil também há um livro com o poder de me enfeitiçar assim? Creio que já o li, espaçadamente ou de uma assentada, oito ou dez vezes, e sempre com o mesmo encanto: Memórias Póstumas de Brás Cubas. (2:37)
2. Há o exemplo de Machado de Assis, que nunca podemos perder de vista. Aquele cuidado com a forma é talvez 80% na grandeza do insígne mestre. (4:252)
3. Entre as obras de Machado de Assis cumpre acrescentar mais esta: a biografia que ele determinou.
Machado de Assis, na sua ascensão ao Perfeito, parte do quase enfadonho. O medo de inovar, de exceder-se, de dizer demais, tira qualquer interesse aos seus primeiros romances — mas o leitor enfadado sente que há ali uma inapreensível superioridade. Talvez a da língua, que começa a produzir efeitos novos. De uma plasticina pobre, como é a língua portuguesa, começam a brotar surpreendentes finuras — e ficamos sabendo que a riqueza de uma língua não vem da sua opulência vocabular. Pobre também é a argila, que dá toscas panelas nas mãos do oleiro ou dá o Perseu nas de Benvenuto Cellini. Por fim a grande revelação veio: não há língua pobre, não há argila pobre, para um grande artista. Há artistas pobres. Há artistas tão miseravelmente pobres que só sabem escrever jogando com toda a riqueza vocabular da língua. "Fizeste-la rica porque não pudeste fazê-la bela", disse Zeuxis ao discípulo que pintara uma Vênus excessivamente enfeitada.
Machado de Assis ensinou o Brasil a escrever com limpeza, tato, finura, limpidez. Criou o estilo lavado de todas as douradas pulgas do gongorismo, do exagero, da adjetivação tropical, do derramado, da enxundia, da folharada intensa que esconde o tronco e o engalhamento da árvore.
Antes dele havia grandes mestres que começavam contos assim: "O pegureiro tangia o armento para o aprisco." Era lindo, o extasiante, a beleza de espernear. Machado de Assis provou que isso é o idiotamente feio. Como o provou? Fazendo o contrário. Escrevendo. "O negro tocava o gado para o curral."
Machado de Assis expulsou do estilo todas as falsidades. Expulsou até o patriotismo e a grotesca brasilidade — essa intromissão da política de "terroir" na arte. Foi contemporâneo de casos de super-idiotia, em que poetas de nome falavam em "céu brasileiramente azul". Para Machado de Assis um céu azul é simplesmente, e sempre, um céu azul — só.
Ensinou-nos a escrever tão bem, dando-nos uma série de obras tão perfeitas de equilíbrio e justa medida, que "abafou a banca", como diria um meu amigo analfabeto, impenitente jogador de roleta. E não só o abafou no Brasil, como ainda em Portugal. Nem o próprio Eça de Queiroz, o talento mais rico em arte que Portugal produziu, chega à perfeição de Machado. Em Eça há "elegâncias", maneirismos, atitudes — deliciosas atitudes, mas que o impediram de planar nas regiões sereníssimas do estilo de Machado de Assis.
Os contos de Machado de Assis! Onde mais perfeitos de forma e mais requintados de idéia e mais largos de filosofia? Onde mais gerais, mais humanos dentro do local, do individual? Temos de correr à França para em Anatole France encontrarmos um seu irmão. Este, entretanto, desabrochou no mais propício dos canteiros — animado por uma alta civilização, estimulado por todos os prêmios, rodeado de todos os requintes do conforto e da arte. Já o pobre Machado de Assis só teve como ambiente um sórdido Rio colonial, e prêmio nenhum afora a sua aprovação íntima, e parquíssima renda mensal para a subsistência; e como leitores, nada do mundo inteiro, que era o leitor de Anatole — mas apenas meia dúzia de amigos. O preço pelo qual vendeu ao editor Garnier a propriedade literária de toda a sua obra — oito contos de réis, 500$000 cada livro — mostra bem claro a extrema redução do seu círculo de leitores.
Mesmo assim, cercado por todas as limitações, foi de sua pena que saiu a primeira obra prima da literatura brasileira, essas Memórias Póstumas de Braz Cubas, livro que um dia o mundo ler com surpresa. "Sera possível que isto surgisse num país in fieri, lá pelos fundões das Américas?" dirão todos.
E deu-nos depois Dom Casmurro, o romance perfeito, e Esaú e Jacó e Quincas Borba e finalmente Memorial de Aires, obra em que estiliza e romanceia o nada — o nada da velhice — da sua velhice de quase 70 anos.
Entremeio aos romances foi produzindo contos — e que contos! Que maravilhosos contos, diferentes de tudo quanto se fez no Brasil ou na América! Contos sem truques, sem "machine", sem paisagem de enchimento, tudo só desenho do mais cuidado, como os de Ingres. Tipos e mais tipos, almas e mais almas — uma procissão imensa de figuras mais vivas do que os próprios modelos. E em que estilo, com que pureza de língua!
A literatura brasileira é pobre de altos valores. Muita gente na canoa, muito livro, muito papel impresso, muita vaidade e, modernamente, muito cabotismo. Mas está redimida de todos esses defeitos pela apresentação de uma obra de solidez eterna, tão duradoura quanto a língua em que foi vazada.
"Missa do Galo", "Uns Braços", "Conto Alexandrino", "Capítulo dos Chapéus", "Anedota Pecuniária" — é difícil escolher entre os contos machadianos, porque com La Prensa é que me animei a dizer sobre ele, tão pequenino, tão insignificante, tão miserável me senti. Envergonhei-me de juízos anteriores em que, por esnobismo ou bobagem, me atrevi a fazer restrições irônicas sobre tamanha obra. E se não desisti da incumbência foi por me proporcionar ensejo de penitenciação em público. Porque, francamente, acho grotesco que na atualidade brasileira alguém ouse falar de Machado de Assis conservando o chapéu na cabeça. Nossa atitude tem de ser a da mais absoluta e reverente humildade. Quem duvidar, releia o "Conto Alexandrino" ou a "Missa do Galo".
Somos todos uns bobinhos diante de você, Machado...
A cautela desconfiada com que o Machado de Assis social viveu no meio carioca permitiu-lhe o máximo de felicidade possível no seu caso — um caso difícil, de extrema superioridade mental aliada a extrema sensibilidade de um orgulho sem licença de manifestar-se em vista do tom da pele e do cargo incolor que ocupava na administração. Quantos ministros orgulhosos e ocos não foram seus superiores legais e sociais — a ele que, por natureza, era o mais alto do Brasil? A vassoura do esquecimento já varreu para a lata do lixo o nome de todos esses magnatas, de todos esses seus "superiores"; mas o nome de Machado de Assis continua em ascensão.
Havia nele um curioso gregarismo. Sempre gostou de grêmios, sociedades literárias; chegou até a fundar uma academia de "imortais" da qual foi o presidente e se tornou o único imortal sem aspas. A explicação disso talvez fosse a sua ingênita necessidade de observar o "jogo das marionetes": agremiando-as em torno de qualquer tolice humana, tinha-as comodamente à mão para o estudo, como o anatomista tem em seu laboratório reservas de coelhos, cães e macacos em gaiolas, para uso experimental.
A filosofia de Machado foi mansamente triste. Estudou demais as cobaias, conheceu demais a alma humana. Filosofia sem revolta, calmamente resignada. A conclusão última aparece em Braz Cubas, o herói da vulgaridade satisfeita que termina as memórias póstumas com um balanço em sua vida terrena. Balanço com saldo. Que saldo? "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
Saldo equivalente apresentou a vida de Machado de Assis. Não teve filhos. Não legou a criatura alguma os seus pigmentos, a sua gagueira, a sua tara epiléptica, o seu desencantamento das marionetes — já que não poderia legar-lhe também o seu gênio. E não houve em sua vida ato de maior generosidade. Que coisa terrível para uma criatura qualquer, ainda que de mediana sensibilidade, conduzir pela vida afora a carga tremenda de ser filho de Machado de Assis!
— Sabe quem é aquele corvo triste que vai saindo daquela repartição?
— Aquele corcovado, moreno, careteante?
— Sim. Pois é o filho de Machado de Assis...
Estamos a ver o ar de apiedada compunção que se estamparia no rosto do informado.
A natureza só permite aos gênios uma filha: a sua obra. Machado de Assis compreendeu-o como ninguém, e depois de dar ao mundo a mais bela das filhas afastou-se do tumulto sozinho, cabisbaixo, na tranqüilidade dos que cumprem uma alta missão e não deixam atrás de si nenhuma sombra dolorosa. (7:333-338)
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Ver: ESCRITORES: CAMILO CASTELO BRANCO 5 (2:98-99)

MARIA JOSÉ DUPRÉ (SRA. LEANDRO DUPRÉ): Rangel: apareceu-nos uma senhora Dupré que está operando uma revolução literária. Está nos ensinando a escrever — e eu já muito aproveitei a lição. Revelou-me um tremendo segredo: o certo em literatura é escrever com o mínimo de literatura! Certo, porque desse modo somos lidos, como ela está sendo e como eu consegui ser nos livros que limpei de toda "literatura". Como nos envenenou aquela gente que andamos a ler na mocidade! Só agora me sinto completamente sarado, graças à medicação Dupré. Para que bem me entendas, terás que ler o ÉRAMOS SEIS, romance que a Editora acaba de publicar com um prefácio meu, que a autora não encomendou, pois nem sequer de vista a conheço. O caso me interessou tanto (li o livro em provas), que me lancei a esmiuçá-lo nesse prefácio.
Coisas que te disse antigamente confirmam-se agora, depois duma conversa tida com o Marques Campão, um pintor excelente e inteligente (coisa rara) e do livro da Dupré. Campão revelou-me o segredo da aquarela: não empastar as cores, não sobrepor tintas, pois só assim alcançamos o que nesse gênero há de mais belo: a transparência. No estilo literário dá-se a mesma coisa: o empastamento mata a transparência, tal qual nas aquarelas. Se eu digo "céu azul", estou certo, porque não sobrepus tintas e obtive transparência. Mas se venho com aqueles "lindos" empastamentos literários que nos ensinaram ("céu azul turquesa" — "a cerúlea abóbada celeste"), estou fazendo literatura; e sobre a coisa linda que é a palavra "azul" sobreponho um tom empastante "turquesa" que no espírito do leitor ira sugerir a esposa dum Abud qualquer, ou "cerúleo", que nos sugere cera , positivamente borro o azul do céu — em vez do céu lindo que eu quis descrever me sai uma "literatura". A Dupré mostrou-me que se pode escrever com zero de "literatura" e 100% de vida. É o que estudo no prefácio.
Parece incrível! Pois não é que com a tirada acima voltei atrás e estou naqueles tempos de Taubaté e Areias em que nos carteávamos semanalmente, a debater a eterna "procura" dos nossos "eus" literários?
Como nos procuramos, Rangel — e parece que nos achamos... Faltou-me naquele tempo uma Dupré mas a mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me, aproximei-me do certo (que é o claro, o transparente como o céu). Na revisão dos meus livros a saírem na Argentina estou operando curioso trabalho de raspagem — estou tirando tudo quanto é empaste.
O último submetido a tratamento foram as Fábulas. Como o achei pedante e requintado! Dele raspei quase um quilo de "literatura" e mesmo assim ficou alguma. O processo de raspagem não é o melhor, porque deixa sinais — ou "esquirolas", como eu diria se ainda tivesse coragem de escrever como antigamente.
Estou receitando a Dupré e a raspadeira a vários amigos de talento e ainda "salváveis", como o Cesídio Ambrogi de Taubaté, o qual está tonto como quem tomou uma dose muito forte de 914. Escreveu-me uma carta curiosíssima, que te mandarei. (2:338-340)

OLAVO BILAC: O poeta, no entanto, ao compor o "Caçador de Esmeraldas" não tomou de Corneille um vocábulo, nem de Anatole um conceito, nem de Musset uma noite, nem de Rostand um galo, nem de Lecomte uma frialdade, nem da Grécia um acanto, nem de Roma uma virtude. Mas, sem o querer, pelo fato de ser um moderno aberto a todos os ventos, tomou de Corneille a pureza da língua, de Musset a poesia, de Lecomte a elegância, da Grécia a linha pura, de Roma a fortidão d’alma — e com o antigo-bruto fez o novo-belo.
Nada em Bilac revê enxerto de arte alheia. O vocabulário é o velho vocabulário da metrópole; as almas são almas velhas, as personagens não vieram embalsamadas num livro de Abel Hermant; o material é, em suma, o mesmo com o qual o cacetão quinhentista nos seca a paciência com descrições de mosteiros e milagres teatralíssimos, capazes de adormecer incuráveis doentes de insônia. (16:33)
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Ver: ESCRITORES: GUILHERME DE ALMEIDA ( 2:144-145 )

PAULISTAS: Recebi a de 12, com os recortes da parelha de "imortais" que mandei e sobre os quais silenciaste. O Frango Sura está me cheirando a literato dos bons. Ah, que gente! Que perus recheados com a farofa da vaidade! Enfarei-me deles em S. Paulo. O maioral da taba é o Vicente de Carvalho, poeta dos maiores da língua — mas que pena ser também peru recheado! Seus amigos formam-lhe uma corte luizesca; Vicente não solta um simples borborigma sem que eles, em redor, não arregalem o olho e murmurem em êxtase. "Não é arroto, é Camões!" O Amadeu Amaral é excelente criatura e esforça-se por ser modesto — mas de todos os lados "gavam-no" demais. Sabe o que é gavar? É a tradução do "gaver" francês — comer demais ou fazer comer demais. Em Strasburgo os produtores do "Patê de Foie Gras" prendem os gansos em gaiolas, pregam-lhes os pés para imobilizá-los e gavam-nos, isto é, metem-lhes pela garganta a dentro um angu, afim de superalimentá-los forçadamente. A maior vítima dessa violência alimentar é o fígado do ganso, que incha, fica enorme — exatamente o que os fabricantes do patê querem. Pois o excelente Amadeu deve estar com o fígado bem inchado, tal é a "gavage" a que o submetem. Anda mais cevado de ditirambos do que um imperador romano. O Emílio de Menezes disse que para o Amadeu entrar na Academia era necessário que se diminuísse a si próprio com um ano de banhos de pedra-hume! O Otávio Augusto, o Júlio César, todos — aquilo é um mútuo endeusar-se que está a pedir lenha. O Amadeu tem as chaves do Estado e recebe hosanas de toda parte – até de Baependi. O Nogueira manda de lá os seus gravetinhos para o fogacho propiciatório — mas Amadeu não murmura o Sancta simplicitas de João Huss na fogueira. (2:78)

RICARDO GONÇALVES: Guarde isto do Araripe Junior: "Milton um dia, definindo a sua estética, disse: Poet must be a true poem. Com isto quis dizer que a obra literária que não é pura resultante dum organismo, pode ser tudo, menos obra artística. As verdadeiras regras estão no sangue, nos nervos, na estrutura do indivíduo, na cerebração inconsciente". Grande verdade. Por que o Ricardo não compõe um poema? Porque ele é em si um poema — um poema de pernas. E nós sentíamos isso e adorávamo-lo como a encarnação de um poema de Musset. Que é que faziam o Raul e o Artur, sempre com olhos no Ricardo? Liam aquele poema vivo e semovente. Poet must be a true poem! Eu queria esfregar Ricardo no nariz de Milton para que ele visse como acertou. ( 2:47 )

RUDYARD KIPLING: Em face do desconhecido, do inexplicável da natureza, das ameaças ocultas no sombrio da floresta, do escachão das grandes quedas d’água, do rugir das feras, o homem sente essa emoção contagiosa chamada pânico. É Pan que se aproxima, é alguma montaria de Pan, é um elemento, uma força qualquer das com que Pan brinca — e a emoção pânica surge, sempre com a sua característica de contagiosa.
Diante dos mistérios da natureza, Kipling sente essa emoção pânica, fixa-a com os recursos artísticos do seu estilo e faz que ela contagie o leitor. Reside nisso o seu gênio.
O cenário de Kipling é quase sempre a Índia, como o de Jack London, outra alma pânica, é quase sempre a fria terra do Alasca. Seus personagens nunca são os personagens franceses — um macho que caça uma fêmea pertencente a um terceiro e num hotel exercita uma função fisiológica que o deixa desapontado e de crista caída. É o tigre crudelíssimo e covarde — Shere Khan; é a pantera negra de movimentos elásticos — Bagheera; é a tribo do Bandar-logs, que nas ruínas de uma cidade morta, engolida pela jângal, brinca de cidade, como nós aqui, bandarloguissimamente, brincamos de país; é a serpente das rochas, Kaa, magnífica de velhice e arte; é Jacala o Mugger do Mugger-Ghaut, velho crocodilo comedor de coolies; é Purun Bhagat, o Primeiro Ministro de um principado indiano que se fez santo e gastou meia vida num píncaro do Himalaia, meditando sobre o grande milagre da vida; é Quiquern, o cachorrinho vitimado pela inferioridade egoística de uma tal Maisie — a Mulher; é Kim, o menino que cavalgava canhões...
Kipling é a vida, a natureza, o Ar Livre, a Fera, a Índia inteira, como Joseph Conrad é o Mar com todos os peixes e tempestades. Pan, em suas infinitas modalidades, o surpreende e assusta, e Kipling anota esses sustos e os põe em composição artística para que também os leitores o sintam e se assustem panicamente.
Cândido de Figueiredo diz candidamente que pânico é medo sem motivo. Eu queria metê-lo no caminho dos Dholes, os Cães Vermelhos do Dekkan em razia depredatória pelos domínios de Mowgli — para ver se os figos do figueiral desse homem não se arrebentavam todos eles e se ele não rasgaria imediatamente aquela página do seu dicionário. O medo causado por um avanço de Dholes é para ele medo sem motivo...
Cada conto de Kipling é uma obra prima que vale toda a clorótica literatura francesa atual. Tomemos "The Undertakers" que poderíamos traduzir como os Necrófagos. Três personagens só — Jacala o velho mugger (crocodilo da Índia), o Chacal e o Adjudant-crane. Este Adjudant é uma espécie de Grou, coisa parecida com o nosso Jaburu de bicanca tucanal, mas reta.
Encontram-se ao pé de uma ponte e conversam. O Chacal, miserabilíssimo e sempre faminto, lamuria e bajula o mugger, de cujos restos vive. Chama-lhe Protetor dos Pobres, Orgulho do Rio e outras coisas que os nossos Chacais de dois pés costumam dizer dos muggers que viram governo.
Toda a psicologia do lambujeiros, do fraco, do covarde, do miserável, estampa-se nos gestos e palavras desse animalzinho no qual Kipling, talvez sem intenção, pinta o bajulador humano. Nas atitudes e palavras do Grou estampa-se a esperteza do "aproveitador". Dá idéia de um tabelião da roça que faz política e rói verbas da Câmara. Já o mugger, cônscio da sua força, reproduz exatamente a psique dos grandes homens, isto é, dos homens que galgam posições e pelo simples fato de se verem lá em cima, com a faca e o queijo na mão, julgam-se não só onipotentes como oniscientes. "Eu penso assim. É assim. Eu, eu, eu..."
O Mugger do Mugger-Ghaut era, do focinho à cauda, todo eus — todo ele — e o Chacal batia no peito, concordando até com o que o crocodilo não dizia.
Nessa conversa dos três necrófagos, o mugger rememora ou, melhor, conta a história de um dos mais terríveis dramas da dominação britânica na Índia, o Indian Mutiny, no qual se ergueram para o massacre em massa dos ingleses todas as tropas de sipaios.
Como conta? Conta como podia contá-la. Um crocodilo dos rios só pode ter conhecimento de uma guerra pelos cadáveres que boiam nas águas e ao sabor da corrente vão derivando rumo ao mar. Jacala teve notícia, pelo seu primo o Gavial, comedor só de peixe, de que as águas do Gunga — o Ganges — "estavam muito ricas" — e rumou para lá. De fato, encontrou-as riquíssimas, tantos eram os cadáveres de ingleses que passavam boiantes. Jacala engordou como nunca em sua vida e muito apreciou o fato dos "caras-brancas" não usarem as pesadas jóias que usam os nativos. Jóias pesadas fazem mal até a estômagos de crocodilos. Fartou-se e refartou-se do sólido beef britânico.
Depois houve um arrefecimento na procissão de cadáveres. As águas começaram a empobrecer-se. Por pouco tempo, aliás. Novas ondadas de corpos recomeçaram a derivar — mas desta vez cadáveres de nativos. Era a revanche, era o inglês já a dominar o motim e a massacrar a carne indiana a tiros de canhão.
É preciso parar. Quem se mete a falar de Kipling esquece-se de que o mundo tem mais o que fazer e espicha-se como se estivesse a escrever livro. Kipling é a vida, é a Natureza — e a Natureza sempre foi muito comprida.
Forneçamos Kipling, e autores que tais, ao nosso pobre povo, até aqui envenenado pelos romancistas da alcova francesa e por dicionaristas como o tal do medo sem motivo. Demos-lhe escritores pânicos — porque só eles sabem a Vida e só suas obras contagiam os leitores com a mais alta das emoções — a Emoção Pânica. (7:325-328)

RUY BARBOSA: Ruy Barbosa me dá a impressão, na ciência, duma superposição de autores; no estilo, duma superposição de clássicos. Vejo nele Vieira, Bernardes, Latino, Frei-Luiz, Herculano, Camilo — dele pessoalmente, só a sabedoria e fina arte do misturador. Ruy é uma grande Central telefônica a que vão ter todos os fios; e do conglomerado ressoa uma voz eólia, de qualquer lado que bata o vento. É uma focalização. Toda a ciência, toda a literatura de todos os tempos e povos converge seus raios naquele refletor mental que os emburrilha, funde e dá — como as cores fundidas dão a luz branca — esse clarão cegante, excessivo, que atrai todas as mariposas e afugenta todos os morcegos: RUY BARBOSA.
Ruy tem o gênio dos cadinhos: funde. Falta-lhe o gênio das retortas: que cria. Ruy dá "misturas" geniais; não dá "combinações" novas. Tenho para mim que Ruy é muito mais Força da Natureza do que Força Individual. É um estuário amplíssimo onde cada punhado d’água que tomamos mostra o nome do afluente contribuinte; ou cada folha ou flor carreada conta de que árvore caiu.
Acho Ruy imenso como o Amazonas, mas sem a imensidade dum Shakespeare, dum Nietzsche, dum qualquer Grande Emissor de idéias. Dele me disse ainda há pouco Martim Francisco, em Santos: "Ruy é um grande escritor sem talento: porque não cria." Nada mais falso. Impossível talento maior que o de Ruy. Chega até às raias da genialidade — mas fica-se na categoria do gênio sem medula criadora.
Eu já tive o meu período febril de ruismo, igual ao teu de hoje: foi em fins de Afonso Pena e Nilo e todo o Hermes. Aquele Ruy combativo, cruel como Jeov , feroz como Ezequiel, foi a culminância do "fenomeno Ruy". Mas ainda nessa fase funcionou como o refletor de todas as ânsias, queixas e desejos da nação. Fez-se Voz da Natureza, Boca do País. Naquele tempo, por política, estavas divorciado dele. Tentei conversar contigo sobre a Águia que depenava o Avestruz e tu fugiste com o corpo. Hoje dá-se o contrário. Eu é que estou divorciado de Ruy... por motivos bélicos. E não o leio. Como torço pela vitória da Alemanha e Ruy é o paladino da derrota alemã, resumo a minha opinião sobre ele com a imbecilidade dum calouro: "É uma besta!" Mas sei ou sinto que isso é pura imbecilidade minha diante de imbecís ainda maiores que eu. E se não o leio é na certeza de que se o ler, a "besta" me converte com a sua lógica de aço e cá me põe o germanismo de cuecas, de pernas para o ar. Porque o meu germanismo tem fundamentos grotescos: a causa número um é ser aliadófilo o meu barbeiro; a número 2 é serem aliados o Estado de S. Paulo, todos os meus amigos e toda gente. Germanizando, eu me isolo do barbeiro, do jornal e duma súcia de amigos. Pura questão de higiene mental. (2:155-157)


ESTÉTICA
1. Que diferença de mundos! Na Grécia, a beleza; aqui, a disformidade. Aquiles lá; Quasímodo aqui. Esteticamente, que desastre foi o cristianismo com a sua insistente cultura do feio. (1:207)
2. Mas falemos em coisas profanas. Li o teu último artigo... Nunca viste reprodução dum quadro de Gleyre, Ilusões Perdidas? Pois o teu artigo me deu a impressão do quadro de Gleyre posto em palavras. Num cais melancólico barcos saem; e um barco chega, trazendo à proa um velho com o braço pendido largadamente sobre uma lira — uma figura que a gente vê e nunca mais esquece (se há por aí os Ensaios de Crítica e História do Taine, lê o capítulo sobre Gleyre). O teu artigo me evocou a barca do velho. Em que estado voltaremos, Rangel, desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca — e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões. Que lhes acontecer ?
Somos vítimas de um destino, Rangel. Nascemos para perseguir a borboleta de asas de fogo — se a não pegarmos, seremos infelizes; e se a pegarmos, lá se nos queimam as mãos. Nós três, eu, você e o Edgard, sofremos da mesma doença e, pois, trilharemos as mesmas sendas e voltaremos ao cais na barca de Gleyre — com aquele mastro caído, a lira largada, a bússola sem agulha. E por que isso, Rangel? Porque em nós três há uma coisa que nos obriga a partir, a caçar a borboleta, embora certos de que o retorno ser na barca de Gleyre. Essa coisa dentro de nós é o que explica a imensa disparidade entre você e o Breves, entre o Edgard e o Goulart, entre eu e o Macuco. O que não impede que Breves, Goulart e Macuco nos olhem com profundo desprezo. Devemos ser para eles o que eles são para nós.
Estamos moços e dentro da barca. Vamos partir. Que é a nossa lira? Um instrumento que temos de apurar, de modo que fique mais sensível que o galvanômetro, mais penetrante que o microscópio: a lira eólia do nosso senso estético. Saber sentir, saber ver, saber dizer. E tem você de rangelizar a tua lira, e o Edgard tem que edgardizar a dele, e eu de lobatizar a minha. Inconfundibilizá-las. Nada de imitar seja lá quem for. Eça ou Ésquilo. Ser um Eça II ou um Ésquilo II, ou um sub-Eça, um sub-Ésquilo, sujeiras! Temos de ser nós mesmos, apurar os nossos Eus, formar o Rangel, o Edgard, o Lobato. Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir.
O trabalho é todo subterrâneo, inconsciente; mas a Vontade há que marcar sempre um norte, como a agulha imantada.
Esses nossos desalentos, esses nossos tédios iterativos, esses nossos desesperos, provam a favor, Rangel, não provam contra. São reflexos da misteriosa gestação subterrânea. Como vem isso? Sempre como eco do constante processo analítico inerente à gestação. Você lê uma pagina genial de Hugo e a comparação inconsciente que fazes entre ele e você desnuda-te uma aparente inferioridade. Eu vejo uma cena, procuro o meio de transmití-la por meio de palavras, não consigo e perco a confiança em mim. O Edgard sente uma sensação nova, estranha, jamais sentida por ninguém no mundo; analisa-a e não a apreende — e ei-lo de dia estragado, azedo sem saber porquê. Mas esse eterno "procurar", Rangel, é que é a grande coisa que há dentro de nós e não há no Macuco. O Macuco não procura coisa nenhuma, porque está certo de que é um gênio e não precisa de coisa nenhuma.
Cansado de desanimar, eu não desanimo mais, depois que apanhei a causa dos meus desânimos. Trabalho às ocultas lá no subconsciente. Em quê? Na afinação da lira e na fixação com palavras do que ela apanha. O sonho, sabes qual é — o sonho supremo de todos os artistas. Reduzir o senso estético a um sexto sentido. E, então, pegar a borboleta!
Você me pede um conselho e atrevidamente eu dou o Grande Conselho: seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, porque tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros dos vários rebanhos — os rebanhos políticos, religiosos ou estéticos. Há no mundo o ódio à exceção — e ser si mesmo é ser exceção. Ser exceção e defendê-la contra todos os assaltos da uniformização: isto me parece a grande coisa. Se a tomarmos como programa, é possível que um dia apanhemos a borboleta de asas de fogo — e não tem a mínima importância que nos queime as mãos e a nossa volta seja como a do velho de Gleyre. (1:80-83)
3. Outra coisa que precisamos debater é a afinação do senso estético afim de que ressoe às vibrações imperceptíveis ao vulgo. Para as almas gordas e coradas, bem simples é a classificação do mundo. Em matéria de visualidade, as 7 cores do arco-íris; em som, as 7 notas da escala. E há as 3 virtudes teologais, os 3 poderes do estado, os 10 mandamentos da lei de Deus. E com tudo reduzido a 3, a 7 ou a 10, o bípede vive, ama, pensa que pensa e perpetua-se. O imensíssimo mundo dos cambiantes escapa-lhe. E há ainda o mundo das sub-cambiantes, das infra-vibrações, das coisas que só o tísico ouve ou só os perdigueiros farejam. Há o mundo subliminal, dos histéricos, artistas e loucos. E há as estratosferas e as toposferas. E há o Au-dela, Rangel. Temos que nos tornar harpa eólia de mil cordas, finas como os da Cabeleira de Berenice. (2:9)
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Ver: ADJETIVO ( 1:106-107 )
LÍNGUA ( 1:248-249 )

ESTILO
1. E aquele Sheridan que nos desancou a todos, menos a você, é mesmo o Lino. Bem que tentou esconder-se, desancando-se também a si próprio — mas o estilo é o homem, e o Lino está mais ali do que na rua Bráulio Gomes. (1:38-40)
2. Estilos, estilos... Eu só conheço uma centena na literatura universal e entre nós só um, o do Machadão. E, ademais, estilo é a última coisa que nasce num literato — é o dente do siso. Quando já está quarentão e já cristalizou uma filosofia própria, quando possui uma luneta só dele e para ele fabricada sob medida, quando já não é suscetível de influenciação por mais ninguém, quando alcança a perfeita maturidade da inteligência, então, sim, aparece o estilo. Como a cor, o sabor e o perfume duma fruta só aparecem na plena maturação. Repare no Machado. Quando lhe aparece a cor, o sabor, o perfume? No Brás Cubas, um livro quarentão. Que estilo tem ele em Helena ou Iaiá Garcia? Uma bostinha de estilo igual ao nosso. Ao Eça só o encontramos já estilizado e inconfundível nos Ramires. Antes de nos vir o estilo o que temos é temperamento. Há na arte do desenho um exemplo claro disso na "estilização", duma flor, suponhamos. A flor natural é o nosso temperamento; a flor estilizada é o nosso estilo. Enquanto esse temperamento não alcança o apogeu da caracterização, não pode haver estilo. O Eça nas Prosas Bárbaras não tem estilo; usa e abusa barbaramente da "impropriedade" com o fim de irritar o Camilo Castelo Branco, o Bulhão Pato e os burgueses do Porto. Esse abuso da impropriedade, que à primeira vista parece ser a sua futura característica do estilo (tanto é alta a dose nas primeiras coisas), nos Ramires aparece homeopático e felicíssimo, e da mesma sábia dosimetria de Machado de Assis.
Poderás, Rangel, com os elementos básicos que há em você, ter um estilo, e certo que o terás — mas ainda é cedo. Estás verdolengo. E o terás lindo, sobretudo se deres menos apreço às lisonjas fáceis dos amigos. Lembra-te que mutuamente já todos nos demos de gênio lá no Cenáculo e no entanto bem pequena é a dose de simples talento de todos nós, reunidos e multiplicados uns pelos outros.(1:101-102)
3. Esse Albalat que o Ricardo te mandou anda interessando muito à rapaziada de S. Paulo que pretende lugar nas letras. Tenho a impressão de que é obra vã e perigosa, talvez das que ensinam um certo estilo — e neste caso teremos estilo postiço, como há dentes postiços. Estilo é cara; cada qual tem a sua e o que fazemos para modificar nossa cara é em geral mexer nos pêlos, barba e grenha, e podemos sair um bigodudíssimo Umberto I ou um cara-rapada à. americana. O mais do nosso rosto não se sujeita a travestis. No estilo também há algo de imutável, de ingênito, de inalterável, a despeito de tudo o que façamos para deformá-lo. Não as exterioridades, mas essa alma-mater, esse eixo central, é que verdadeiramente constitui o estilo. ( 1:259 )
4. Estou lendo Memoires d’Outre Tombe, de Chateaubriand. Acabei o Albalat. Bom, mas de pouco valor para nós aqui. Discreteia sobre o estilo francês, e as coisas mudam quando em português. A parte referente ao estilo descritivo em Homero é ótimo, e boa para nós. A conclusão que tirei do livro é que estilos não se fabricam, nem se ajustam por influxo de regras; são o que são, como o nariz das pessoas. O mais, arrebiques, sobrecargas, postiços que só aparentemente melhoram o natural ingênito e espontâneo de cada um. (1:275-276)
5. Nossos estudos de clássicos deram um resultado curioso: tua linguagem ficou metade século 20 e metade século 15. Pareces um homem de cartola e bofes de renda, ou de paletó saco e sapatos de fivela. O que eu achava melhor é que decantasses o estilo. Que o deixasses filtrar e assentar por si mesmo, porque estilo não é uma coisa que se faça deliberadamente de acordo com certos moldes; estilo é cara, é feição, é fisionomia, é nariz. O amanho da cara não vai além do asseio da pele, do pentear ou não os cabelos, do cortar ou não os bigodes. Se alguém passa além disso e usa cremes e ruges, perde a cara e vira "maquillage". (1:302)
6. Volto ao Euclides. Estive a lê-lo e pareceu-me que a sóbria e vigorosa beleza do seu estilo vem de não estar cancerado de nenhum dos cancros do estilo de toda gente — estilo que o jornalismo apurou até ao ponto-de-bala acadêmico, tornando-o untuoso, arredondado e impessoal. 1) Euclides evita prepor o adjetivo ao substantivo, o que contraria a lógica percepção cerebral. Por exemplo: "exaustivas correrias", “paupérrimas choupanas", "esguia palmeira". O que na mecânica da leitura o cérebro tem de representar ao receber a impressão dum desses adjetivos (sem ter ainda recebido a impressão do substantivo posposto), é uma qualidade vaga e dissipada em extremo, capaz de mil articulações diversas: ao passo que na forma contrária — "palmeira esguia", por exemplo — a impressão é de exata nitidez e vigor; o cérebro representa a coisa indicada pelo substantivo e imediatamente a qualifica ou determina com o adjetivo posposto. Ora, em Euclides não há adjetivos prepostos aos substantivos, ao passo que no estilo de jornal é esta a forma que predomina ("nosso inteligente colaborador", "o distinto amigo", a "gentil senhorita", a "virtuosa consorte", o "honrado comerciante desta praça", etc.). 2) Os verbos em forma composta, essa nojenta coisa de agregar o "ter" e o "haver" ao resto da verbalhada. É outro vício dessorante, que enfraquece o estilo com amortecer a nitidez da impressão cerebral ("haviam dito", "tinham estado comendo", etc.). As formas verbais simples são esplêndidas de energia e Euclides só emprega as compostas quando indispensáveis. Já o estilo de jornal só quer saber das compostas, justamente porque meliflui a frase, fá-las de salão de Clube Recreativo. Abro um Minarete e encontro: "andaram percorrendo", "tiveram começo", "estavam reclamando", "foram verificados", etc. A explicação do fato é a mesma do adjetivo preposto — dispersão, dissipação. 3) Os advérbios em mente, outra asquerosa invenção do jornal com o fito de adocicar o estilo por causa das leitoras folhetinistas, normalistas, pianistas, feministas — todo o hospital dos cloróticos para os quais o jornal é um pão de cada dia — pão doce. A razão ainda é a mesma. Claro que têm mais força as formas — "de leve", "à larga", "à sós" — do que o "levemente", o "largamente", o "solitariamente". Euclides é idiossincrásico aos advérbios em mente e o estilo de jornal não quer outra coisa. Pela-se por eles. (1:312-313)
7. Sobre a matéria temos muito que falar — para dizer sempre a mesma coisa. Estilo é como o nariz na cara: cada qual o tem como Deus o fez e não há dois iguais. A miragem está nisto: a gente procura, por efeito de mil influições, aperfeiçoar o estilo — aperfeiçoar o nariz. No entendimento dessa perfeição é que nos transviamos. Há a estrada real, ampla, macadamizada, freqüentadíssima, e há as picadas que podemos abrir marginalmente no matagal chapotado. Quase todo mundo toma pela estrada e pouquíssimos se metem pelas picadas. Resultado: engrossam-se as fileiras do estilo redondo e só um ou outro conserva o nariz que Deus lhe deu. Por aperfeiçoar o "estilo" temos de entender exaltar-lhe as tendências congeniais, não conformá-lo segundo um certo padrão de moda. O estilo padrão mais em moda hoje desfecha no estilo de jornal, nessa "mesmice" que florece, igualada no gênio, na cor, no tom, no cheiro, tanto no Monitor Paraense de Belém como na Tribuna do Povo de D. Pedrito, e é o mesmo no Estado e no Correio da Manhã. Quem conduz a humanidade e esse estilo é o Mestre-Escola, é o Gramático Letrudo, são os mil "Conselheiros" que no decorrer da vida nos vão podando todos os galhos rebeldes para nos transformar naqueles tristes plátanos da Praça da República — árvores loucas de vontade de ser árvores de verdade.
Mas nós somos bons jardineiros de nós mesmos, o que nos cumpre é matar as lagartas, extirpar os caramujinhos e brocas, afofar a terra e bem adubá-la. Em matéria de poda, só a dos galhos secos. E a árvore que cresça como lá lhe determina a vocação. Isso, concordo, é aperfeiçoar o estilo. O mais desnatura-o, troca o nariz natural por um nariz de carnaval. (2:6-7)
8. Meu hábito em tudo é pôr de lado métodos e seguir as intuições da veneta. Acho a veneta algo muito sério e misterioso, Rangel. É como se uma força dentro de nós cochichasse. (2:13)
9. Do que não gostei foi do som — o estilo. Noto uma preocupação de simplicidade que me parece excessiva, como quem quer escrever de chinelas para ser lido por homens de chinelas. O som é meia vitória, meia glória, meio valor total duma obra. Talvez mais — talvez três quartos.
O que Anatole conta no Silvestre Bonnard entra por um quarto no total da obra prima; os três quartos restantes forneceu-os o modo de dizer, o som. (2:16)
10. A tua observação sobre a Maupin é exata. É preciso alento para um escritor ir até o fim no tom forçado que assumiu no começo. Muito mais fácil fazer como Fialho, que não resume tom nenhum — é si mesmo no livro todo e vai às do cabo, nada o empece; diz "puta" e "fideputa" quando há mister e onde toda gente poria discretos sinônimos ou rodeios preservatórios dos arminhos e catarros moralísticos. (2:22)
11. Para o trabalho do estilo, a primeira empreitada é modificá-lo, como diz você, das "maneiras" consagradas. Fugir sobretudo da maneira do Eça, a mais perigosa de todas, porque é graciosíssima e muito fácil de imitar. "Cigarro lânguido" — "Caneta melancólica" — "Tinteiro filosófico". Também o descanso nas linhas exóticas é preciso — sobretudo no inglês. A literatura alemã também ensina muito. Sudermann revelou-te um grande segredo, e a mim quem mo revelou foi Hauptmann. O Caminho dos Gatos é romance de deixar sementes em nosso terreninho, quanto à composição e ao modo de dizer.
A literatura francesa infeccionou-nos de tal maneira que é um trabalho de Hércules remover as suas sedimentações. É gafeira lamelar. Temos que ir tirando aquilo casca por casca. Da casca haurida em Zola já nos alimpamos; a flaubertina e a goncurciana ainda subsistem em você. Temos depois as casquinhas hauridas aqui — a casca eciana, a fialhana, a euclidiana e até a camiliana. Abusamos de Camilo como certos sifilíticos abusam do mercúrio. O espiroqueta morre, mas ficamos com os dentes estragados. Temos que eliminar todas as cascas e ficarmos em carne viva. Será possível, Rangel? Certas cascas nos ficam como pele e dói o arrancá-las. (2:59-60)
12. Tua carta vem com uma frase absurda: "Sinto necessidade de arrepiar carreira em estilo e recomeçar do princípio." Equivale a: "Examinei ao espelho minha cara e sinto necessidade de voltar atrás os bigodes, o nariz, o ar, e refazê-la segundo um molde que me bacoreja cá dentro." Olha, Rangel, enquanto te preocupares com o estilo, não o terás. Estilo é o jeito da gente. E todo jeito artificialmente procurado desajeita uma pessoa. O que devemos é comportar-nos com grande decência no trato da língua, e só a aprendermos no trato dos mestres. Que preocupação de estilo há nesse Camilo que transcrevi? E que estilo! Donde a conclusão: Têm-no os que não o procuram — os descuidosos.
Para o diabo o estilo, pois — e toca para a frente. (2:66)
13. E por falar em estilo: quando deixamos a idéia correr ao fio da pena, sem nenhuma pré-concepção quanto à "maneira" ou regra e, pois, não procuramos "fazer estilo", é justamente quando temos estilo. Receita: Quem quiser estilo, jamais o procure. (2:67)
14. Renego todas as minhas observações. Estilo é cara, vivo dizendo. E querer que por causa disto ou daquilo o vizinho reforme o nariz ou a boca, é besteira. Sustente a cara que Deus te deu e Camilo apurou, e os Lobatos que vão às favas. (2:142)
15. Mas em Fialho há gênio, há estilo. (...) E quando descreve cenários, usa lucilações de relâmpagos. "Quis a janela aberta: estava um dia supremo, vivo de sol, com tintas loiras de inverno sobre os montes."
Nós, Rangel, nós do Minarete, viciados pelo senhor Emile Zola até no modo de pegar na caneta, pervertemo-nos com a maneira de Zola — ótima e certa nele, porque era dele, mas péssima em nós porque nos sufocava o surto da nossa maneira; nós, Rangel, diríamos assim:
"Pediu que abrissem a janela. Fora, um dia soalheiro (interferência do Eça) derramava o ouro de sua luz sobre a terra inteira, e nos montes punha tons alaranjados de outono."
Nove palavras a mais e quatro calorias de expressão pictórica a menos. E isso se nos contentássemos apenas com 28 palavras, o que seria um puro milagre de economia vocabular, dada a nossa verborréia incoercível. E hoje que o "naturalismo" zolaico passou, ainda andamos patinhando por lá, como gente de anquinhas em estação de vestidos colantes. Eu já dei limpa de enxada em meu terreno, mas há muito rebroto que preciso estar sempre quebrando. É preciso deixar o chão totalmente livre das coisas plantadas, para que nele brotem as sementinhas que os ventos trazem — as guanxumas, os carurús, as beldroegas, os cordões-de-frade, as gramínias congeniais e personalíssimas desse conglomerado de órgãos, sangue e células que Caçapava vê passar na rua e classifica no gênero Homo, indivíduo Lobato. E como somos, eu e você, uma velha parelha a puxar o mesmo carro, convido-te a empreender esta terrível obra de sacha, extirpadora das ervas francesas. E melhores gadanhos não conheço, que o velho Camilo e este truculento Fialho. Gadanhemo-nos, Rangel! Com um ano deste regime, curamo-nos da sarna gálica. Para filosofia, Nietzsche, que é um tanque desbravador de tudo, e tem a sublime coragem de nos dizer: Vade mecum? Vade tecum! Queres seguir-me? Segue-te! (2:154-155)
16. Compreendo o estilo em literatura como fiel mensageiro encarregado de transmitir ao leitor as idéias do autor.
Servo, escravo, "próprio" que deve ter as qualidades dos bons serviçais: brevidade, simplicidade, humildade, fidelidade, passividade.
Há-os, porém, petulantes, pernósticos; servos mal educados que não dão o seu recado sem que preambulem por conta própria e fiquem a maçar o leitor com exibições alheias ao acaso. O caso é sempre o mesmo: dar o recado com humildade de servo e safar-se. (7:39)
17. — Confesso, miss Jane, que a sua apreciação do último domingo me desalentou, e ainda permaneço sob essa impressão...
— Que vaidosos os moços! Lembre-se de meu pai. Quantas vezes fazia e refazia a mesma experiência, com uma paciência de beneditino! Porisso venceu. Lembre-se do esforço incessante de Flaubert para atingir a luminosa clareza que só a sábia simplicidade dá. A ênfase, o empolado, o enfeite, o contorcido, o rebuscamento de expressões, tudo isso nada tem com a arte de escrever, porque é artifício e o artifício é a cuscuta da arte. Puros maneirismos que em nada contribuem para o fim supremo: a clara e fácil expressão da idéia.
— Sim, miss Jane, mas sem isso fico sem estilo...
Que finura de sorriso temperado de meiguice aflorou nos lábios da minha amiga!
— Estilo o senhor Ayrton só o ter quando perder em absoluto a preocupação de ter estilo. Que é estilo, afinal?
— Estilo é... ia eu responder de pronto, mas logo engasguei, e assim ficaria se ela muito naturalmente não mo definisse de gentil maneira.
— ... é o modo de ser de cada um. Estilo é como o rosto: cada qual possue o que Deus lhe deu. Procurar ter um certo estilo vale tanto como procurar ter uma certa cara. Sai máscara fatalmente — essa horrível coisa que é a máscara...
— Mas o meu modo natural de ser não tem encantos, miss Jane, é bruto, grosseiro, inábil, ingênuo. Quer então que escreva desta maneira?
— Pois certamente! Seja como é, e tudo quanto lhe parece defeito surgir como qualidades, visto que ser reflexo da coisa única que tem valor num artista — a personalidade.
Refleti comigo uns instantes e disse por fim:
— Está bem, miss Jane. Vou tentar mais uma vez. Vou escrever como sair, sem preocupação de espécie nenhuma — nem de gramática, e verá que horror...
— Isso! exclamou ela encantada. Acertou. Isso é que é escrever bem. Refaça o primeiro capítulo com esse critério e traga-mo no próximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me parecer que de fato não tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente e não pensaremos mais nisso. (8:327-32 )
18. Não vem dos grandes mestres das artes plásticas a feição estética duma cidade. Vem antes de humildes artistas sem nome — do marceneiro que lhe mobilia a casa, do serralheiro que lhe bate o ferro dos portões e grades, do entalhador de guarnições e molduras, do fundidor, do estofador, do ceramista, de quantos direta ou indiretamente afeiçoam o interior da casa urbana. Como tais obreiros são numerosíssimos, dilata-se-lhes a zona de influência. Sai-lhes inteirinha das mãos a casa popular, como ainda a burguesa, e em boa parte o palacete rico. Apreende-se claro a força do profissional anônimo atentando para o Rio de Janeiro, cidade plasmada pelas manoplas calosas dum mestre d’obra que, sendo legião, é um só, tão uniformemente imprimiu em tudo o cunho mazorral da sua pouca finura em arte. Se em menino esse mestre atravessasse uma escola bem orientada, onde lhe desbastassem a gafeira grossa, que maravilha não seria a capital do Brasil!
Uma vez que é assim, curar da educação artística do operário, ensinando-lhe o bom gosto, desabrochando-lhe o senso da arte, norteando-lhe um impulso da criatividade, é dar moldes indeterminados, mas individualíssimos, à cidade futura.
É, portanto, criar estilo.
Estilo é a feição peculiar das coisas. Um modo de ser inconfundível. A fisionomia. A cara.
Não ter cara é um mal tamanho que as cidades receosas de criá-la própria importam máscaras alheias para fingir que têm uma. (16:23-24)
19. Estilo não se cria. nasce. Nasce por exigência do meio.
Ora, num meio incapaz desta exigência, compete aos artistas provocá-la, criando o estado d’alma propício.
E que artista é capaz disso?
O anônimo, o artista legião — só ele.
Está pois nas mãos dum estabelecimento como o Liceu, já perfeitamente radicado, criar o estilo da cidade, criando o artista-operário capaz de estilo.
Basta para isto incitá-lo à independência, ensina-lo a olhar em torno de si e a tirar da natureza cincunjacente os assuntos das composições, o motivo dos ornatos, a matéria-prima, enfim, da sua arte.
Feita a semeadura, as messes virão com o tempo fartas e consoladoras — e teremos assegurado um futuro menos incaracterístico do que o presente macacal. (16:27-28)
20. O estilo é a fisionomia da obra d’arte. Produto conjugado do homem, do meio e do momento, é pelo estilo que ela adquire caráter.
No rosto humano, trate-se de um hotentote ou de um dólico-louro, a máscara subsiste sempre, adstrita ao esquema morfológico da espécie; tem dois olhos, nariz, boca e orelhas, mas apesar disso nunca se confunde uma com outra. Paira nelas um elemento sutil, de penosa definição, embora flagrante: a fisionomia. Sem este "ar", a máscara perde o carater e vira "cara de boneca".
Assim, na obra d’arte, além dos elementos intrínsecos, permanentes, regidos pelas leis eternas das proporções e do equilíbrio, há o estilo que mais não é do que a sua fisionomia inconfundível. Resultante da personalidade do artista, representa ele o vinco forte do seu temperamento emotivo. Se, porém, da poesia, pintura ou escultura — artes mais suscetíveis de se impregnarem deste coeficiente pessoal — passarmos à arquitetura, amplia-se o fenômeno, sem que, entretanto, refuja à lei. Já não é o homem, senão o meio, que imprime estilo à obra. O elemento individual raro dá algo de seu. Mas dá muito, dá tudo, a estesia média da coletividade.
O estilo arquitetônico varia conforme o grau de inteligência, compreensão e sentimento artístico de cada povo. Nasce do solo como planta indígena, se o povo é criador e espontâneo como o grego. Na arquitetura helência nada grita em dissonância com o homem ou com a terra; jamais houve nada tão bem adaptado à paisagem envolvente, à índole da raça, aos seus usos e costumes, às suas necessidades, aos seus sentimentos e idéias. A simplicidade da vida, a formosura do tipo, a acuidade do pensamento, a frugalidade do povo eleito: — tudo sintoniza com a singela nobreza dos seus monumentos. (16:37-38)
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Ver: ESCRITORES 2 (2:162-163)
ESCRITORES: CAMILO CASTELO BRANCO 3 (2:52-54)
ESCRITORES: MACHADO DE ASSIS 3 (7:333-338)
ESCRITORES: MARIA JOSÉ DUPRÉ (2:338-340)
ESTÉTICA 2 (1:80-83)
FIGURA DE LINGUAGEM (28:199-200)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)
VOCÁBULOS 2 (1:258-259), (1:263-264)

ESTILO BRASILEIRO
Nosso estilo deve ser a decorrente natural do estilo com que os avós nos dotaram. Sempre vivo, sempre em função do meio, se quer fugir à pecha de rastacuerismo deve retomar a linha do passado e desenvolvê-la à luz da estesia moderna. Para isso existem os artistas, temperamentos de eleição através dos quais a natureza se coa e surge satisfeita em arte. Coe-se arte colonial através dum temperamento profundamente estético, filho da terra, produto do ambiente, alma aberta à compreensão da nossa natureza: e a arte colonial surgirá moderníssima, bela, fidalga e gentil como a língua bárbara de Vaz Caminha sai bela, fidalga, gentil e moderníssima dum verso de Olavo Bilac. (16:33)

EXPRESSÃO TÉCNICA
Hans esteve algum tempo em Setúbal, com certeza provando o gostoso vinho moscatel que lá fabricam. Depois tomou o caminho de Lisboa. Sua tenção era seguir para as Índias numa das frotas que dali costumavam zarpar.
— Zarpar? — interrompeu Pedrinho. — Por que fala assim tão difícil hoje, vovó?
— Não estou falando difícil, Pedrinho. Há certas expressões que se chamam "técnicas" e que vocês precisam ir aprendendo. Zarpar se diz quando um navio ou uma esquadra sai dum porto. É uma expressão técnica, isto é, de sentido exato. (21:92)

F

FÁBULAS
1. — Esta fábula está errada — gritou Narizinho. — Vovó nos leu aquele livro do Maeterlinck sobre a vida das formigas — e lá a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos que existem. Formiga má como essa nunca houve.
Dona Benta explicou que as fábulas não eram lições de história natural, mas de moral. (28:171)
2. Dona Benta riu-se.
— Não, Emília. Quem inventou a fábula foi o povo e os escritores as foram aperfeiçoando. A sabedoria que há nas fábulas é a mesma sabedoria do povo, adquirida à força de experiências. (28:218)
3. — Muito bem. Vamos agora ver se não perdi meu tempo. Que é que você conclui de tudo isto, Pedrinho?
— Concluo, vovó, que as fábulas, mesmo quando não valem grande coisa, têm sempre um mérito: são curtinhas...
— Muito bem. E você, minha filha?
— Para mim, vovó, as fábulas são sabidíssimas. No momento a gente só presta atenção à fala dos animais, mas a moralidade nos fica na memória e de vez em quando, sem querer, a gente aplica el cuento, como a senhora diz.
— Muito bem. E você, Emília?
— Eu acho que as fábulas são indiretas para um milhão de pessoas. Quando ouço uma, vou logo dando nome aos bois: este mono é o Tio Barnabé; aquele asno carregado de ouro é o Coronel Teodorico; a gralha enfeitada de penas de pavão é a filha de Nhá Veva. Para mim, fábula é o mesmo que indireta.
Dona Benta voltou-se para o Visconde.
— E que pensa das fábulas, Visconde?
O sabuguinho assoprou e disse:
— Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: 1.o) que o mundo é dos fortes; e 2.o) que o único meio de derrotar a força é a astúcia. Essa da Liga das Nações, por exemplo. Os animais formaram uma liga, mas adiantou? Nada. Por quê? Porque lá dentro estava a onça, representando a força e contra a força de nada valem os direitos dos animais menores. Bem que a irara fez ver o direito desses animais menores. Mas nada conseguiu. A onça respondeu com a razão da força. A irara errou. Em vez de alegar direito, devia ter recorrido a uma esperteza qualquer. Só a astúcia vence a força. Emília disse uma coisa sábia em suas Memórias...
— Que foi que eu disse? — perguntou Emília, toda assanhadinha e importante.
— Disse que se tivesse um filho só lhe dava um conselho: "Seja esperto, meu filho!" Se não fosse a esperteza, o mundo seria duma brutalidade sem conta...
— Seria a fábula do Lobo e o Cordeiro girando em redor do sol que nem planeta, com todas as outras fábulas girando em redor dela que nem satélites — concluiu Emília dando um pinote.
Dona Benta calou-se, pensativa. (28:280-281)

FIGURA DE LINGUAGEM
— Bravos, vovó! — aplaudiu Narizinho. — A senhora botou nessa fábula duas belezas bem lindinhas.
— Quais, minha filha?
— Aquele “ouviu latir ao longe o perigo" em vez de ouvir latir ao longe os cães; e aquele "pastou a benfeitora" em vez de pastou a moita. Se Tia Nastácia estivesse aqui, dava à senhora uma cocada.
Dona Benta riu-se.
— Pois essas "belezinhas" são uma figura de retórica que os gramáticos xingam de sinédoque...
— Eu sei o que é isso — berrou Emília. — É "sem" com um pedaço de bodoque.
Ninguém entendeu. Emília explicou:
— Sine quer dizer "sem". Quando o Visconde quer dizer "sem dia marcado", ele diz sine die. É um latim. E "doque" é um pedaço de bodoque...
— Parece que é assim mas não é Emília — explicou Dona Benta. — Sinédoque é a synedoche dos gregos, e quer dizer compreensão.
— E que tem a compreensão com as duas belezinhas? — quis saber a menina.
— Tem que falando em "perigo" em vez de cães, e em "benfeitora" em vez de moita, toda gente compreende a troca das palavras — e fica a tal belezinha que você achou. A sinédoque troca a parte pelo todo, como quando dizemos "velas" em vez de "navios"; ou troca o gênero pela espécie, como quando dizemos "os mortais" em vez de "os homens"; ou troca uma coisa pela qualidade da coisa, como quando dizemos "perigo" em vez de "cães" e "benfeitora" em vez de "moita".
— E para que serve isso? — perguntou Narizinho.
— Para enfeitar o estilo.
— Mas a senhora mesma não disse que o estilo muito enfeitado, muito floreado, é feio?
— Sim. Quando é muito enfeitado fica feio e de mau gosto, mas se aparece discretamente enfeitado fica bem bonitinho. Se você vai à vila com uma flor no peito, fica linda como uma sinédoque. Mas se se enfeitar demais, fica apalhaçada e revela mal gosto. Tudo na vida depende da justa medida; nem mais, nem menos; antes menos do que mais.
— Então é o tal usar e não abusar — lembrou a menina.
— Isso mesmo. Discrição é isso.
Narizinho, que era uma menina muito discreta, compreendeu perfeitamente. (28:199-200)

FILÓSOFO MODERNO
O filósofo moderno é algo muito mais modesto que o filósofo ao tipo clássico, construtor de tremendos sistemas lógicos. O filósofo moderno é um avant coureur do cientista, isto é, um homem que se localiza nas fronteiras da ciência e, com bases nas aquisições desta, vai antecipando conclusões inevitáveis. (5:95)

FOLCLORE
1. Pedrinho, na varanda, lia um jornal. De repente parou, e disse a Emília, que andava rondando por ali.
— Vá perguntar a vovó o que quer dizer folclore.
— Vá? Dobre a língua. Eu só faço coisas quando me pedem por favor.
Pedrinho, que estava com preguiça de levantar-se, cedeu à exigência da ex-boneca.
— Emilinha do coração — disse ele —, faça-me o maravilhoso favor de ir perguntar à vovó que coisa significa a palavra folclore, sim, tetéia?
Emília foi e voltou com a resposta.
— Dona Benta disse que folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria, ciência. Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, de pais a filhos — os contos, as histórias, as anedotas, as superstições, as bobagens, a sabedoria popular, etc. e tal. Por que pergunta isso, Pedrinho?
O menino calou-se. Estava pensativo, com os olhos lá longe. Depois disse:
— Uma idéia que eu tive. Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela deve saber. Estou com plano de espremer Tia Nastacia para tirar o leite do folclore que há nela.
Emília arregalou os olhos.
— Não está má a idéia, não, Pedrinho! Às vezes a gente tem uma coisa muito interessante em casa e não percebe.
— As negras velhas — disse Pedrinho — são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias. Quem sabe se Tia Nastácia não é uma segunda Tia Esméria? (26:7-8)
2. Emília ficou a olhar a cara de Narizinho.
— Esta história — disse ela — ainda está mais boba que a outra. Tudo sem pé nem cabeça. Sabe o que me parece? Parece uma história que era dum jeito e foi se alterando de um contador para outro, cada vez mais atrapalhada, isto é, foi perdendo pelo caminho o pé e a cabeça.
— Você tem razão, Emília — disse Dona Benta. — As histórias que andam na boca do povo não são como as escritas. As histórias escritas conservam-se sempre as mesmas, porque a escrita fixa a maneira pela qual o autor a compôs. Mas as histórias que correm na boca do povo vão se adulterando com o tempo. Cada pessoa que conta muda uma coisa ou outra, e por fim elas ficam muito diferentes do que eram no começo.
— Quem conta um conto aumenta um ponto — lembrou Pedrinho.
— Sim, aumenta um ponto e introduz qualquer modificação. Ninguém que ouça uma história é capaz de contá-la para diante sem alteração de alguma coisa, de modo que no fim a história aparece horrivelmente modificada. Todas as histórias do folclore são assim. Há sábios que pegam nessas histórias e as estudam, e vão indo até encontrarem o seu ponto de partida. E mostram as mudanças que o povo fez. (26: 20-21)
3. — Bom — disse Emília. — Esta já está mais bem arranjadinha. Mas eu noto uma coisa: as histórias populares parecem que são uma só, contada de mil maneiras diferentes. Falam tanto na tal imaginação do povo e eu não vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza.
— Sim — disse Dona Benta. — Também eu não encontro grande riqueza de imaginação no nosso povo. As histórias que por aí correm de fato se repetem, parecendo ser todas do mesmo ciclo.
— Ciclo? — repetiu Narizinho. — Que é isso?
— Quando há uma idéia central e em redor dela surgem muitas histórias parecidas umas com as outras, dizem os sábios que elas pertencem ao mesmo ciclo. Na Europa houve, na Idade Média, o ciclo das histórias da raposa. Houve também o ciclo das histórias do Rei Artur. O povo encanta-se com uma idéia e vai tecendo variantes em torno.
— No cinema de hoje noto a mesma coisa — disse Pedrinho. — Sempre que aparece uma fita original, todas as companhias se aproveitam da idéia e dão fitas sobre o mesmo tema. Até enjoa a gente essa repetição.
— E na literatura também é assim — disse Dona Benta. — Sempre que um escritor lança uma obra original, com alguma novidade que caia no gosto do público, todos os maus escritores se metem a usar e abusar daquele tema. Quando aqui no Brasil apareceu O Guarani de José de Alencar, veio logo uma fúria de romances e contos de índios que não acabava mais. Eram obras de pouco valor, imitações que o tempo varreu para o lixo com a vassoura do esquecimento. Só ficou O guarani.
— Bom — disse Pedrinho. — Nesse caso, temos nas histórias populares o ciclo dos príncipes Joãozinhos que saem a correr mundo em procura de velhas que ensinam remédios e mais coisas milagrosas. As que Tia Nastácia já contou parece que pertencem ao mesmo ciclo. Já estou cansado desse "ciclismo"... (26:35-36)

FORMA
1. Ando a remoer uma observação que fiz há tempos e insiste. A forma perfeita é magna pars numa literatura. Não basta a idéia, como a reação contra o romantismo nos fez crer — a nós naturalistas. Há erro em querer que predomine uma ou outra. É mister que venham de braço dado e em perfeito pé de perfectibilidade. Há pelo Norte uns escritores de talento que só querem saber da idéia e deixam a forma p’r’ali. Eu também já pensei assim — que a idéia era tudo e a forma um pedacinho. Mas apesar de pensar assim, não conseguia ler os de belas idéias embrulhadas em panos sujos. Por fim me convenci do meu erro e estou a penitenciar-me. Impossível boa expressão duma idéia se não com ótima forma. Sem limpidez, sem asseio de forma, a idéia vem embaciada, como copo mal lavado. E o pobre leitor vai tropeçando — vai dando topadas na má sintaxe, extraviando-se nas obscuridades e impropriedades. E se é um leitor decente, revolta-se com os relaxamentos à Sílvio Romero, os pequeninos atentados ao pudor da língua — e com todas essas revoltas e extravios e topadas perde o fio da idéia e acaba com a sensação do caótico. Acho a língua uma coisa muito séria, Rangel. Como a nossa mãe mental.
A forma de Sílvio Romero e outros nortistas, Rodolfo Teófilo, Manuel Bonfim, etc., lembra-me uma estrada de rodagem sem pavimentação, toda cheia de buracos e pedras, e difícil de caminhar a cavalo — porque ler é ir o pensamento a cavalo na impressão visual e outras. Machado de Assis me dá a idéia duma estrada de macadame onde o nosso cavalo galopa tão maciamente que nem mais atentamos na estrada. Nos outros não tiramos os olhos da estrada, tais os perigos e a buraqueira — e como há de ver a paisagem marginal quem vai de olhos pregados no chão? O mal português mata a maior idéia, e a boa forma até duma imbecilidade faz um jóia. (1:222-223)
2. A tua descoberta da serventia do vernáculo bem aprimorado como tampão do vazio de idéias, cai na regra de que a Forma salva tudo. Haja Forma, e o leitor, engodado pela beleza exterior, esquece-se de pedir beleza interior (idéia). E assim os patifes da Elegância fazem com meia arte o que a pede inteira. (2:157)
3. Quanto à forma, impossível eximirmos de várias restrições. Se o objetivo de um escritor é transmitir idéias e sensações, essa transmissão será tanto mais perfeita quanto mais respeitar a psicologia média dos leitores. Quando, ao invés disso, arrastado por preocupações de escola, vai contra ela, na vã tentativa de inovar, em vez de causar a impressão visada causa uma impressão defeituosa, incompleta, "empastelada", muito diferente da que pretendeu. Tenha isto em vista o jovem romancista, faça experiências in anima mobile, abandone teorias, escolas, corrilhos, "ache o seu trilho — e sua obra corresponderá na aceitação pública ao muito que se espera do seu magnífico talento. (10:22-23)
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Ver: ESCRITORES: MACHADO DE ASSIS 2 (4:252)

FUTURISMO
O futurismo apareceu em São Paulo como o fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andrade. Turista integral, alternando estadias em Paris com passeios a Ribeirão Preto, leituras de Marinetti com leituras d’"O Democrata" de Pilão Arcado, visões de mármores de Mestrovich com santos de olhos arregalados feitos na Bahia, apachismos elegantes de boulevard com o mumismo urbano de Mariana e Diamantina — sentia melhor do que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la.
Mas combatê-la como? O velho processo do rico, da sátira, do sarcasmo sempre se revelou inútil entre nós. Dá resultados nos países de cultura disseminada, onde um riso como o de Voltaire se propaga em ondas hilariantes dum extremo a outro. Aqui morre nos lábios de quem o arrepenha, porque a incultura não ondula coisa nenhuma.
Mas Oswald, psicólogo de fartos recursos, teve uma idéia genial: recorrer ao processo da atrapalhação.
— "Essa gente, refletiu ele, está a jogar uma partida de xadrez que não tem fim; sempre as mesmas pedras, sempre as mesmas regras, sempre as mesmas saídas de peão do rei, sempre os mesmos xeques de rainhas e torre. O riso, a piada de quem lhes sapeia o jogo, de nada vale: não ligam, estão absortos demais. O recurso é um só, meter as mãos no tabuleiro e mexer as pedras como quem mexe angu."
E embora justificasse o angu com teorias metafísicas, transcendentalíssimas, tais teorias não passavam duma peninha (o futurismo), cujo fim era atrapalhar inda mais.
Sabem o caso da peninha?
Um sujeito propôs a outro, esta adivinhação: "Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?"
Está claro que ninguém adivinhou.
— "Pois é o gato", explicou ele.
— "Gato com peninha na cauda?"
— "Sim. A peninha está aí só para atrapalhar."
As teorias estéticas dos futuristas são essa peninha...
Assim pensou e assim fez Oswald. E os enxadristas, com grande indignação, tiveram de interromper a partida interminável. Xadrez exige calma, repouso, ordem, regra, sistema, boa educação, e do mexer o angu nascera a desordem, a molecagem, o barulho, a extravagância.
O rei passou para o lugar do peão; a rainha deu de pular como o cavalo; o cavalo passou a ter movimentos de bispos e no fim de tudo quem levava o xeque-mate era que saía ganhando.
"A besta do Homero... A cavalgadura do Shakespeare... O cretinismo do Anatole..."
Inversão, ou, melhor, atrapalhação, angu completo dos valores e regras universalmente aceitos. A gramática, a boa ordem, a justa medida, a clareza — pilhérias! Por que é que o pronome reflexo não há de abrir períodos? E zás: "Me parece que..." E o "você" expeliu o "tu" e a velha asneira, que andava no refugo porque só os asnos a manuseavam, foi reabilitada, vestida à moderna e veio à tona de livros e jornais, toda garrida, provando mais uma vez que tudo vai da apresentação, e que um urubu preparado por Vatel pode saber melhor ao paladar do que uma perdiz assada pelas nossas cozinheiras do trivial.
S. Paulo é um meio muito rico de vitaminas mentais e só lá era possível que o gesto de Oswald criasse escola. Assim é que brotou do Bom Retiro, Brás, Bexiga e adjacências uma legião de asseclas. Como sempre acontece, poucos dos legionários compreenderam o alcance da "batalha do Ernani" oswaldiana, puro "meio" para a consecução de um "fim". E com raríssimas exceções esses bravos guerreiros de 18 anos e menos adotaram o meio como fim. Atrapalhar, para Oswald, era o meio de conseguir descristalizar a mentalidade. Só. Mais nada. Ela depois que criasse o que lhe aprouvesse, livremente, sem nenhum dogma, nenhum quadro, nenhuma autoridade constringente. Não foi outro o objetivo de Oswald, embora ele próprio, no calor da luta, se iludisse e tentasse construir, esquecido de que as duas funções, a destrutiva e a construtiva, jamais cabem juntas a um mesmo homem. Oswald revelava-se aquele fecundo Nietzsche do "Vade mecum? Vade tecum!" Queres seguir-me? Segue-te!
Em vez disso a plêiade futurista, coesa no bloco do Quebra-Vidraças, deu de seguir Oswald, atrapalhando também, mas errada. Errava adotando a atrapalhação como fim supremo, objetivo de todas as manifestações artísticas modernas, e não como simples meio, único eficaz numa terra onde o riso do Voltaire, em vez de matar, engorda.
Por instinto, Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a dividi-lo, a renegar sumos pontífices (como Graça Aranha), a expulsar adesistas — a impedir, enfim, que o chamado futurismo se cristalize em escola e passe a ser fim em vez de simples meio de combate.
Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valer por um 89 duplo — ou por um novo 7 de setembro. Nestas duas datas está exemplificado o modo de falar da escola antiga, francesa, e da nascente escola nacionalista.
Porque é estranho isto de permanecermos tão franceses pela arte e pensamento e tão portugueses pela língua, nós, os escritores, nós, os arquitetos da literatura, quando a tarefa do escritor de um determinado país é levantar um monumento que reflita as coisas e a mentalidade desse país por meio da língua falada nesse país.
Formamos, os escritores, uma elite inteiramente divorciada da terra, pelo gosto literário, pelas idéias e pela língua. Somos um grupo de franceses que escreve português — absolutamente alheios, portanto, a um país da América que não pensa em francês, nem fala português.
A eterna queixa dos nossos autores, de que não são lidos, vem disso — dessa anomalia que eles não percebem. O público não os lê porque não lhes entende nem as idéias nem a língua. Têm eles que contentar-se com um escol muito reduzido de leitores também educados à francesa, os quais em regra preferem ir logo às fontes, aos franceses de lá, aos Anatoles e Verlaines.
Este dualismo de mentalidade e língua tem que cessar um dia. Os gramáticos hão de convencer-se, afinal, de que a língua portuguesa variou entre nós, como acontece todas as vezes que um idioma muda de continente. Como o mesmo latim variou em França dando o francês, em Portugal dando o português, em Espanha dando o espanhol. E que continuar a variar, a distanciar-se mais e mais da língua mãe, até que um dia fique em face dela como está ela hoje em face do latim de Cícero. Seria fato virgem no mundo persistir imutável, apesar da mudança de continente, o instrumento língua — que é eólio e varia até quando muda para um país vizinho.
Em casos tais, freqüentes na história, a regra é a língua velha ir ficando cada vez mais confinada entre os eruditos, enquanto a língua nova se expande no povo. Por fim vence o povo, que é o número e a força. Nos países europeus de base latina o latim resistiu quanto pôde, escorado pelos sábios e eruditos — os despresadores da "corrupção" popular. Dia houve, porém, em que toda a resistência foi inútil e d’alto a baixo a língua se tornou una, pela vitória popular.
Entre nós estamos ainda longe do tempo em que o português ser língua apenas de um ou outro abencerragem feroz e não lido, mas tudo caminha para tal desfecho. O dissídio já esta patente. O povo fala brasileiro e os próprios escritores que escrevem em português não o falam em família. Em casa, de pijama, só se dirigem à esposa, aos filhos e aos criados, em língua da terra, brasileiríssima.
Contou-nos Bastos Tigre que ouviu Rui Barbosa dizer de um autor numa livraria:
— "Já conheço ele."
E ai de quem não falar assim no trato comezinho da vida! Não só ganha fama de pedante, de "difícil", como não é bem entendido. Sobretudo ao telefone. Dada a necessidade de extrema clareza, ninguém ao telefone fala em português, se quer evitar complicações.
Bastos quis um dia falar, depressa, depressa, caso urgente, e esqueceu-se de que estava no Brasil.
— Alô! Se o excelentíssimo X está, obséquio, e grande, far-me-á o atendente, chamando-mo.
Ninguém pescou. Bastos insiste. Nada. Berra. Nada. Por fim manda às favas o português de frei Luiz de Souza e diz:
— O seu Coisada tá aí? Quedele ele, então? Me chame ele, já, sim, meu bem?
O Coisada acode pressuroso e Bastos jura nunca mais falar ao telefone em língua de escrever.
Já temos dois grandes escritores que escrevem na língua da terra, em mangas de camisa, e pensam de chapéu de palha com idéias da terra: Cornélio Pires e Catulo.
A elite franco-portuguesa isola-os com o mesmo desprezo que em França e Itália tinham os faladores de latim para com os Dantes e Ronsards latinófobos.
Em 1559, um tal Sebillet publicou uma coisa com esse título: "Défense et Illustration de la Langue Française", onde havia este pedaço: "Nossa língua não deve ser desprezada, même de ceux auquels elle est propre et naturelle, et qui en rien ne sont moindres que les Grecs et les Romains."
Entende-se mal e mal o que o homem queria dizer, mas deduz-se que o francês nascente era "desprezado" pela elite latinizante.
O mesmo se dá entre nós. A língua de Cornélio e Catulo só merece sorrisos — e é no entanto a que vai vencer! Já a falamos; e acabaremos, cansados de resistir, por escrever como falamos. Só então a literatura será entre nós uma coisa séria, voz da terra articulada e grafada na língua das gentes que a povoam.
A resultante da campanha futurista vai tender para apressar este processo de unificação. Mas não o realizar . Não é isso obra de um homem, nem de um grupo. É obra do tempo e do povo. (6:110-115)

G

GENIALIDADE
1. Mas como os gênios são por natureza universais, havia dúvida no Brasil sobre a genialidade de Euclides. Faltavam pontos de referência para a comparação. Só um, já longa, na poesia Castro Alves. E um na música, Carlos Gomes. Mas na prosa? Como saber se Euclides era na realidade gênio, assim sem um ponto referência em casa e sem que a gente de lá fora se manisfestasse?
Mas os gênios são por natureza universais; e por mais tempo que fiquem de castigo no canto da língua em que plasmaram sua obra, acabam transplantados para todas as línguas decentes. (6:252)
2. O característico do gênio é ver grande. Todo gênio é panorâmico. O característico do talento é analisar minúcias. Dum par de braços de mulher faz Machado uma obra-prima literária – mas de “literatura confinada”.(9:240)
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Ver: ESCRITORES: HONORE DE BALZAC 2 (7:6-7 )


GRAMÁTICA
1. Confesso, Rangel, a minha ignorância do português-gramática e mais camarões da filosofia. Guio-me pelo faro, como o pescador que sente que ali naquelas pedras há garoupas. Infelizmente, faro é nariz; e em dias de resfriado lá se vai o faro. (2:39)
2. Grande bem me fazes com a denúncia das ingramaticalidades. De gramática guardo a memória dos maus meses que em menino passei decorando, sem nada entender, esoterismos do Augusto Freire da Silva. Ficou-me da “bomba” que levei, e da papagueação, uma revolta surda contra gramática e gramáticos; e uma certeza: a gramática fará letrudos, não faz escritores. (...) Estou com um pé na Cafra e outro no ar, a descer com lentidão e medo sobre a língua lusa verdadeira. Conto saltar. Hei de saltar. No intento de apressar a coisa, voltei-me para a gramática e tentei refocilar num Carlos Eduardo Pereira. Impossível! O engulho voltou-me – a imagem do Freire e da bomba. Dá-me idéia duma morgue onde carniceiros de óculos e avental esfaqueiam, picam e repicam frases, esbrugam as palavras, submetem-nas ao fichário da cacofonia grega. A barrigada da língua é mostrada a nu, como a dos capados nos matadouros – braços, fígados, tripas, intestino grosso, pústulas, “pipocas”, tênias. Larguei o livro para nunca mais, convencido de que das gramáticas saem Silvios de Almeida mas não Fialhos. Mil vezes (para mim) as ingramaticalidades destes do que as gramaticalidades daqueles. E entreguei-me a aprender, em vez de gramática, língua – lendo os que a têm e ouvindo os que falam expressivamente. (2:49-51)
3. Há sempre uma alta nobreza no estilo que se põe nos moldes sintáticos dos grandes antigos, procurando tomar como regra o que neles for regra, e não se autorizando a constituir como regra geral uma exceção, uma cinca, um desleixo e Vieira ou Camilo, quando é certo que até Homero cochilava. Quanto ao meu erro de “se o pratica” é coisa tão soez e chata que escusava te alongares tanto na demonstração. Já o expundi. Não fujo à pecha de ignorante em gramática, e até proclamo essa ignorância. E na realidade guio-me pelo tato e o faro, pelo aspecto visual e auditivo da frase. Se algum período me soa falso, releio-o em voz alta para perceber onde desafina. E achada a corda bamba, não a analiso, dispenso-me de saber que preceito gramatical foi ali ofendido: aperto a cravelha e afino a frase. O método, não será dos melhores, mas é o meu. É mau mas meu. Topete, hein? E queres ver que ilações tiro desse topete? Não arquiteto a frase: despejo-a sobre o papel no jeito, no tom, no rebarbativo, no elance com que me acode à pena. Depois barbeio de leve, sem escanhoar. Raramente substituo adjetivos que saltaram à tona, como peixes. Chamo a isto doigté e está acabado. E isto porque dia a dia mais me enjoa a “forma” – tanto na composição da frase como no “raconto”, como diz o Fialho em seu volapük. Tomei-me de tal engulho pelo naturalismo formalístico, impessoal – pedaços da natureza vistos através dum molde – que o considero máquina de fabricar lingüiça. Entram pela boca Zola, Aluísio e tutti quanti, sobraçando o assunto; dá-se à manivela e sai do outro lado sempre a mesma lingüiça, na forma e no comprimento, apenas com leves diferenças no tempero interno. (2:55-56)
4. Se por “saber português” entendes conhecer por miúdo os bastidores da Gramática e a intrigalhada toda dos pronomes que vem antes ou depois, concordo com o que dizes na carta: um burro bem arreado de regras será eminente. Mas para mim “saber português” é outra coisa: é ter aquele doigté do Camilo, ou a magnificente allure processional do Ramalho, ou a sublime gagueira do Machado de Assis. Aqui em S.Paulo o brontossauro da gramática chama-se Álvaro Guerra, um homem que anda pela rua derrubando regrinhas como os fumantes derrubam pontas de cigarro. As regras desse homem tremendo, quando vêm ao bico da pena dos escritores, matam, como unhas matam pulgas, tudo o que é beleza e novidade de expressão – tudo que é lindo mas a Gramática não quer outro gramaticão daqui escreveu um enorme tratado sobre a Crase; e consta que o Sílvio de Almeida tem 900 páginas inéditas sobre o Til. O livro vai chamar-se: “Do Til”... (2:168-169)
5. Língua, ou melhor, gramática, é como religião ou credo político. Cada qual tem o seu, e não se discute. (12:79)
6. – A gramática, minha filha, é uma criada da língua e não uma dona. O dono da língua somos nós, o povo – e a gramática o que tem a fazer é, humildemente, ir registrando o nosso modo de falar. Quem manda é o uso geral e não a gramática. Se todos nós começarmos a usar o tu e o você misturados, a gramática só tem uma coisa a fazer...
- Eu sei o que é que ela tem a fazer, vovó! – gritou Pedrinho. – É pôr o rabo entre as pernas e murchar as orelhas...
Dona Benta aprovou. (28:193)
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Ver: LÍNGUA 6 ( 5:29-33 )

H

HISTÓRIA
1. O que na Revolução Francesa me interessa é o que os estúpidos historiadores à moda clássica não contam. Eu quero fatias de vida da época, conservadas aqui e ali em memórias, em panfletos de despeitados. Interessa-me o bas-fond da revolução, o formigueiro dos interesses inconfessáveis, a trama secreta dos bastidores, os fios que movimentavam os polichinelos políticos – os subornos. A história fala no patriotismo de Danton, na virtude de Robespierre, mas o que me interessa conhecer é o apetite de Danton, a ambição de Robespierre. Os grandes homens aparecem infinitamente mais interessantes, mais homens, quando despidos das falsas atitudes com que os veste a História – esse reposteiro. (1:314-315)
2. A história é um processo contínuo do que se fez no passado, com o objetivo utilitário de nortear o futuro. Se fosse apenas um recreio, o cinema novelesco a superaria com vantagem. Só o que se fez ensina o que se deverá fazer para o diante. (16:197)
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Ver: MEMÓRIA (1:340-341)

HUMOR
Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas. (...)
Pus-me a recordar anedotas humorísticas e cobri-las com a minha definição.
Há uma clássica:
- “Qual a diferença entre um elefante e um piano?”
- “Não sei”.
- “Pois trate de saber, senão vai comprar um piano e impingem-lhe um elefante”.
Temos aqui uma resposta perfeitamente humorística, porque imprevisível, certa e filosófica. Como não há nenhuma espécie de associação lógica entre a pergunta e a resposta, esta é absolutamente imprevisível, pois só prevemos o lógico. E além disso é certa e filosófica. Nada mais certo que quem não percebe a diferença entre um elefante e um piano corra o risco de ser enganado e acabe comprando um elefante quando pedir um piano. E é também filosófica, no conselho pragmático que dá.
Se a resposta fosse previsível e consistisse, por exemplo, numa engenhosa associação entre as presas do elefante e as teclas do piano, ambas de marfim, teríamos uma resposta apenas espirituosa, não humorística. E não seria certa nem filosófica, porque nenhuma associação desse gênero alcança a certeza e a filosofia – fica apenas na zona do engenhoso. (5:12-15)

I

IDÉIA
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Ver: FORMA (1:222-223 )

IDÉIA (registro de)
1. Espero catequisar-te para uma das coisas mais úteis a um homem que pensa por si mesmo. Porque quem pensa por si mesmo tem sempre à tona do pensamento coisas originais e novas – novas combinações, nuanças novas, tons novos, coisas que nos parecem inéditas e que realmente o são, caso contadas com todos os pelinhos com que brotaram. Esses pensamentos em geral se perdem – evaporam-se como as primeiras gotas de chuva em pedra quente de sol. São como a forma das nuvens. Não calculas como me agrada recordar hoje o que pensei um ano atrás; e se é bom com a diferença apenas um ano, que dizer quando há dez ou vinte de permeio? Por que não grafar isso diariamente – não mariscar diariamente, de peneira, essa escumalha e pô-la no papel para futuro regalo? Essas idéias-nuanças, essas sensaçõezinhas-tons? Comecei a fazer isso o ano passado e esta noite, relendo trechos do primeiro caderno, já cheio e relegado para o fundo da gaveta, achei-lhes um estranho sabor de autenticidade e cor fresca – e aí vai a amostra para te induzir a fazer o mesmo. Infelizmente esses arrepios de momento são grafados em letra também de momento indecifrável às vezes, já que a letra segue o estado d’alma. Há nelas um descosido, um desprezo às regras de enfurecer qualquer Catão da língua. Pontuação, ortografia – nada atrapalha. A impressão só, mais nada – manchinhas, como se diz em gíria de pintor. (1:114-115)
2. Não gostas de reler coisas velhas, cartas antigas – e é o meu maior prazer. Ontem passei umas horas nisso. Pilhamos evolução de idéias. Vemos as idéias de hoje ainda em botão, medrosas – assustadas como se fossem audácias. Hoje estão velhas e nossas cabeças cínicas. (1:145)
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Ver: DIÁRIO (1:130-131)

J

JORNAL
1. “Pois dê ao jornal o nome de Minarete, sugeri, e no primeiro número explicaremos aos povos o que é minarete – aquelas esguias torres das gentes islâmicas, de cujo topo, ao cair da tarde, os muezins convocam os fies à prece. Um jornal é um minarete de cujo topo o jornalista dá milhos às galinhas da assinatura e venda avulsa. Fica muito bem esse nome – e é nome que não está estragado. Tribunas do povo, por exemplo, existem centenas.” (1:28)
2. O jornal moderno, ao molde americano, é a reportagem sensacional. Mas com este alcalóide estupefaciente se dá o mesmo que com os filmes de estrondo: só está ao alcance das empresas que nadam em ouro. Sem derrame de libra, dólar ou peso, não há colher as preciosas orquídeas da sensação – flores que se não confundem com o escândalo social. (6:61)
3. O jornal é uma casa de pasto, com quitutes de idéias e arranjo de pratos diários com o tempero ao sabor dum paladar que não muda. Freguês do jornal é como freguês de restaurante. Adquire hábitos gastronômicos, sérios e respeitabilíssimos. Se o jornalista, levado pela veneta ou por humores extravagantes perde o ponto de bala, dá sal demais ou mete banha de lata no que requer manteiga, arrisca-se a um “Idiota!” desconcertante e à perda dum facções, gente afim em matéria de exigências mentais, tom, timbre, estilo, temas e até disposição tipográfica.
Agremiam-se lentamente em torno da folha que melhor lhes vai com o diapasão, afazem-se à sua mesmice, e a ela identificam-se. Nada evidencia melhor este fato do que a observação dos leitores dos velhos órgãos. Chegam a abdicar do pensamento próprio, e esperam, para formar opinião, que se manifeste o seu mentor de papel e graxa.
- A peça de ontem? Fui assisti-la, mas não sei se é boa ou má. Inda não li o “jornal”...
Não dizem os jornais. Singularizam, porque opinião decisiva há uma só, a do seu jornal. Os outros...
Daí jornais de todas as cores e feitios – amarelos, rubros, cinzentos: escritos com cordite líquida ou mel rosado; vestidos à última moda capistranescamente; sisudos ou brincalhões; honestos ou canalhas. Diz-me que jornal lês, dir-te-ei que bisca és. (...)
Para conquistar o seu público jogam os jornais com dois elementos: tempo e constância de atitude. Confirma-se aqui o adágio: pedra que muito mexe não cria limo. Sem esta adoção duma cara ou máscara fixa, seja ela qual for, impossível criar o limo que torna o jornal vivedoiro. Se muda de cara duas ou três vezes, está irremediavelmente morto. O público – o limo – afasta-se, murmurando: “Ventoinha!”
Mudar nem para melhora, porque bem ponderado não há melhor nem pior. A verdade não existe, a vida é uma irisação, e tanto está certo Rui como Seabra. Tudo varia com o ponto de vista. O Rio é um para quem o vê na Avenida; é outro olhando da Praia Vermelha; e do alto do Pão, quatrocentos metros apenas acima do mar, não é mais nem um nem outro, e sim um quadro da natureza, uma simples paisagem. Afirmar que o verdadeiro Rio é este ou aquele é de ótima política para o partido em que formamos – mas nada filosófico. Pelo menos é isso o que nos ensina o filosofar da pena, fiel companheira por cujo bico escorre toda a sabedoria humana. E não só a sabedoria como a sandice, o que dá na mesma, pólos que são, sabedoria e sandice, do mesmo mundo, o cérebro. Daí o prognóstico dos jornais. Afirme cada um o que bem saiba ao seu limo, e nada de vôos planados pelo éter da filosofia pura onde mora a Dúvida – certeza única, mas de perigosíssimo uso cá embaixo. Jornal assim, só de filósofos seria entendido, e de mais ninguém. Quer isto dizer que nem um só leitor teria porque os filósofos ignoram a existência dos jornais. E quando apanham um é para dar-lhe emprego muito diverso do visado pelas empresas, chegando até a filosofar sobre o maravilhoso que seria se por acaso pudessem vir em branco. (14:128-131)
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Ver: ESTILO 6 ( 1:312-313 ); 7 (2:6-7 )
OPINIÃO PÚBLICA (7:6)

L

LENDA
(...) lenda – alma das raças cristalizadas pela tradição. (...)
A insofreável musa do Devaneio encarcerada em cada peito humano, seja Guilherme Shakespeare ou Zé Pichorra, deturpa a realidade, enfolha-a, enflorece-a de poesia – da sã poesia que se não molda por figurinos mas sai da alma com a espontaneidade de perfumes vaporados de resedás – por exalação funcional.
Tal poesia é a matéria da lenda. (...)
E de tudo se vê que a lenda vem do sonho. E que quando o sonho se crispa em convulsões por influências internas da atrabilis e externas do excessivo rancor aos fígados do próximo, vem do pesadelo. (16:105... 112)

LER
1. Tenho lido muito em inglês – viagens. Há cá uma porção de números de Wide World Magazine e do Stand. Enjoei-me do francês. Quanto ao Bourget, minha opinião é que vendas os 18 volumes a algum fogueteiro. Não há ar nessa literatura francesa. E lembra-te, menino, que a arte é longa e a vida breve. Como perder tempo com bobagens? Ler é coisa penosa; temos de mastigar, ensalivar e engulir – e que grande tolice comer palha! Alimentemo-nos dos Sumos – os Balzacs, os Shakespeare, os Nietzsches, os Bains, os Kiplings, os Stuart-Mills. Theuriets, Onhets, isso é palha. Bourget tem Mensonges. Fique aí. Dezoito volumes de Bourget! Como te foi cair nas unhas tamanha papelada?
Quanto aos épicos antigos, Dante, Milton, Homero, Só com bons intérpretes, com Virgílios cicerônicos. O próprio Lusíadas nunca li inteiro. Cansa-me. Já investi contra o bloco cinco vezes. Começo achando-o belíssimo, e vai belíssimo até dez ou doze estrofes; daí por diante entram a amiudar-se os bocejos e a admiração vai morrendo. Na estrofe 16ª volto as páginas para ver se o fim do canto ainda está muito longe. Na 20ª acho meios de interromper a ingestão da obra-prima e encosta-la por seis meses ou um ano. Mas é admirável o Camões, não resta a menor dúvida. Nós é que somos uns fracalhões, uns dispépticos, uns degenerados netos de truculentíssimos avós. Um dos nossos antepassados, Cunhambebe, comia um português inteiro sem arrotar. Nós mal escoramos uma asinha de frango... (1:119-120)
2. Conheces Balzac? Se não leste o Lys posso afirmar que não, porque é ali que Balzac assume as proporções desmarcadas dum Shakespeare do romance. A princípio me soou entendiante e falsa a sua maneira de tratar o assunto; mas, breve, reconsiderando e mudando o sistema de ler – lendo-o como o fanático lê uma encíclica e não como nós lemos um romance, a voar de idéia em idéia dentro do carro do estilo – lendo e pensando, lendo devagar, lendo palavra por palavra, frase por frase, cheguei a ponto de lê-lo dum modo novo: ler admirando, ler em êxtase, ler com espanto, ler bebendo as frases com o terror sagrado da beata que ingere a hóstia. Porque Balzac – só agora o percebi – é o Grande Gênio da literatura moderna. Compreendes? Balzac é o gênio da alma moderna, como Shakespeare foi o gênio da alma antiga. Penetrar, como Balzac o fez, no fundo do pensamento moderno, e pôr a nu todas as almas, quem mais que Balzac o fez? Meu entusiasmo é tanto que só tenho um conselho a dar-te: Lê o Lírio no Vale e depois varre da tua cabeça o alfabeto, para que nunca mais nenhum livro venha profanar essa leitura suprema e última.Lê o Lírio, Rangel, e morre. Lê o Lírio e suicida-te, Rangel. Se não o tens aí, posso mandar-te o meu exemplar – e junto o revólver. (1:215-216)
3. Li Bem Casados duma assentada – e que quer você mais? Só as novelas muito empolgantes suportam essa prova. (1:248)
4. A nossa grande gente nacional escreve dum modo tão requintado, tão sublimado, tão empoleirado, que ler a maioria das coisas existentes se torna um perfeito traduzir – e isso cansa. Olhe – aqui está a reprodução dum artigo de Coelho Neto sobre José do Patrocínio. Eu derrubo este seu lápis vermelho em cima e juro que a ponta marca uma frase que tem de ser “lida traduzidamente”.
E fiz a prova. Pinguei o lápis em cima do artigo. A ponta marcou isto: “pela estrada desciam récuas em chouto, sacolejando ceirões e cofos”.
- Bem. O artigo trata da última visita que Coelho Neto fez a Patrocínio, já quase moribundo lá numa casinha de Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro. Ora, quem conhece este país, e o Rio, e os subúrbios do Rio, sabe que por cá não existem “récuas”, nem “choutos”, nem “ceirões”, nem “cofos”. Tudo isso são velhas tintas lusitanas que Neto usava para pintar paisagens daqui. O leitor, portanto, terá que verter tais tintas para as equivalentes nacionais – mas só o fará se for culto e bem dotado de paciência. Em caso contrário, repele o autor, dizendo “Outro ofício!”. Mas, traduzindo em língua comum a tremenda complicação acima, o que obtemos é muito simples: “Pela estrada desciam burros de carga no trote, sacudindo jacás”. Como você está vendo, o trabalho é duplo; é um trabalho de leitura simultaneamente articulado com tradução mental. Conseqüência: quando um leitor incauto pega num desses livros, antes de chegar à terceira página já está batendo a testa e dizendo: “Oh, diabo! Não é que me esqueci do...” Não diz do que nem é preciso. Guarda o romance para mais tarde – para o sobrecarregadíssimo dia de São Nunca. (5:44-45)
5.Tanto o jornal como o livro funcionam como veículos de imagens cerebrais – mas veículos ronceiros, que exigem um elevado índice de cultura no leitor; que exigem tempo, elemento cada vez mais escasso na atropelada vida moderna; e dinheiro – e, cada vez mais, porque o livro encarece vertiginosamente; e ainda certas disposições de espírito não realizadas com freqüência.
Já o cinema, veículo de imagens de muito maior envergadura, pede menos tempo, menos dinheiro, menos cultura e menos disposições mentais especialíssimas. Está, pois, predestinado a bater o livro em uma boa parte dos seus domínios e, quem sabe? A bater a própria imprensa. (...)
A novela popular pelo sistema antigo, quer em folhetins de jornais, quer em brochuras baratas, está quase morta entre nós, onde, aliás, nunca teve grande desenvolvimento graças ao nosso fantástico analfabetismo. A proporção nas capitais e no interior do país entre a novela vista e lida será, talvez, de uma para mil. E a inclinação da balança favorável à novela vista cresce constantemente. (8:18-19)
6. Quanto aos livros a recomendar....Que coisa difícil! Para cada temperamento, para cada personalidade que somos, tais livros. Eu já disse, não sei onde, que temos de ser imãs; e passar de galopada pelos livros, com cascos de ferro imantado, para irmos atraindo o que nas leituras nos aproveite, por força de misteriosa afinidade com o mistério interior que somos. Ler não para amontoar coisas, mas para atrair coisas. Não coisas escolhidas conscientemente, mas coisas afins, que nos aumentem sem o percebermos etc. isto é comprido. Só conversando. (12:69)
7. – Sim – continuou Pedrinho – mas nós sabemos ler e vocês não sabem.
- Ler! E para que serve ler? Se o homem é a mais boba de tosas as criaturas, de que adianta ler? Que é ler? Ler é um jeito de saber o que os outros pensaram. Mas que adianta a um bobo saber o que o outro bobo pensou? (20:184)
8. – Ah, a minha história! – exclamou Belerofonte. – Corre mundo contada por numerosos poetas, entre eles o velho Hesíodo e o grande Homero.
- Este eu sei quem é – disse Pedrinho. – Um cego que andava pelas ruas contando histórias.
- Sim, o maior poeta da Antiguidade. Até hoje seus poemas são lidos, admirados e estudados pelos homens.
- A Ilíada e a Odisséia! Vovó já nos falou neles.
- Mas não basta conhecê-los de nome – observou o herói; - é preciso lê-los.
- Vovó diz que ainda é cedo – que há uma leitura para cada idade.
- E tem razão. Realmente ainda é cedo para vocês compreenderem Homero – disse o grego. (26:200)
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Ver: FORMA 1 ( 1:222-223 )
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)

LÍNGUA
1. E há a língua. Acho que nisso de língua a coisa é a mesma que nas argamassas físicas. Se os ingredientes não forem de primeira ordem, bem limpos de impurezas e misturados nas exatas proporções, o cimento não pega, o reboco falha – e a obra esboroa-se antes do tempo. Contra o reboco o que atua é a chuva, a intempérie, a erosão natural; na obra d’arte é a crítica. Quantos escritores clássicos, vazios de idéias como potes sem água, ainda vivem pela língua em que puseram as suas sensaborias! O “são vernáculo”, como é bonito! É como o asseio do corpo e das roupas. O escritor que escreve mal é um porco imundo, um fedorento, chulepento. Não tenha pressa em publicar-se. Olhe os bons exemplos. Não digo o Flaubert, que aquilo também era demais – pura doença; mas os outros limpos. Doze anos levou Rostand a anunciar esse Chanteclair que anda agora bulindo com o mundo e já lhe rendeu um milhão de francos. Valeria a mesma coisa se fosse atamancado em dois meses?
Se você gastou dois meses no borrão dos Bem Casados, leve dois anos no polimento. E para dar comida à febre da criação, pode ir compondo o n. 2 e o n. 3. mas imprimir, só quando estiver flaubertiano! (1:248-249)
2. Parei com as minhas leituras de língua estrangeira. Não quero que nada estrague minha lua de mel com a língua lusíada, que descobri como o Nogueira descobriu a Pátria, e o Macuco o verbo “apropinquar”. E sabe o que mais me encanta no português? Os idiotismos. A maior beleza das línguas está nos idiotismos,e a lusa é toda um Potosi. A parte que as línguas têm de comum é como a estrutura óssea das várias raças humanas, coisa que não varia apreciavelmente; o que as distingue, o que faz o inglês, por exemplo, ser tão diverso do italiano, são as feições, os trajes, os modos e as modas de cada um, isto é, os idiotismos fisionômicos. Note, observe. Fulana, a moça mais graciosa de rosto de todas que enfeitam aí essa tua cidade do Machado, que é que nela a distingue das demais e lhe dá aquela graça especial? O idiotismo com que a natureza a dotou; o narizinho arrebitado, a curva da boca, o modelado do queixo; particularidades essas, todas, que fogem à correção ideal e clássica das linhas dum rosto normal. Por que é o português de Portugal tão superior ao português do Brasil? Porque é muitíssimo mais idiotizado pela colaboração incessante do povo, ao passo que aqui o povo praticamente não colabora na língua geral – vai formando dialetos estaduais como na Itália. (1:272-273)
3. Vai para quatro o número de vezes que me ponho a escrever e estarrece-se-me em meio a pena, tolhida de súbita vergonha. É o caso que leio e leio Camilo, com o afã dum Henry Morgan a remexer as arcas de um galeão espanhol capturado no mar dos Caraíbas. Leio-o e penetro-me de Camilo, ensabôo-me com as riquezas do maior sabedor da língua d’aquém e d’além mar, Algarves e Colônias; e, com a “descoberta” que fiz do que realmente é a língua portuguesa, espanto-me do atrevimento da filha bastarda que vingou vicejar nestas paragens, tomou-lhe o nome e vive a dar-se como sua sucessora!
Num romance de Júlio Verne há um Tiago Paganel, geógrafo de má memória, ao qual sucedeu o caso, que hoje não me espanta, de aprender o espanhol pelo português. Quando deu pelo engano, abriu a boca. Não me espanta porque fiz o mesmo: aprendi por cá uma língua bunda pensando que era a nobre e fidalga língua portuguesa.
Sempre vivi nesse elegante atascal da língua francesa, no qual me cevava de literaturas exóticas, eslava, britânica, escandinava e até hindustânica – sem me lembrar fundo as províncias da literatura pátria. E tão encrostado me pôs o longo patinhar por anos a fio nesse engano ledo e cego, que não creio em cura para o mal. tenho sífilis no idioma, da incurável! Mas é provável que encetando agora o estudo da Grande Língua, aos oitenta anos menos leigo serei de suas louçanias, que hoje. E como ajustado ao intento me pareceu Camilo, a ele me arremeti. Fiz vir um fardel de 50 volumes, que trago (tragar, engulir) em parcelas de meio por dia. E espero encomendas feitas a várias livrarias lusitanas, que me abasteçam de Francisco Manoel, um sujeito que deve valer muitos Stendhais e Taines. E de Almeida Garret, o visconde resgatador de todas as alimárias viscondadas, baronadas, acondadas, marquesadas com que o moderno Portugal atravancou o mundo. E de mais Camilo, Herculano, e Tolentino, e Garção...Que coorte.
E enquanto de todos me não tornar amigo íntimo em diurno e noturno conversar protesto não admitir amizades bárbaras (no sentido romano, isto é estrangeiras). Não me mandes, pois, o teatro francês, que te delicia; muito tempo hei perdido com esses deliciosos pechisbeques – cocadas que atendem ao paladar mas empecem a alma. Tenho deles em Taubaté um metro de estante, e acodem-me os nomes de Robert de Flers e Caillavet, o seu irmão siamês; e Tristan Bernard o Barbinegro, espirituosíssimo e safadíssimo; e Maurice Donnay, todo sutilezas de bordel e salão; e Alfred Capus, consolador do que tudo esperam da Sorte: e Rothschild, e Paul Hervieu, e Lavendan, e Henry Cain, e o Octave Mirbeau do Nogueira, e Henri Bataille, e o traumatizante Bernstein; e Porto-Riche, e Tarride, e o Edmond Rostand do Ricardo...Acho que em França há mais teatrólogos do que espectadores. (1:285-287)
4. Estou procurando casa em S. Paulo para voltar. Sinto-me aqui como bicho fora da goiaba. A goiaba é a língua. Pátria é língua, pura e simplesmente. Fora da língua nativa ficamos como o bicho fora da goiaba. A solidão filológica é pior que a solidão física. (4:220-221)
5. Há alguns meses tive ocasião de ouvir em S. Paulo uma conferência de Lewis Hanke, o inteligente diretor da seção hispânica da Biblioteca do Congresso, de Washington, em missão de “good will” pela América do Sul. Hanke falou em português – mas num português de muita novidade para os ouvintes, uma espécie de “pidgin portuguese”, não só extremamente pitoresco e deleitoso como perfeitamente compreensível. Terminada a conferência, fui cumprimentá-lo e disse-lhe: “Meus parabéns, Mr. Hanke.O senhor, sem o querer, acaba de realizar uma grande coisa: plantou a semente duma língua nova no mundo – o “Português Básico”.
Disse aquilo de brincadeira, mas em seguida, refletindo no caso, convenci-me de que assim como C. H. Ogden criou o maravilhoso instrumento de expressão que é o Inglês Básico, era possível fazer o mesmo para todas as línguas vivas – o que viria simplificar enormemente o estudo das línguas para propósitos práticos.
Nada mais difícil do que aprender uma língua estrangeira, porque o manejo duma língua envolve processos mentais só adquiríveis quando a mamamos no seio materno. O falar em nossa língua nativa torna-se uma função orgânica como outra qualquer – como o respirar, o ouvir, o ver. mas se é assim difícil aprender uma língua estrangeira, nada mais fácil do que assimilar o que nela há de básico, jogando apenas com o vocabulário essencial. Ogden reduziu o imenso vocabulário da língua inglesa a 800 palavras apenas, as essenciais – e por que não aplicarmos o mesmo processo às outras línguas?
O inglês se presta singularmente para o processo básico de Ogden porque é uma língua sem flexões, mas a supressão das flexões nas línguas que as têm, como o português, não faz mal à compreensão – como sem o querer Hanke demonstrou em sua conferência. Se a língua mais espalhada no mundo, como é a inglesa dispensa flexões, isso demonstra que a flexão é uma inutilidade, um atraso, um retardamento de evolução. E no português da roça no Brasil as flexões vão desaparecendo. Um caboclo da roça fala à moda inglesa. Diz, por exemplo: Eu vou; você vai; ele vai; nós vai; vocês vai; eles vai; em vez de dizer como no português gramatical, ou “não evoluído”: Eu vou; tu vais; ele vai; nós vamos; vós ides; eles vão. Temos aqui seis flexões que o caboclo da roça, esse precursor de Hanke, reduz a duas apenas, sem que nenhum modo se faça menos compreendido que um membro da Academia Brasileira de Letras.
A idéia do Basic English é dar ao mundo uma “língua franca”, isto é, aberta a todos – e nada mais possível, sobretudo se a atual guerra tiver desfecho favorável aos povos de língua inglesa. Mas a “basificação” das outras línguas também seria de enormes vantagens para a intercomunicação dos povos, pelo menos enquanto o Inglês Básico não se universaliza – o que ainda não passa de aspiração.
Se tivéssemos esse Português Básico, esta coleção de contos tirados da literatura brasileira certamente alcançaria muito maior número de interessados, e a todos os estudiosos dum idioma sul-americano pouparia trabalho e tempo. Porque o que nesses contos há de mais difícil para o leitor norte-americano são as pequenas nuanças regionais que a “basificação” destruiria sem prejuízo do essencial.
Um exemplo. Certo autor brasileiro começa um dos seus contos assim: “O pegureiro tangia o armento para o aprisco”.Como traduzir isso para o inglês? A tarefa não é fácil, porque exige, primeiramente, que seja vertido para o português atual que se fala no Brasil. Essa tradução em português atual daria isto: “O negro toca o gado para o curral” - porque já não temos “pegureiro” ou pastores, e sim um “negro” ou um vaqueiro que lida com o gado. E não temos “armentos” ou rebanhos, e sim “gado”, em geral. E o verbo “tanger” está restrito ao uso poético (tanger a lira, por exemplo). Em vez de tanger temos o verbo “tocar” (tocar sino, tocar música, tocar galinhas, tocar gado). E não temos mais “aprisco”, palavra também confinada ao uso poético. Temos o “curral”. De modo que a frase do nosso contista, na forma arcaica em que a escreveu, é praticamente intraduzível para o inglês, embora esteja descrevendo a coisa ou a cena mais traduzível deste mundo em todas as línguas existentes, inclusive o Inglês Básico.
O Basic English não passa da “directness” aplicada ao idioma inglês. O Português Básico seria a mesma coisa aplicada ao idioma português. E o tradutor inteligente, o que faz quando passa a literatura duma língua para outra é aproximar-se da “directness”. (5:23-26)
6. Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelo homem do mato - o caboclo, o caipira, o jeca, em suma. Como o jeca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais – e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jeca que Nho Bento nos encantou.
Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jeca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impede que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora estrada da evolução, é a escrita.
Mas como o jeca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nho Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jeca – e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jeca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... troca do “b” pelo “v”: “cumbersa”, “berso”, “cuverta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abeia”, “paia”, “maia” (malha)... O “ou” reduzindo a “ô”: “fumo”, “boto”, “junto”... Quantos aspectos!
Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jeca” como os franceses fizeram a gramática da “língua de oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Campanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jeca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: - podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jecas que há no território brasileiro.
A evolução da língua é curiosíssima e inteligentíssima, como todas as evoluções não atrapalhadas pelos breques dos artificialismos. A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está pra cá, e a escrita está pra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jeca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel – e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Há um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la de novo com a variação do verbo? Redundância, bobagem – perda de esforço. O jeca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem. O inglês diz: I have, You have, He hás, We have, You have, They have – e tanto o jeca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.
Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jeca, a ponto dum meu amigo, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Álvaro Guerra supunha. O jeca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês; diz por exemplo, “as casa”, “os home”, “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casa’, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” ( a casas), “the men” ( o homem ), “the women”( a mulheres ) – a mesma coisa que o jeca, ‘so que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jeca e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.
Tudo isto eu diria no prefácio ao livro de Nho Bento, se fosse escreve-lo. E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transforma-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transforma-la em “língua brasileira”; e tem o iletrado jeca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do rádio – o abençoado jeca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.
Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jeca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condena-las, pois condena-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; ou as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.
O latim bárbaro dizia, ou devia dizer, OCULAVIT AD ME.
Por uma série de corrupção que os filólogos de bom faro rastreiam, esse latim deu em Portugal a variação: OLHOU BEM PARA MIM. Houve melhoria de expressão; o “bem” está acentuando o modo de olhar.
O jeca ainda melhorou mais a frase e diz, como vemos no “Doce de Cidra”, um dos poemas de Nho Bento: OLHO BEM N’EU. O pobre jeca, sempre de estômago vazio e na embira, forçado a levar ao máximo de suas conseqüências a lei do menor esforço, suprimiu o inútil “u” do “olhou” e dispensou a variação pronominal “mim”, já que só com o pronome “eu” ele (e todo mundo) se arranja perfeitamente bem. (5:29-33)
7. A grande árvore da língua latina, que circunstâncias felizes fizeram viçar ao bafejo das brisas mediterrâneas, depois de completo um glorioso ciclo biológico morreu como morrem árvores – escasqueada, broqueada, parasitada, lenhada e afinal derrubada pelo bárbaro a manejar inconscientemente o machado da evolução.
Mas como árvore que era, morreu perpetuando a espécie nas filhas – esses formosos alporques que constituem hoje a família neolatina.
Bela irmandade! Quatro irmãs opulentas de tesouros literários – a lusa, a italiana, a francesa, a espanhola e a mais humildezinha, aquela entalada no “frege” dos Bálcãs – a rumena. E todas bem enseivadas, ricas, capazes de a seu turno reflorirem em prole magnífica de que sairão as netas da língua latina.
Cá entre nós já vemos grulhar a netinha número um, subvariedade da variedade portuguesa.
É a língua da terra, a língua geral destes vinte e cinco milhões de criaturas que somos. Coexiste em nosso território ao lado da língua-mãe e oficial, a portuguesa. Humilde criança da roça, gerada no seio da arraia-miúda dos campos e do povinho humilde e sofredor das cidades, negam-lhe pão e água os magnatas cortesanescos que fazem roda de peru em torno da rainha metropolitana.
Não obstante a menina cresce, conchegada com amor no seio do povo. Já é ela, a neta, e não mais a avó erudita, quem satisfaz às necessidades de intercâmbio mental dos roceiros, das patuleias urbanas e dos literatos que se dirigem às massas e não às elites. Nela é que o sertanejo ama, o gaúcho bravateia, o retirante chora, o seringueiro lamenta-se, o vaqueiro descanta, o cafajeste pernóstica. Tem já poetas embelecados pelas graças nascentes, e adoradores prosistas, doidos pelo seu linguajar langue, ingênuo, expressivo e vivamente impregnado da cor, do som, do cheiro, do ité, do agreste da terra brasílica.
Crescerá essa menina, far-se-á moça e mulher e sentar-se-á um dia no trono ora ocupado por sua empertigada e conspícua mãe. Imperará no Brasil inteiro – não como hoje, às ocultas e medrosamente, mas às claras, de justiça e de direito; e não na língua falada apenas, mas na falada, na escrita e na erudita. E a velha língua-mãe, que cá vige mas não viça, abdicará de vez em favor da filha espúria que hoje renega, e desconhece, e insulta como corruptora da pureza importada.
Cem anos levará isto? Que importa? Cem, duzentos, quinhentos – isso é nada na vida de um povo. E sinhazinha Brasilina não tem pressa. Menina descançadora, meio “mãe da vida”, ela não olha para o tempo e, despreocupada, folga e ri de pé no chão à beira dos corgos, pelas vendolas de estrada, nos casebres de sopapo, nos sambas, nas catiras, nas farras, na peraltagem infantil das ruas. Convive apenas com o povinho miúdo. Foge acanhada dos grandes, em cujo olhar severo só vê censuras e desprezo.
Tem namorados. Cornélio Pires é um. Valdomiro Silveira é outro. Com eles abre o coração e entremostra o ouro que lhe vai dentro.
Gosta ainda de sapatear quando Catulo sapeca o pinho choroso. Mas apesar destas fugidias entradas no grande palco, a artista Brasilina permanece roceira, e só nos campos reina qual ninfa selvagem – pés nus, vento nos cabelos, sol nas faces.
Era assim. Mas hoje Brasilina está séria, de testa franzida. Veio perturbar-lhe o sossego um homem seu desconhecido, cuja atitude a surpreende.
Amadeu Amaral, em vez de lhe sussurrar palavras de amor ou desferir descantes de viola, estuda-a. E Brasilina, tomada a sério pela primeira vez, escolhida de improviso por um escritor de alto renome que a quer retratar com fidelidade, entrepara, acanhadinha, de pé atrás e dedo na boca. E Amadeu assim a esboça, dos pés à cabeça, em traços firmes, num carvão que marcará entre nós o início duma fase nova de estudos lingüísticos – e esta fecundíssima, verão.
Até aqui a nossa filologia se limitava a bizantinar sobre verrugas da língua-mãe, mexericando com clássicos, fossando como leitoa pulverulentos alfarrábios reinóis. Surgia a polêmica estéril. Cândido de Figueiredo intervinha lá de Lisboa com a palmatória; os gramáticos menores – que os há como carrapatos pelo interior – assanhavam-se; e o ponto debatido em vez de esclarecer-se ficava como novelo que gato brincou.
O estudo único em matéria filológica que nos cumpria fazer não o fazíamos. Era essa da língua nova, a língua que ao país inteiro interessa: o estudo, o retrato fiel da Brasilina arisca que atende às necessidades de expressão de 25 milhões de jecas que somos. Porque, estranha contradição! Falamos à moda de Brasilina mas escrevemos à moda de dona Manuela, por falta de coragem, ou medo ao bolo da palmatória portuguesa.
Esse estudo tão reclamado Amadeu Amaral superiormente o realizou. Seu “Dialeto Caipira” vale por chave de ouro a abrir as portas de um mundo inédito. É o começo da gramaticação de uma língua nova, neta da língua de Horácio.
Ele traz pela mão, honestamente, a caipirinha dialetal paulista e a apresenta ao país.
- Está aqui o pingo d’água arisco que vai ser o diamante de amanhã. Exponho-a aos vossos olhos, nuazinha em pêlo, envergonhada e humilde como a apanhei na roça. Apanhei-a como o O .F. apanha borboletas: sem lhes tocar nas asas para que nenhuma falripa do irisado se perca. Está pura e intacta como se surgisse de um banho matinal no ribeirão.
Estudei-a sob todos os aspectos.
O fonético, enunciando as alterações normais dos fonemas e as modificações isoladas. O lexicológico, dizendo dos elementos lusos, arcaicos na forma ou no sentido, com que se enfeita; dos elementos indígenas que assimilou, dos africanos e das elaborações pessoais – deliciosa criação de fino sabor expressivo. O morfológico, dando a formação das palavras, as maluqueiras teratológicas, as flexões de grau e verbo e o modo todo seu de resolver a questão dos pronomes. O sintático, reunindo fatos relativos ao sujeito, ao pronome como objetivo direto, às conjugações perifrásticas, às orações relativas, às modalidades da negativa e à maneira de circunstanciar o tempo, o espaço e a causa.
Em seguida organizei um vocabulário onde desfio o rosário inteiro de palavras que ela criou, ressuscitou, simbolizou e modificou – ou corrompeu, como querem os moralistas vestidos na pele dos filólogos.
Aqui tendes a minha contribuição. Juro pela fidelidade do esboço – que assim foi que a vi, à língua nova, brincando menineira em terras de S. Paulo. Façam outros o mesmo. Retratem-na com este carinho, ao norte, ao sul, ao centro – honestamente, sem retoques.
Porque Brasilina é volúvel. Traja-se de gaúcha nos pampas, de vaqueira no centro, de seringueira na Amazônia e só a teremos estudada de modo integral, nas graças corporais e na psicologia, quando lhe fotografarmos todas as variantes. Só esses trabalho coletivo nos permitirá a posse do diamante bruto que por aí rola nas mãos calejadas do poviléu. Feito isto, é lapidá-lo na ourivesaria da rima e da prosa e teremos criado a língua nova que no futuro falarão cem ou duzentos milhões de homens.
É isto que nos diz o livrinho modesto de Amadeu Amaral, o Fernão Lopes da gramaticologia brasileira.
Seu “Dialeto Caipira” assanhará as tartarugas filológico-perobas, como obra ímpia que dá honras de cidade à “corrupção”.
Esses carunchos sob forma humana pertencem à fauna cadavérica. Só se sentem à vontade quando a questão é de necropsia. Em se tratando de arrastar a asa a uma rapariga viva, de carne morena e quente, persignam-se como fradalhões hipócritas e gritam fugindo às arrecuas:
- Pecado! Pecado!... (8:77-82)
8. Assim como o português saiu do latim pela corrupção popular desta língua, o brasileiro está saindo do português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua mãe. A cândida ingenuidade dos gramáticos chama “corromper” ao que os biologistas chamam “evoluir”.
Aceitemos o labeu e corrompamos de cabeça erguida o idioma luso, na certeza de estarmos a elaborar uma obra magnífica. Novo ambiente, nova gente, novas coisas, novas necessidades de expressão: nova língua.
É risível o esforço do carrança, curto de idéias e incompreensivo, que deblatera contra esse fenômeno natural e tenta paralisar a nossa elaboração lingüística em nome dum respeito supersticioso pelos velhos tabus portugueses... que corromperam o latim.
A nova língua, filha da lusa, nasceu no dia em que Cabral pisou no Brasil. Não há documentos, mas é provável que o primeiro brasileirismo surgisse exatamente no dia 22 de abril de 1500. E desde então não se passou um dia talvez em que a língua do reino não fosse na colônia infiltrada de vocábulos novos, de formação local, ou modificada na significação dos antigos.
Hoje, após 400 anos de vida, a diferenciação está caracterizada de modo tão acentuado, que um camponês do Minho não compreende nem é compreendido por um jeca de S. Paulo ou um gaúcho do sul.
Quer isto dizer que no povo – e a língua é um produto puramente popular – a cisão já está completa.
Nas classes cultas a diferença é menor, se bem que acentuadíssima, sobretudo na pronúncia e no emprego de palavras novas. Até arcaísmos lusos ressuscitaram cá e são correntes de norte a sul. Um deles foi tomado como brasileirismo: o emprego do pronome pessoal “ele” como complemento direto. Ora, isso é coisa velha, forma anterior ao descobrimento do Brasil. Dizem os escabichadores de antigualhas que é de uso corrente nos cancioneiros, na “Demanda do Graal”, no “Amadis”, etc. E citam em Fernão Lopes muito “viu ela”, “nomeamos ele”, etc. – de Fernão Lopes! Um dos grandes pais da língua lusa.
Não é brasileirismo, pois, essa forma velha. É um lusitanismo ressurreto na colônia.
Hoje, do Amazonas ao Borges, o “ele” e o “ela” desbancaram o “o” e o “a” na linguagem falada, apesar da resistência dos letrados e a resistência da língua escrita. Não nos consta que algum escritor de mérito usasse na prosa ou no verso esse pseudo-brasileirismo, embora falando familiarmente incida bela. Mas dia virá em que se rompa essa barreira, porque as correntes populares são irresistíveis, os gramáticos não são donos da língua, e esta não é uma criação lógica.
Verão, pois, nossos netos um futuro Rui, de tanta autoridade como o atual, abrir uma oração política da mais alta importância com esta forma que inda choca o beletrismo de hoje: O Brasil, senhores, amei ele o mais que pude, servi ele o que me deram as forças, etc.
E verão um futuro Bilac lançar um “ouvir estrelas” assim:

Ontem divisei ela
na janela...

Será isso simplesmente a reabilitação da forma lusa dos pré-clássicos, já vitoriosa na língua falada de hoje.
Riem-me? Não é matéria de riso. É a anotação singela da marcha dum fenômeno.
Ainda nos detém hoje o medo à férula dos gramáticos d’além mar e de seus prepostos no Brasil. Não obstante, a corrente do “ele” cresce dia a dia e acabará expungindo a do “o”.
Além dessas incoercíveis modificações sintáticas, temos outra feição evolutiva operada em larga escala: a adoção de palavras novas por injunções das necessidades ambientes.
A língua é um meio de expressão. Modifica-se sempre no sentido de aumentar o poder da expressão. A variedade de coisas novas que tivemos necessidades de expressar, num mundo novo como o Brasil, forçou e força no povo um surto copiosíssimo de vocábulos. Eles brotam por aí como cogumelos durante a chuva. Lutam entre si. Os fracos, os inúteis, caem, como frutos temporões, bichados antes de maduros. Os bons, os expressivos e necessários, vencem e ficam na língua. A princípio, na língua falada. Depois penetram na chamada literatura regional. Passam dela aos glossários de brasileirismos e entram, por fim, consagrados, no panteon dos dicionários.
A extensão do nosso território favoreceu grandemente o neologismo. Houve além disso a contribuição copiosa do índio e do negro. Há agora a do italiano em São Paulo e a dos alemães no sul. A maioria destas palavras são de absoluta necessidade. Como falar da vida amazônica sem recurso às mil palavras de criação local? Como pintar o Rio Grande sem recorrer ao vocabulário gaúcho? E falar do Rio sem tomar as pitorescas invenções glóticas do cafajeste carioca? Há no português termos que substituam o “encrenca” e seus derivados, de criação catarinense? É a “uruca”, a “caguira”, o “engrossamento”, como enunciar a coisa com palavras do Morais?
Sem coragem ainda de lançarmos o nosso dicionário, vemo-lo já em trabalhos preparatórios, a delinear-se nas obras de B. Rohan, Taunay, Romanguera e tantos outros coletores de regionalismos. Virá a seu tempo. Convencer-nos-emos um dia de que, se saímos de Portugal, nada mais temos com o ex-reino, hoje tumultuosa república. Virá, talvez, muito breve. O dicionário brasileiro já nada em elaboração em várias tentativas que nos chegaram ao conhecimento. E a prova da viabilidade da idéia está no interesse dos editores no assunto.
Em matéria dicionarística vivemos inda hoje na absoluta dependência de Portugal. Temos o que Portugal nos manda, Aulete, Vieira, Candido Figueiredo. Este nos deu a honra insigne de incluir na sua obra uma boa cópia de brasileirismos, para contentar a colônia e fazer bom negócio nela. Os mais são dicionários rigorosamente portugueses.
Quem lê Alberto Rangel, por exemplo, o mais rico bateador de termos regionais da nossa literatura, em muitos pontos não tem meios de lhe compreender o pensamento. Esbarra a cada passo com uma palavra regional coletada por ele, e se recorre aos dicionários fica na mesma.
No próprio Rui Barbosa quantas palavras não existem que o carrança português não nos deu a honra de “endicionariar”?
Isso, porém, não é culpa deles, que fazem léxicos portugueses, para seu uso lá. A culpa é nossa, pois já era tempo de termos publicado o nosso dicionário.
Pensando bem a matéria, temos de empreender a obra nas seguintes bases: eliminar do novo dicionário todas as palavras portuguesas desusadas no Brasil, já arcaísmos, já lusitanismos de moderna criação popular, absolutamente inúteis para as nossas necessidades expressivas. Eliminar todas as palavras coloniais portuguesas que atravancam os dicionários atuais, fazendo-os obesos. Dar, principalmente, a significação que os vocábulos portugueses têm aqui no Brasil, e subsidiariamente a que têm no ex-reino. Introduzir todas as nossas criações lingüísticas, as coletadas pelos glossaristas e as que andam soltas. Fazer, em suma, o dicionário prático de que precisa quem vive nesta terra, que já foi colônia e está custando a se convencer de que não mais o é.
Será, pois, uma obra da grande utilidade e alto alcance, porque consolidará definitivamente cisma operado na velha língua lusa.
Acontece hoje o seguinte: um menino abre o Aulete e procura a palavra “Hein”; e vê lá a pronúncia “ a n- e”. Ri-se, está claro, e chama “ane” ao pobre Aulete.
Outro vai ao C. de Figueiredo em busca da palavra “chopim”, que ele ouve todos os dias aplicada a um passarinho preto que parasita o tico-tico, e por analogia aos maridos de professoras. Não encontra. Mas encontra, por exemplo, “caloqueio”, pássaro africano. Temos de abrir a gaiola ao caloqueiro e pôr em seu lugar o chopim. Está aquele estafermo a empatar um poleiro precioso.
Dirão: seria melhor conservar todas as palavras portuguesas e incluir todas as nossas. Isso seria fazer uma almanjarra ineditável, ou caríssima, ao passo que o peneiramento acima proposto aliviaria a obra das múmias inúteis que se esmiram ali, dos exotismos d’Índia e Angola com que nada temos a ver, daria livro maneiro, cômodo, num volume só, e por preço ao alcance do povo.
Acoimam o nosso pobre povo de ignorante, mas não lhe dão sequer um dicionário da língua, bom e barato! Os sucedâneos portugueses que lhe indicam, sobre lhe não satisfazerem as exigências, custam os olhos da cara, oitenta, cem mil réis.
Além desta novidade o novo dicionário tem que dar o máximo rigor às definições, aproximando-se dos grandes dicionários estrangeiros, Webster à frente. Fugirá, assim às sandices que Aulete e Figueiredo incriminaram aos anteriores e em que incidiram, se bem que em menor escala.
Abro ao acaso este último e leio: “Desarvorado: - que fugiu desordenadamente”. Logo: navio desarvorado – navio que foge desordenadamente.
E são os papões da língua. Dão-nos em cima de palmatória e ensinam-nos o que se não deve dizer, esquecidos de que não se deve dizer, sobretudo, asneiras.
Muita coisa se projeta para a comemoração da independência. Se for levado a termo o Dicionário Brasileiro, nenhuma comemoração será mais significativa. Valerá por um esplendido monumento e por um grande passo na “realização” duma independência “proclamada” vai fazer cem anos. (8:101-107)
9. Esta minha saída serviu para me revelar uma coisa: o que é a pátria. Pátria é a língua, nada mais. O sair fora da língua nos deixa aleijados – “despatriados” – expatriados. Viver é sobretudo conversar, e como conversar em pátria estranha, isto é, em língua estranha? A grande coisa que há no Brasil para os brasileiros não é o Duque de Caxias, nem o general Dutra – é a língua.
Afastado da língua, um sujeito como eu, que nunca fez outra coisa senão espojar-se na língua, sente-se como mosca à qual os meninos arrancam as asas e as perninhas. Fica vivo, mas... toco.
Volto para aí e não farei nada até morrer senão conversar. Aqui não converso – falo apenas, num misto de duas línguas que todos entendem por um terço, e a mim me dá a desagradável sensação de estar totalmente imbecilizado. Basta a imbecilidade natural com que nasci; dispenso a suplementar. (12:74)
10. Estava eu a ouvir a preleção de Mr. Slang sobre Joseph Henry, o inventor do eletromagneto, quando duas sibilas pararam bem à minha frente – e toda a minha atenção foi pouca para lhes pescar frases do diálogo.
- I’m missing Bob...
- Ain’t it sweet?
Por que foi ela usar em presença de Mr. Slang de semelhante barbarismo? Meu inglês, até ali despercebido da presença das misses, deu por elas afinal ao toque daquele ain’t. Fez a cara de pontada no coração que cada inglês não degenerado faz quando zurzido por uma dessas liberdades que os americanos tomam com a língua de Macaulay.
- Ain’t it sweet! Repetiu com expressão nevrálgica. Estou com o dia estragado, meu caro. Vamo-nos à cafetíria tomar uma dose de Bromo Saltzer.
Custou arrancar-me dali. Tanta coisa a ver e as numerosas inscrições a ler, de Carlyle e Cícero e Bacon e Pope e Virgílio. E o diálogo das sibilas a ouvir... Era caturrice de Mr. Slang aquela ojeriza, e tanto me revoltou que mentalmente assumi o compromisso de nunca mais, enquanto estivesse na América, dizer I am not e sim Ain’t, como as sibilas. Se são sibilas e donas da terra, e se em seus lábios soa tão bem o Ain’t, viva o Ain’t! Ficasse a língua entregue aos caturras e jamais evoluiria.
Fui para a cafetíria já sem vontade de tomar coisa nenhuma. Vontade tinha apenas duma coisa – de que me viesse oportunidade para, com a maior naturalidade do mundo, aplicar durante a conversa pelo menos uma dúzia de Ain’t na carne viva do meu inglês, como sinapismos.
- Ainda não pude suportar esta liberdade dos americanos para com a língua inglesa, disse-me ele de caminho. Corrompem-na barbaramente.
- Corromper, Mr. Slang, não será um sinônimo colérico de evoluir?
Talvez, mas não é coisa que meus nervos suportem. Já cacei tigres na Índia e no Uganda. Não mexem com os meus nervos. O Ain’t mexe.
- Mas é esse o meio duma língua desenvolver-se! Não fosse a audácia inconsciente dos ignorantes, e estaríamos ainda hoje, aqui no Novo Mundo, a falar o inglês cicerônico do Dr. Johnson.
- E que lindo seria!...
- Lindo, não nego, mas insuficiente para as necessidades da expressão moderna. O caso daquele inglês que ouviu a pergunta: “Can a canner can a can that can’t be canned by a canner?” é típico. A pergunta seria entendida por todos os americanos da América, mas o pobre Shakespeare ver-se-ia tonto para decifrar o enigma. As coisas novas que enchem hoje a América e com as quais nunca sonhou o Dr. Johnson, forçam a variação da língua.
- Sei disso, mas desejaria que essas variações respeitassem normas estéticas.
- Culpa têm os ingleses que fizeram da sua língua uma língua livre cambista. A entrada de palavras na língua inglesa é franca. As palavras chegam de toda parte e estabelecem domicílio no inglês sem que a polícia glótica as marque com qualquer sinal indicativo de que são de fora. Gosto disso, porque sou duma terra terrivelmente protecionista em matéria de língua. Palavra exótica que entra no Brasil tem de ficar anos e anos marcada com grifo, ou entalada entre aspas, antes de ser naturalizada. Até hoje, apesar de residir no país há longuíssimos anos, a palavra elite, por exemplo, ainda aparece marcada – elite ou “elite”. Já vai aparecendo despida dessa pecha aqui e ali; mas para que a elimine de todo, quantos anos de uso diário ela ainda necessita!...
- Talvez o mal de que nós ingleses nos ressentimos venha da rapidez com que a evolução da língua se opera aqui. Inda não nos pudemos conformar com a mania da América de fazer num ano o que sempre pediu vinte. Isso não dá tempo às células cerebrais de se adaptarem – e esquecerem. O mundo ri-se de termos na Inglaterra a palavra “avoirdupois”, que não passa duma frase francesa – “avoir du pois”, ter peso, pronunciada à inglesa. Também acho horrível. Mas pior é o verbo americano To vamose...
- To vamose? Inquiri, de rugas na testa. Era novidade para mim tal verbo.
- Sim, prosseguiu Mr. Slang. Esse verbo é corriqueiro nas zonas fronteiriças com o México e foi formado duma pessoa do verbo Ir – vamos. Os americanos das fronteiras, que não conheciam o espanhol, observaram que cada vez que num magote de mexicanos entrados em território americano soava o grito de – Vamos! Imediatamente todos davam rédeas aos cavalos e lá se iam embora para o lado mexicano. Em vista disso associaram ao som “vamos” a idéia de “por-se dali pata fora”, e quando querem “tocar” alguém, usam do verbo “vamos” já americanizado nesse estranho verbo To vamose, cuja significação não é a de um convite para seguir junto, mas duma intimidação para por-se ao fresco. To vamose, pois, quer dizer sair, puxar dali para fora – ou justamente o contrário do “vamos” espanhol...
- Realmente, é curioso, murmurei, desatento, com o olho na flecha que indicava a direção da cafetíria.. a fome é um fato.
Sobre esta extrema receptividade da língua inglesa para com palavras de todas as outras línguas Mr. Slang ainda falou por algum tempo, citando “Valorization”, palavra que figura no dicionário Webster com a definição de “act or process of attempting to give na arbitrary market value or price to a commodity by governamental interference, as by maintaining a purchasing fund, making loans to producers to enable them to hold their products, etc.; - used chiefly of such action by Brazil”.
- Definição perfeita, como vê, concluiu o meu sábio e sempre alerta cicerone. No entanto, duvido que haja em qualquer dicionário português ou brasileiro a consignação dessa palavra com o sentido criado no Brasil. (15:57-60)
11. – No começo era Thor, depois ficou Thur, por isso no começo dizia-se Thorsday. As palavras de todas as língua vão mudando sempre. Tomemos as palavras “nariz” e “Pedro”. No tempo dos romanos, nariz era nasus e Pedro era Petrus. Mudaram ou foram mudando lentamente. No futuro é possível que em vez de nariz se diga naiz. Um dia havemos de conversar sobre esta contínua mudança das palavras, que é assunto muito interessante. (22:134)
12. – E assim se foi formando, e se vai formando, a língua. Uma língua não pára nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto, e acham que é erro dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos.
- Que vem a ser clássicos? Perguntou a menina.
- Os entendidos chamaram clássicos aos escritores antigos, como o Padre Antonio Vieira, Frei Luís de Sousa, o Padre Manuel Bernardes e outros. Para os Carrancas, quem não escreve como eles está errado.
Mas isso é curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores no seu tempo. Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar ou a adotar a língua de hoje, para serem entendidos. A língua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova. Inúmeras palavras que na cidade velha querem dizer uma coisa aqui dizem outra. Borracho, por exemplo, quer dizer bêbado; lá quer dizer filhote de pombo – vejam que diferença! Arrear, aqui é selar um animal; lá, é enfeitar, adornar.
- Então lá há moças bem arreadas?- perguntou Emília.
- Sim – respondeu a velha. – Uma dama bem arreada não espanta a ninguém lá do outro lado. Aqui, Moço significa jovem; lá, significa serviçal, criado.
Também no modo de pronunciar as palavras existem muitas variações. Aqui, todos dizem Peito; lá, todos dizem Paito, embora escrevam a palavra da mesma maneira. Aqui se diz Tenho e lá se diz Tanho. Aqui se diz Verão; lá se diz V’rão.
- Também eles dize m por lá Vatata, Vacalhau, Baça, Vesouro – lembrou Pedrinho.
- Sim, o povo de lá troca muito o V pelo B e vice-versa.
- Nesse caso, aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha concluiu Narizinho.
- Por quê? Ambas têm o direito de falar como quiserem, e portanto ambas estão certas. O que sucede é que uma língua, sempre que muda de terra, começa a variar muito mais depressa do que se não tivesse mudado. Os costumes são outros, a natureza é outra – as necessidades de expressão tornam-se outras. Tudo junto força a língua que emigra a adaptar-se à sua nova pátria.
A língua desta cidade está ficando um dialeto da língua velha. Com o correr dos séculos é bem capaz de ficar tão diferente da língua velha como esta ficou diferente do latim. Vocês vão ver. (24:105-106)
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Ver: ESCREVER 5 ( 2:51-52 )
ESCRITORES: MACHADO DE ASSIS 3 ( 7:333-338 )
FORMA 1 ( 1:222-223 )
GRAMÁTICA 1 ( 2:39 )
LITERATURA BRASILEIRA 1 (10:3-9 )
ORTOGRAFIA 1 ( 1:329 )
PONTUAÇÃO (1:144-145)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)
VOCÁBULOS 1 ( 1:239-241 )

LITERATURA
1. Porque literatura é uma atitude – é nossa atitude diante desse monstro chamado Público, para o qual o respeito humano nos manda mentir com elegância, arte, pronomes no lugar e sem um só verbo que discorde do sujeito. (1:17)
2. Literatura é cachaça. Vicia. A gente começa com um cálice e acaba pau d’água de cadeia. (1:62)
3. Em literatura a condição básica é haver beleza, e que beleza ali existe? Numa negra sórdida, na vida imunda que leva, no “amor” que inspira, nas “doenças vergonhosas” que espalha, nos sargentos que enrabicha – onde qualquer resquício da beleza salvadora? Em nome da Arte veto esse conto e lamento que F. seja suscetível do estado de ânimo necessário à produção de tal coisa. (1:260)
4. Foi-se o tempo da literatura. Não há coragem, nem miolo, para esse delicioso jogo de idéias com mais ou menos estilo. (12:46)
5. – Que história essa de gato “fazendo sonetos à Lua” ? – interpelou a menina. – A senhora está ficando muito “literária”, vovó...
Dona Benta riu-se.
- Sim, minha filha. Apesar do meu desamor pela “literatura”, às vezes faço alguma. Isso aí é uma “imagem literária”. A Lua é um astro poético, e quando um gatinho anda miando pelo telhado, um poeta pode dizer que ele está fazendo sonetos à Lua. É uma bobagenzinha poética.
- “Desamor pela literatura”, vovó? – estranhou Pedrinho. – Então a senhora desama a literatura?
Dona Benta suspirou.
- Meu filho, há duas espécies de literatura, uma entre aspas e outra sem aspas. Eu gosto desta e detesto aquela. A literatura sem aspas é a dos grandes livros; e a com aspas é a dos livros que não valem nada. Se eu digo: “Estava uma linda manhã de céu azul”, estou fazendo literatura sem aspas, da boa. Mas se eu digo: Estava uma gloriosa manhã de céu americanamente azul”, eu faço “literatura” da aspada – da que merece pau.
- Compreendo, vovó – disse a menina -, e sei dum exemplo ainda melhor. No dia dos anos da Candoca o jornal da vila trouxe uma notícia assim: “Colhe hoje mais uma violeta no jardim da sua preciosa existência a gentil Senhorita Candoca de Moura, ebúrneo ornamento da sociedade itaoquense”. Isto me parece literatura com dez aspas.
- E é, minha filha. É da que pede pau... (28:190-191)
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Ver: CARTA 1 ( 1:17-18 )
ESCRITORES: MARIA JOSÉ DUPRÉ (2:338-340)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)


LITERATURA BRASILEIRA
1. A identidade de formação dos povos americanos dá à sua história literária um singular aspecto de família. Lendo esse monumento de erudição e crítica que é a História de la Literatura Argentina, de Ricardo Rojas, e a Pequena História da Literatura, do finíssimo Ronald de Carvalho, temos a impressão de ler capítulos de uma obra ainda não escrita: a História Geral da Literatura Sul-Americana.
Ambos estudam fenômenos de evidente paralelismo, produzidos na Argentina e no Brasil.
Isso é natural. Dada a semelhança de formação dos dois países e dado o paralelismo evolutivo das civilizações, não podiam suas respectivas literaturas submeter-se a leis diversas.
E até a pergunta formulada na Argentina – temos literatura? – à qual o grande Mitre respondeu pela negativa, se bem que admitindo a existência de materiais que a formariam no futuro, repetiu-se várias vezes no Brasil.
Cá e lá, durante os primeiros séculos, não passamos de mero transplante ibérico em terras americanas; e se houve rápida diferenciação na vida social, muito lentamente se produziu a mesma na vida literária.
Embora extremamente nacionalistas e fundamente brasileiros de coração, nossos primeiros poetas conservaram-se portugueses de espírito. A língua de seus versos, por exemplo, é rigorosamente portuguesa, sem nada da língua nova que se elaborava no seio do povo; as imagens empregadas, o estilo, o torneio da frase, tudo era português, embora fosse empregado para hostilizar as coisas lusitanas.
A reação começa com os indianistas românticos, fase que marca as primeiras manifestações de uma inevitável disparidade: povos diferentes, língua diferente, literatura diferente.
A boa acolhida que o público dispensou às obras dos indianistas indicou bem claramente a senda a seguir:
- Se quereis ser lidos, dai-nos coisas novas de bom cunho nacional.
Até aqui, pois, houve timidez por parte dos precursores. Libertaram-se do classicismo de origem lusitana dominante até então; assinalaram caminhos novos; lançaram as bases de um grande edifício. Mas não foram além. Não foram suficientemente fortes as reservas de personalidade desses escritores para leva-los a todas as conseqüências da grande idéia. E pode-se ainda afirmar que se se lançaram por tal caminho foi por espírito de imitação, ao ver florescer em França e nos Estados Unidos o indianismo de Chateaubriand e de Cooper. Foi erro dos indianistas substituir a escola estrangeira por outra escola estrangeira disfarçada de nacional. Seus índios não são índios daqui; são gregos cobreados, romanos de tez bronzeada, ficção universais, tipos arbitrários sem validade alguma.
Gonçalves Dias nos legou verdadeiras obras primas nesse gênero, como o maravilhoso poema Y-Juca Pirama, a única página verdadeiramente épica da poesia brasileira. Na novela, Alencar deu um passo adiante. Estilizou a seu modo o indianismo, com um encanto raro, de forma personalíssima e já fortemente brasileira. E tal foi a força de suas criações, que conseguiu popularizar-se e ser lido como nenhum outro escritor. Por esse motivo o consideramos como verdadeiro criador da “literatura brasileira”, coisa muito diferente de literatura portuguesa feita no Brasil.
Alencar introduziu a nossa paisagem na novela; aboliu as velhas imagens de importação – o rouxinol, o lobo, o leão, o lírio, e introduziu a “graúna”, a “onça”, o “manacá”. Alencar reabilitou, em suma, a cor local, embora obedecesse mais à sua imaginação do que à natureza. Foi um grande reformador que teria renovado mais, se, como político que era, não houvesse acreditado de boa política transigir em parte com as idéias dominantes. Viveu no coração do povo e nele vive até hoje através de suas criações magníficas de beleza ( embora falsa ): Peri, Ceci, Iracema.
Desse mesmo período sobrevivem dois nomes: Macedo e Bernardo Guimarães, novelistas ambos. Também eles se popularizaram e são lidos até hoje porque souberam aplicar a inovação de Alencar na novela da vida das cidades e das povoações rurais. Sem brilho do primeiro, imperfeitos de forma, insuficientes de estilo, frouxos e insípidos, sobretudo Macedo, nada deixaram que valha o Guarani ou Iracema. Medíocres como artistas, salvou-os seu nacionalismo e o terem escrito na língua da terra, para uso da gente da terra. Na poesia, Castro Alves passou como uma torrente eletrizante, conquistando no coração do povo um lugar de onde ninguém o tirou até hoje. Ao lado deles, um moço, Casimiro de Abreu, fez-se poeta da saudade e do primeiro amor. Tal sentimento pôs em seus versos, que, em um país de poetas como é o nosso, ainda é Casimiro o suave intérprete das inquietudes sentimentais da juventude.
Transcorreu depois uma fase literária fecunda em que se levantaram vários nomes. Taunay lança Inocência, uma verdadeira obra-prima, sem defeitos de forma nem de composição, e tão filha do ambiente brasileiro que foi a escolhida para que, traduzida em vários idiomas, fosse a plenipotenciária, no estrangeiro, de nossa literatura.
Machado de Assis chega a nível nunca alcançado. Seus livros formam um colar de obras primas dignas de figurar entre as obras primas da literatura universal. Converteu-se em ídolo, em ponto de referência, em orgulho nacional. Mas não conseguiu penetrar na alma do povo. A amarga ficção do seu humorismo, a estrema finura de sua psicologia e do seu pensamento, o colocaram acima do país. Neste, lhe coube a eterna sorte dos que, deste Sterne, cultivam o “humor”. O povo os repele, porque o povo não gosta de ceticismo. O “humor” destrói e o povo necessita de construtores. Deste modo, Machado de Assis representa algo extra-Brasil, estrela de um céu estranho desgarrada no meio de nosso sistema estelar.
Na poesia é Olavo Bilac quem alcança o cimo da perfeição, sem lograr tampouco vibrar de acordo com a alma do povo. É outro grego. E é romano, é um Cícero esse fenomenal Rui Barbosa, considerado força da natureza, expressão última, canto de cisne da língua portuguesa, condenada no Brasil a deixar o lugar à língua brasileira, sua filha.
Dia a dia se acentua mais este fenômeno: o povo só lê, só apóia, só populariza a quem escreve a língua que ele fala. O extremado apego ao velho idioma fez novelistas eminentíssimos e fecundos, como Coelho Neto, que não gozaram, porém, do apoio público a que tinham direito. E a vitalidade da atual literatura, sua expansão, sua penetração, dependem cada dia mais da adoção do “português bárbaro”, que é o idioma do povo brasileiro. O que aconteceu com o latim na Ibéria, dando origem ao idioma lusitano, está acontecendo no Brasil, no conflito daquele com o brasileiro nascente.
Outro obstáculo oposto à expansão de nossa literatura na alma do povo, provém da fascinação que as elites sentem pelas letras francesas. Artistas de cultura unilateral, eternamente voltados para a França, como se o mundo fosse a França, deixaram de auscultar as ânsias estéticas da raça, para seguir servilmente os movimentos franceses. Daí nosso grande parnasianismo que o povo repudiou; e na novela de um psicologismo enfermo que nunca conseguiu interessar a ninguém. Explica-se deste modo a causa pela qual, apesar do brilho da literatura brasileira, a nação tão escassamente se interessa por ela, salvo os casos em que o escritor prescinde dessas influências malsãs e ressoa em harmonia com a alma popular.
Quem havia de revelar esta consonância? Que havia de assinalar este caminho de Damasco a nossos homens de letras? Um engenheiro que não fazia profissão de letras: Euclides Cunha. Seu livro Os Sertões estalou como uma bomba e, por motivos muito simples, teve maravilhosa influência. Euclides não é português, nem francês, nem parnasiano, nem psicologista, nem satélite de astro algum. É uma fortíssima personalidade que soube ver e teve o valor de contar o que viu. Abaixou-se até o solo e examinou a terra; depois examinou o homem ao natural, e passou à tragédia deste homem em relação à terra. Habituados a uma mentira convencional que a literatura vinha perpetrando, penetrou fundamente essa estranha e personalíssima maneira de encarar os homens e as coisas de seu país. E de seu livro, pleno de fulgurações de um genial impressionismo, surgiu algo novo, algo com uma diretriz fecunda que vai dar imenso brilho a nossas futuras letras. O livro de Euclides disse:
- Sigam-me. Apalpem a terra, auscultem-na, vejam como os homens estão determinados por ela. E façam arte que seja a própria terra e o próprio homem, seu filho, vistos pelo nosso personalíssimo temperamento. Só assim interessais o país, sereis lido e realizareis nele a sagrada função que há de exercer o artista.
A lição de Euclides frutifica já. Dia a dia é mais abundante a corrente dos que antes de criar uma obra, abrem-se a todas as impressões ambientes e dão corpo às vagas ansiedades estéticas de nosso país. Desdenhosos das sendas já trilhadas, realizam seu pensamento em obras fortes, libérrimas, personalíssimas, sem cuidado do português que lhes pode fiscalizar o idioma, nem dos Albalat que lhes dão moldes de estilo.
Na Argentina, foi Sarmiento quem exerceu uma função comparável à de Euclides da Cunha. Facundo é uma visão maravilhosa, é uma lição fecundíssima. É a verdadeira bíblia da literatura argentina. Não há caminho verdadeiro que ali não esteja indicado, e erra quem dele se aparta. Esses dois livros dizem uma coisa só: arte é verdade. Ou como dizia Aberto Dures: toda preocupação de beleza é nociva à arte. Enquanto detivermos os olhos nos países de cultura mais avançada e adotarmos critérios de beleza em moda neles para adapta-los aos nossos, nossa arte será um pueril arremedo, sem força para subsistir mais que o período de duração dessa moda. No dia, pois, em que tivermos a bela coragem de fazer-nos intérpretes da dor, da alegria, dos anelos, das aspirações vagas e de quanto sentimento passa pela alma de nossa gente, nossa literatura apresentará o estranho fulgor com que se apresentou nas letras universais a literatura dos Tolstoi e dos Dostoyewski. (10:3-9)
2. Tem sido notado, desde vários anos, que o romance como forma literária, vem sendo quase abandonado no Brasil, onde já se si é escassa a produção de livros relativamente à população e ao que se dá em alguns outros países do continente. Efetivamente, dentre os poucos volumes aparecidos de tempos para cá, merece o nome de – livros – raríssimos são os que encerram um romance, com os característicos bem definidos desse gênero.
Salvante alguns livros de Coelho Neto, de Afânio Peixoto, de Lima Barreto, de Xavier Marques, Veiga Miranda, Canto e Melo, e um ou outro mais, a grande maioria dos volumes que aí surgem, quando não são obras didáticas, são obras poéticas. Esses os dois grandes mananciais literários no Brasil. Afastados, deixam minguadas porcentagens de obras em prosa de intenção meramente artística. Nem se compreenderia bem como, assim sendo, existia aí uma Academia de Letras de largo sodalício, cujas poltronas estejam sempre tomadas e a cujo limiar haja sempre uma turma de candidatos aos lugares porventura vagos...Não se compreenderia se não soubesse que a literatura no Brasil é mero diletantismo, a que só por irresistível pendor natural se entregam sonhadores, os quais mais naturalmente propendem para o verso, propício aos sonhos e fantasias, que para a prosa, mais amigas das realidades. No Brasil, só pratica a literatura, verdadeiramente, quem, dispondo de meios de vida seguros, tem algum tempo a perder. A literatura não é uma carreira de que alguém possa viver, mais ou menos gloriosamente. É, por assim dizer, um esporte. Daí o acerto com que age a Academia em instituir prêmios para os novos e desconhecidos, concitando assim à produção os estudiosos, uma vez que os literatos oficiais de que ela se compõe, com poucas exceções, não julgam os tempos propícios à elaboração de livros estritamente literários. (10:10-11)


LITERATURA INFANTIL-JUVENIL
1. Guardo as tuas notas sobre Malazarte. Um dia talvez aborde esse tema. Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me diante da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha lhes conta. Guardam-nas de memória e vão reconta-las aos amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para ir se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é, habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. Mais tarde só poderei dar-lhes o Coração de Amicis – um livro tendente a formar italianinhos... (2:104)
2. Tive idéia do livrinho que vai para experiência do público infantil escolar, que em matéria fabulística anda a nenhuma. Há umas fábulas de João Kopke, mas em verso – e diz o Correia que os versos do Kopke são versos do Kopke, isto é, insulsos e de não fácil compreensão por cérebro ainda tenros. Fiz então o que vai. Tomei de La Fontaine o enredo e vesti-o à minha moda, ao sabor do meu capricho, crente como sou de que o capricho é o melhor dos figurinos. A mim me parecem boas e bem ajustadas ao fim – mas a coruja sempre acha lindos os filhotes. Quero de ti duas coisas: juízo sobre a sua adaptabilidade à mente infantil e anotação dos defeitos de forma. Mas pelo amor de Deus não os elogie. Ando elogiado demais – como quem se regalou demais com o mel e está com a boca a arder, e a querer tudo no mundo, menos mel... Desanca-me um pouco, Rangel. Sinto necessidade de humilhação... (2:193)
3. Mando-te o Narizinho escolar. Quero tua impressão de professor acostumado a lidar com crianças. Experimente nalgumas, a ver se se interessam. Só procuro isso: que interesse às crianças. (2:228)
4. Não ficarei muito tempo nesta terra. O calor!... Já te disse que não tenho o trópico no sangue. Detesto os verdes eternos, o calor quase eterno, a tal primavera eterna que não passa da mais eterna e desesperante monotonia. Verde, verde, o ano inteiro! Tudo verde, como o Menino Verde, um álbum colorido com que me diverti em criança, companheiro do João Felpudo: Lembra-te disso? Pobres das crianças daquele tempo! Nada tinham para ler.
Ando com idéias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n’Os Filhos do Capitão Grant. (2:292-293)
5. Também vou fazer mais livros infantis. As crianças sei que não mudam. São em todos os tempos e em todas as pátrias as mesmas. As mesmas aí, aqui e talvez na China. Que é uma criança? Imaginação e fisiologia; nada mais. (2:322)
6. Vim do Otales. Anunciou-me que com as tiragens deste ano passo o milhão só de livros infantis. Esse número demonstra que meu caminho é esse – e é o caminho da salvação. Estou condenado a ser o Andersen desta terra – talvez da América Latina, pois contratei 26 livros infantis com um editor de Buenos Aires. E isso não deixa de me assustar, porque tenho bem viva a recordação das minhas primeiras leituras. Não me lembro do que li ontem, mas tenho bem vivo o Robinson inteirinho – o meu Robinson dos onze anos. A receptividade do cérebro infantil ainda limpo de impressões é algo tremendo – e foi ao que o infame fascismo da nossa era recorreu para a sórdida escravização da humanidade e supressão de todas as liberdades. A destruição em curso vai ser a maior da história, porque os soldados de Hitler leram em criança os venenos cientificamente dosados do hitlerismo – leram como eu li o Robinson. Para que bem avalies o que é a criança, mando cópia duma carta recebida ontem, muito típica das centenas que recebo dizendo sempre a mesma coisa, embora com menos expressão e intensidade.
Ah, Rangel, que mundos diferentes, o do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança “um adulto em ponto pequeno”, é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno. Estou nesse setor há já vinte anos, e o intenso grau da minha “reeditabilidade” mostra que o meu verdadeiro setor é esse. (2:345-346)
7. Para bem escrever para as crianças é preciso tê-las como os juízes supremos. Ora, você tem em casa uma juizazinha. Vá fazendo e lendo-lhe. O que ela não gostar, não presta. O que ela gostar, está ótimo e todas as mais crianças gostarão. (4:16)
8. A criança é a humanidade de amanhã. No dia em que isto se transformar num axioma – não dos repetidos decoradamente, mas dos sentidos no fundo da alma – a arte de educar as crianças passará a ser a mais intensa preocupação do homem.
Estamos, ainda, infelizmente, num período em que a criança, em vez de ser considerada como o dia de amanhã, não passa de nuisance. Animalzinho incômodo, para os pais e professores. Daí toda a monstruosa negligência a seu respeito.
Livros, revistas e jornais infantis constituem instrumentos da arte de educar esses bichinhos – crisálidas donde vão sair os homens de amanhã. A que princípios devem obedecer?
Esta proposição é mais séria e a de mais difícil resposta de quantas ainda se hajam formulado. A pedagogia moureja em seu estudo sem que chegue a acordo. Duas correntes, entretanto, se denunciam bem distintas.
Uma, a dos que consideram a criança como um homem em miniatura e pede que se dê a ela o mesmo alimento mental e moral que se dá ao homem, com redução apenas de dose. Critério dos farmacêuticos: para adultos, uma colher de sopa; para crianças, uma colher de chá. Em regra todos os professores de fraco descortino psicológico batem-se pela vitória deste critério.
Em conseqüência surgiu toda uma flora de livros mais ou menos morais e instrutivos, escritos por professores e impostos por outros professores com influência na administração. Tudo ótimo, tudo perfeito, absolutamente em concordância lógica com o conceito de que a criança é um adulto reduzido em idade e estatura, e com a mesma psicologia. O defeito único desses livros está em que as crianças os refugam sistematicamente o alimento que a sua natureza repele.
Forçadas a se “recrearem” com tais livros, as crianças suportam-nos nas aulas ou fora delas como obrigação. Nunca os procuram espontaneamente. Elas também suportam o óleo de rícino, a erva-de-santa-maria, um cálice desse óleo ou uma xícara de beberagem lombricida quando os encontram pelo caminho.
A outra corrente admite a criança como um ser especialíssimo, do qual o homem vai sair, mas que ainda tem muito pouco de homem. Em conseqüência, o seu alimento mental há de ser, nunca uma redução de dose, mas algo especial. E da qualidade desse alimento, elas têm que ser os julgadores. Se refugam, não presta; se mostram avidez, é ótimo.
A criança é um ser onde a imaginação predomina em absoluto. O meio de interessa-la é falar-lhe à imaginação. Vive num mundinho irreal e dele só sai, para, aos poucos, ir penetrando no das duras e cruas realidades, quando com o natural desenvolvimento do cérebro, a intensidade da imaginativa vai-se apagando.
A história mais conhecida no mundo inteiro é talvez a da menina da capinha vermelha. Começa a interessar a criança ao simples enunciado do título – aquela capinha vermelha. Até a cor da capinha está exata, pois que é o vermelho a cor que mais fala a neurônios infantis.
Quem a compôs? Quem compôs essa história sublimemente infantil que constitui o primeiro contato das crianças com o mundo como o podem elas compreender e como o querem? A floresta, a senda que levava à casa da vovó, as flores do caminho, a cesta de gulodices, o recado e as recomendações da mamãe; depois a aparição do lobo, a chegada à casa da vovó, o lobo com a touca velha na cabeça a fingir-se vovó e afinal o desenlace – o nhoque! Do lobo engolindo a menina. Nesse ponto, como nem todas as crianças podem suportar a cena ou não querem que a história acabe assim, surgem as variantes, a do lenhador que acode com o machado e mata o lobo, tirando-lhe de dentro da barriga a menina vivinha e outras.
Quem quiser formar idéia do que tem de ser a literatura infantil basta que estude a fundo essa história, como a que mais vem satisfazendo a todas as crianças do mundo de uma certa idade desde os tempos medievais. Convencer-se-á então que foi composta pelas próprias crianças por intermédio de suas mães ou vovós.
Faça-se a experiência. Conte-se uma história qualquer a uma criança. Ela a vai recebendo com reações muito dignas de estudo. Vai corrigindo-a no sentido de pô-la de acordo com as exigências da sua imaginação. E se o contador possui a necessária inteligência para atender a essas reações, a história modifica-se até cair em ponto de bala.
Imagino que ao ser contada pela primeira vez a história da menina da capinha vermelha, a primeira criança que a ouviu determinou, de início, dois pontos: a capinha e a cor da capinha. “Era uma vez uma menina que usava um vestido azul”, teria começado uma vovó lá no fundo da Germânia. A loura Gretchen, de quatro anos, que friorentamente a ouvia – vendo através da vidraça a neve cair, interrompeu-a aí para a primeira colaboração. “Vestidinho, não, vovó – capinha”. Muito mais interessante com aquele frio uma capinha de lã, lã quente. “Azul também não vovó – vermelha”. O azul é frio, o vermelho é quente.e a história da menina do vestidinho azul passou a ser, desde esse momento, a história da menina da capinha vermelha. De modo que o segredo do interesse eterno dessa história para crianças está em que foi uma história construída pelas próprias crianças através de suas vovós, e pois exatamente como as crianças a queriam. E se vieram variantes é que os temperamentos variam e há que atende-los.
Uma vovó eivada de pruridos pedagógicos mal orientados, toda ela preocupações educativas e cívicas não teria cedido às reações da netinha. Teria imposto a sua história. Havia de ser vestido, havia de ser azul, a menina não conversava com o lobo porque os lobos não falam, etc. e tal. Resultado: a netinha dormia antes de chegar ao fim e nunca mais pediria à avó que lhe repetisse a história – nem que lhe contasse nenhuma outra. Desinteressar-se-ia em absoluto de coisas em choque com a sua imaginação. E em vez de ouvir histórias ou lê-las – visto não poder tê-las na medida das suas exigências psicológicas, passaria a imagina-las.
As crianças do mundo inteiro quando não possuem livros com as histórias que querem ou não acham em casa quem as conte como é mister, dispensam livros e contadores. Passam a imaginar por si mesmas as historinhas indispensáveis àquele mundo da sua psique.
Lembro-me de um caso. Um menino muito vivo, de riquíssima imaginação, mas com o mais absoluto horror aos livros. O pai queixou-se. Jojoca não lia; sabia ler mas não lia; não queria ler. Fui examinar os livros de sua estantinha. Oh, livros todos de corrente número um, a que não admite a imaginação. Instrutivos, educativos, civicíssimos, aconselhados por um professor de óculos e verruga no nariz com um pêlo caracolante.
Fiz uma experiência. Meti entre aqueles livros detestados os contos de Grimm sem recomendação ou sugestão nenhuma. Horas depois o pai pilhou o menino deitado no chão de barriga, devorando Grimm. Ah, “este sim!” Foi o seu comentário. “Este diz o que eu quero.”
O defeito dos livros impróprios e, portanto, refugados pelas crianças está em que retarda o advento do gosto pela leitura. Há homens que passaram a vida sem ler um livros, fora os escolares, justamente por não terem tido em criança o ensejo de ler um só livro que lhes falasse à imaginação. Já os que têm a felicidade de na idade própria entrarem em contato com livros que “interessam”, esses se tornam grandes ledores e por meio da leitura prolongam até o fim da vida o progresso auto-educativo. Quem começa pela menina da capinha vermelha pode acabar nos Diálogos de Platão, mas quem sofre na infância a ravage dos livros instrutivos e cívicos, não chega até lá nunca. Não adquire o amor da leitura.
Há em Nova Iorque uma instituição muito curiosa. Em certo dia da semana, à tarde, na Public library da 5ª Avenida, reúnem-se centenas de crianças para ouvir histórias. Existem contadeiras especializadas, que contam como as crianças querem que contem. A instituição tem dois objetivos – recrear as crianças e estudar-lhes as reações, de modo que tudo quanto ocorre é anotado, classificado e estudado de acordo com um critério inteligentíssimo. As resultantes dessa obra se acham compendiadas num opúsculo que é vendido na Secretaria da Biblioteca. Nele vem o resultado de trinta anos de observação e a classificação por gênero das histórias que mais interessam às crianças.
Esse trabalho tem sido precioso na orientação dos novos livros infantis, dos quais a América é riquíssima. Surgiu uma literatura sob medida que não impõe à criança, mas deixa-se impor pela criança e desse modo satisfaz de maneira completa às exigências especialíssimas da mentalidade infantil.
Lá tomam-se as medidas das crianças. Aqui ainda predomina o sistema contrário – impor às crianças as medidas da gente grande. Os resultados que a educação vai conseguindo nos dois países diz bem alto com quem está o acerto.
Minha teoria quanto a livros, revistas e jornais infantis decorre das observações acima. Não possuo a mínima autoridade pedagógica de qualquer gênero, e tudo quanto sei de educação se resume num arruinar a exceção em favor da regra. Apesar disso escrevi uns livros que as crianças gostam de ler. E por que gostam as crianças de ler esses livros? Talvez pelo fato de serem escritos por elas mesmas através de mim. Como as coitadinhas não sabem escrever, admito que me pedem que o faça. Mas não que o faça como quero e sim como querem elas. Há de ser assim, assim, assim – e humildemente anulo-me para dar à minha clientelazinha um produto que não lhe desagrade. Suponho que foi isso que a Comissão Executiva desta Conferência de Proteção à Infância houve por bem encarregar-me duma das teses.
Resumo o meu parecer em duas palavras, repetindo entretanto que não me reconheço autoridade nenhuma para dar parecer sobre o que quer que seja e muito menos sobre matéria pedagógica.
Os princípios a que devem obedecer os livros, revistas e jornais para crianças resumem-se em serem livros, revistas e jornais para crianças – a especialíssima crisálida donde o homem vai sair, e nunca para homens de pouca idade.
Um menino dá como produto final um homem, e uma menina dá como produto final uma mulher. Mas um menino ou uma menina não é um homem ou uma mulher de idade reduzida. São ambos algo muito diferentes, como a crisálida é diferente da borboleta.
Quanto à melhoria da literatura infantil em nosso País julgo coisa impossível. Não há boa literatura infantil sem bons livros. Uma das condições do bom livro é ser barato. Se é caro não se dissemina e portanto, por bom que seja fica mal, pois perde a força de disseminação e torna-se inexistente. Ora as taxas monstruosas que o nosso fisco impôs sobre o papel impede que possamos ter livros baratos. Todo livro impresso, por causa das taxas, sai caro. A sua vendagem restringe-se. Desaparece a possibilidade de lucro para o editor e o autor – e sem o estímulo do lucro nada se faz neste mundo.
As taxas sobre o papel, a fim de proteger uns tantos industriais espertos, foram elevadas em 1918 de 300%. Um quilo de papel importado paga hoje direitos de entrada duas vezes mais que o preço de custo. É um imposto que recai diretamente sobre a cultura, impossibilitando-a .
As nossas crianças jamais poderão ter livros na abundância, qualidade e quantidade dos países civilizados, porque o nosso governo o proíbe com as suas taxas de alfândega. Assim sendo é tolice, ou quando menos ingenuidade, gastar fósforo em estudar a matéria.
Se algum dia o pesadíssimo imposto sobre a cultura, lançado em 1918, for abolido, então sim, poderemos voltar ao assunto. Agora, é perder tempo. (9:249-256)
9. O livro como o temos tortura as pobres crianças – e no entanto poderia diverti-las, como a gramática da Emília o está fazendo. Todos os livros poderiam tornar-se uma pândega, uma farra infantil. A química, a física, a biologia, a geografia prestam-se imensamente porque lidam com coisas concretas. O mais difícil era a gramática e a aritmética. Fiz a primeira e vou tentar a segunda. O resto fica canja.
O Anísio Teixeira acha que é toda uma nova metodologia que se abre. Amém. (2:96)
10. Recebi sua carta de 27 de dezembro, com vários números da Caretinha, “primeira tentativa de revista infantil em minas”. Muito bem. É tentando que o homem chega a todas as realizações. Se sua tentativa falhar, tente de novo, por outro caminho. Lembre-se do que diz o Henry Ford: “Um fracasso significa apenas uma oportunidade para começar de novo com mais inteligência”.
Não posso atender ao seu pedido de colaboração porque ando sempre ocupadíssimo com o raio do petróleo, além de que uma revista infantil em Minas deve sentir-se abarrotada de colaboradores locais, dado o pendor dos mineiros pelas letras. Mas qualquer reprodução que a Caretinha queira fazer de coisas minhas já publicadas será uma honra para mim.
O lançamento da Caretinha enche-me de prazer porque vejo que em Minas já se começa a dar às crianças o carinho mental devido. Uma coisa que sempre me horrorizou foi ver o descaso do brasileiro pela criança, isto é, por si mesmo, visto como a criança não passa da nossa projeção para o futuro. E assim como é de cedo que se torce o pepino, também é trabalhando a criança que se consegue boa safra de adultos. (12:97)
11. – Leia da sua moda, vovó! – pediu Narizinho.
A moda de Dona Benta ler era boa. Lia “diferente” dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo da onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. Onde estava por exemplo, “lume”, lia “fogo”; onde estava “lareira”, lia “varanda”. E sempre que dava com um “botou-o” ou “comeu-o”, lia “botou ele”, “comeu ele” – e ficava o dobro mais interessante. Como naquele dia os personagens eram da Itália, Dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia pelo sítio em procura de frangos; e para o Pinóquio inventou uma vozinha de taquara rachada que era direitinho como o boneco devia falar. (19:194)
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Ver: EDUCAÇÃO (7:8-9)

LIVRO
1. Feliz circunstância me permitiu examinar em provas um livro que é um livro. Para que um livro seja um livro não basta possuir a forma de livro, nem rechear-se de frases compostas segundo a arte de bem escrever, e impressas de acordo com a boa técnica dos elzevires.
Há que dizer algo novo, encerrar uma grande idéia, desenvolvida ou em gérmen, dessas que valem por empuxões de bom pulso na sonolenta carreira da rotina. (6:138)
2. Toda a vida, em todos os países, houve os escritores que escreveram coisas vendáveis e escritores que escreveram coisas invendáveis. O livro é um artigo, uma mercadoria como outra qualquer. Não há diferença entre um livro e um artigo qualquer de alimentação. Se o artigo qualquer de alimentação não se vende é porque ele é de má qualidade, tá podre, estragado, etc... Se o livro não se vende é porque não presta. Isto, em português claro. Toda vida eu vi os bons livros serem muito bem vendidos e vi uma natural repulsa do público pelo livro mau. Isso foi assim em todos os tempos e em todos os países. Hoje, os bons livros vendem-se muito bem, vendem-se como sempre e diante dos maus o público faz suas reservas, suas caretas, recusa, não compra. Eu acho que esta situação é uma situação de perfeita normalidade e está muito bem que seja assim. Meu desejo é para que os bons livros se vendam e não haja nem sequer comprador para um mau livro, porque a pior peste que há no mundo é um livro mau – a gente perde até o tempo da leitura. (9:346-347)
3. O primeiro livro é tudo. Tem de ser o melhor de que somos capazes, porque não sendo assim o mundo não dará atenção aos demais, por mais valor que tenham. Em regra o mundo só toma conhecimento de um livro de cada autor – e muito naturalmente do primeiro. Nem pode ser de outra maneira, porque não há tempo, e muito grato deve ficar o autor se o seu primeiro filho recebe registro no rol das Coisas Legíveis. (...) Os demais livros que um autor faz é para ganhar dinheiro, satisfazer-se a si próprio, etc. Não o ajudam em nada na construção do seu nome. Tenho a impressão de que o público os compra por vício – mas não os lê. Vi comigo que morrerei o homem dos Urupês. O resto que fiz não foi levado em conta – ninguém leu. Foram comprados mas não lidos. De modo que o sábio é aparecer sem pressa com um livro-tanque – que entre por esmagamento pela inércia do público adentro. E depois, moita. Quem sabe dos duzentos livros de Prèvost? E todos lêem Manon. Quem sabe dos mil livros de Foe? E quem não lê Robinson? (22:56)
4. A cultura se faz por meio do livro. O livro se faz com papel. Carregar de taxas o papel é asfixiar o livro. Asfixiar o livro é matar a cultura. (14:165)
Um país se faz com homens e livros. Minha visita aos monumentos de George Washington e Lincoln provou-me que a América tinha homens. Ter homens, para um país, é ter Washingtons e Lincolns, forças tão marcantes que sobre sua obra não pode a morte. Viva quanto viver a América, seus dois heróis viverão com ela, dia a dia mais sublimados. Já nem mais são homens hoje, decênios passados do desaparecimento da cena, mais semi-deuses. Crescem sempre. Divinizam-se. Em torno destas pilastras a América se cristalizou. Nas maiores crises morais nunca lhe faltará o apoio do general que não mentia e do lenhador que impediu a destruição da obra do general.
Com homens e livros. Nos livros está fixada toda a experiência humana. É por meio deles que os avanços do espírito se perpetuam. Um livro é uma ponta de fio que diz: “Aqui parei; toma-me e continua, leitor”. “Platão pensou até aqui: toma o fio do seu pensamento e continua, Spinoza”.
Mr. Slang certa vez me disse que o homem só tinha duas criações: a invenção do alfabeto e a descoberta do fogo. O alfabeto permitiu o acúmulo da experiência individual; o fogo abriu caminho para a dominação da natureza. (15:45-46)
6. – Essa é boa! É de primeira! Parece até que a burrice de Emília pegou em você, Pedrinho! Vovó sabe de tudo porque lê nos livros e é nos livros que está a ciência de tudo. Vovó sabe mais coisas do mar, sem nunca ter visto o mar, do que este Senhor Caramujo que nele nasceu e mora. Quer ver? (19:102)
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Ver: LITERATURA INFANTIL-JUVENIL 8 ( 9:249-256 )

LIVRO NO BRASIL
1. Dr. Washington Luis // Perdoe-nos V. Exa. se erramos, dirigindo-nos ao futuro em vez de dirigirmos ao presente. Mas o presente paira em tal nuvem que já perdeu o contato com as realidades terrenas – e é de realidades que se trata. Trata-se duma triste realidade que até hoje não mereceu o menor olhar de simpatia dos nossos homens de governo – o livro.
V. Exa. sabe que o Brasil vive atolado até às orelhas na ignorância, como sabe que só um instrumento existe capaz de contrabater a ignorância – o livro. Mas o livro no Brasil é vítima de verdadeira perseguição, dando até a entender que o Estado é contrário à sua expansão e o considera perigoso. Hoje o livro só é acessível às classes ricas, e no andar em que vai, nem a elas, acabando por figurar nas vitrinas das casas de jóias, como objeto de luxo.
Mas não há cultura possível sem livro e livro barato, livro que penetre nas massas populares e lhes erga o nível mental. Que nos vale ter picos como Rui Barbosa, se a planície apresenta um dos mais baixos níveis culturais do mundo?
O livro barato, acessível ao povo, tem sido a nossa obsessão de editores falidos e ressurgidos, e é isso que nos traz perante V. Exa . neste momento em que se trama contra ele um novo golpe de misericórdia.
Podemos sem receio de contestação afirmar que o Brasil é a terra por excelência do livro caro. Por quê? Primeiro, porque o imposto que grava o papel e mais matéria-prima que entra na sua composição é um imposto feroz, e além de feroz, criminoso, porque recai sobre o desdobramento do custo da cartilha de maior voga entre nós; por esse cálculo se vê como a quota do papel onera uma cartilha. É monstruoso e, se V. Exa . quiser controlar a veracidade destes algarismos, os Srs. Paulo de Azevedo & Cia., da Livraria Alves, detentora quase, do monopólio do livro escolar no Brasil, não terão dúvidas em abrir a sua escrita.
O papel paga de direitos de entrada o dobro do custo.
Mas não fica ai a guerra fiscal contra a cultura. Há mais. Há um regime de protecionismo às avessas que sufoca a nossa indústria editora. As taxas são estabelecidas de modo a proteger a indústria editora de fora, paga metade do imposto que recai sobre o papel, e não paga absolutamente nada se vem feito de Portugal!...
Ora, livro é papel impresso. Se o papel vem em branco para ser transformado em livro aqui, paga o dobro do custo; se esse mesmo papel entra já transformado em livro, paga metade, ou zero se procede de Portugal!
É, ou não é um protecionismo às avessas? É. Ou não repetir o gesto de D. Maria, quando mandou destruir os prelos do Brasil-colônia? Tanto faz destruir máquinas como impedi-las de livremente concorrer com suas rivais estrangeiras.
E é tão frisante a intenção de perseguir o livro, que tanto os jornais como as revistas gozam de regime especial. Para eles o papel entra isento de direitos. A “Maça”, o “Rio Nu”, o “Jornal do Bicho”, e quanto sórdido pasquim existe por este país tem o papel pelo preço de custo. O livro, a cartilha das crianças, o manual técnico do operário, tem-no pelo triplo!
Se o Estado reconheceu tacitamente que a imprensa e as revistas não podem viver sob o regime do papel ferozmente taxado, por que milagre de sofisma não admite que o mesmo se dê com o livro?
Até aqui o nosso pobre livro tem vivido à sombra dos privilégios concedidos à imprensa e às revistas. Como a isenção dava margem a um extenso contrabando, a perseguida indústria editora aproveitava-se disso e adquiria na praça o papel de que necessitava a preços muito inferiores aos da importação direta. Esse benemérito contrabando quebrava, pois, o rigor da taxação e foi graças a ele que este pobre país pôde ler alguma coisa e crianças das escolas puderam ter cartilhas ao alcance das suas posses. Mas a abençoada instituição está no fim; o novo regime fiscal impede o contrabando e seus reflexos na cultura e na instrução já se visibilizam. O livro sobe; sobem os preços dos livros escolares. A saída diminui. O Brasil convence-se de que há uma conspiração para que ele não aprenda a ler...
Acresce ainda uma circunstância. As fábricas nascidas à sombra da feroz tributação do papel acabam de coligar-se para comprar o Congresso (é o termo que usam) a permanência do status quo, se não o agravamento das taxas. Seus diretores são ricos e poderosos, sabem falar a linguagem que os políticos negocistas entendem, e vencerão. Vencerão caso V. Exa. não abra os olhos e se ponha ao lado dos interesses da nossa cultura contra os interesses desse grupo. A fé que temos em V. Exa. nos faz crer que isso se dará e que V. Exa. formará ao lado do pobre grupo que não tem meios de fazer valer suas razões, nem tornar ouvida a sua voz: o país.
Se o grupo papelífero vencer (e a Cia. Melhoramentos de São Paulo já deu um grande tiro de “grosse Bertha” com o seu relatório sobre a marca d’água, sinal de abertura de operações), farão os interessados um excelentíssimo negócio, suas fábricas darão altos dividendos, vinte novos-ricos sairão da celulose sueca – mas a ignorância nacional crescerá porque o preço do livro aumentará.
Esse relatório, cheio de retratos lisonjeativos, é um primor de mistificação, e dá boa medida do maquiavelismo das indústrias que só vingam à sombra de clamorosas taxas protetoras.
Nada temos a ver com os negócios alheios. Mas como o nosso ponto de vista é o da cultura do povo brasileiro e a vítima da “grosse Bertha” vai ser essa cultura, lembramo-nos de dirigir a V. Exa. estas palavras arrastadas pela frase com que Henry Ford termina o seu maravilhoso livro: Everything is possible...”faith is the substance of things hoped for, the evidence of things not seen”.
Temos fé em V. Exa., e certeza de que, caso volte a atenção para este problema, será ele resolvido a favor da cultura nacional e não a favor de um grupo de honrados ganhadores de dinheiro. (3:193-197)
2. Parece incrível, mas a vida literária do Brasil, de 15 a 25, girou em redor de mim e da minha editora. Pelas cartas verás isso. Não havia quem não me procurasse, e eu ia lançando nomes e mais nomes novos, depois de haver aberto o país à entrada de livros. Aquela história de pular das trinta e tantas livrarias que tínhamos pelo país inteiro, únicos pontos onde se vendiam livros, para os 1200 e tantos consignatários de Monteiro Lobato & Cia., foi uma das etapas da emancipação cultural do Brasil. Na correspondência hás de encontrar muito reflexo disso. (4:189)
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Ver: LITERATURA INFANTIL-JUVENIL 8 ( 9:249-256 )

M

MEMÓRIAS
1. O próprio gênero “memórias” é uma atitude: o memorando pinta-se como quer ser visto pelos posteros – até Rousseau fez assim – até Casanova. (1:17)
2. Parece que ando na idade de ler memórias. Só nelas temos o que é possível de histórias verdadeira, com os basfond e as cozinhas e copas da humanidade. A história dos historiadores coroados pelas academias mostra-nos só a sala de visita dos povos. É uma garni uniforme, incolor, tanto na França como na Turquia e Rússia. Mas as memórias são a alcova, as anáguas, a chinela, o pinico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal – a pele quente e nua, ora macia, ora craquenta de lepra – da humanidade, a grande humanidade com “h” minúsculo, esse oceano de machos e fêmeas que come, bebe e ama – e supõe que faz mais alguma coisa, além disso. (1:340-341)
3. E como vão as Memórias? Li aquelas tiras a lápis que V. me deu à última hora.Divagações – devaneios. Boa anotação desse sonhar acordado que o francês chama “rêverie”. Nas Memórias você precisa ser “direto” – quanto mais direto um estilo, mais forte a impressão que causa. (4:251)
4. Memórias... Não há gênero mais mentiroso, porque o mundo nos força a mentir sempre que falamos de nós mesmos – qualquer coisa que digamos sobre qualquer assunto estaremos sempre a falar, indiretamente, de nós mesmos, a nos enfeitarmos ou a nos deprimirmos (se somos masoquistas às avessas). Gostaria muito de memórias como literatura, se o sujeito é interessante, porque nas memórias o escritor aborda grande variedade de assuntos e isso o ajuda a pavonear-se em mil cabriolas diversas.
Ah, a nossa covardia infinita! No dia em que aparecer um homem de verdadeira coragem, ah esse homem escreverá o maior livro de memórias do mundo – e o mundo o apedrejará, como apedrejou o marquês de Sade, um dos únicos homens sinceros que existiu.
Somos dois em um – somos o homem que é, e o homem social que precisa ser assim e assado. O que somos, isso morre conosco; só temos coragem de escrever o que não somos, ou o que somos na nossa segunda natureza, a adquirida, a social. Eu tinha vontade (e talvez me atreva a tanto) de escrever uma tentativa de memórias – mas sairia com pseudônimo de verdade, de modo a permanecer impenetrável . mas ninguém tenta isso porque... para que fazer uma coisa apenas para benefício dos outros e nenhum para nós? O egoísmo não existe.
Conhece o Diário de Pepys? É o que mais se aproxima do que concebo como memórias. Mas Pepys teve de escreve-lo em língua cifrada para que ninguém o lesse. Pois um século depois de sua morte alguém o descobriu numa papelaria velha, e conseguiu decifra-lo e publicou-o, dando à literatura inglesa o mais interessante e humano de seus livros. Mas faltou a Pepys ser um homem superior, um grande artista; mesmo assim é uma das poucas coisas legíveis que há no mundo. (12:68-69)
5. Memórias são depoimentos pessoais no intermino processo, e valem por más testemunhas os que silenciam egoisticamente sobre o que fizeram ou viram fazer. O silêncio em tal caso corresponde a refugir ao cumprimento de um dever iniludível – contribuir cada qual com o que possa para que o amanhã seja, se não melhor, pelo menos mais esclarecido do que o ontem e o hoje. (16:197)
6. Tanto Emília falava em “minhas Memórias” que uma vez Dona Benta perguntou:
- Mas, afinal de contas, bobinha, que é que você entende por memórias?
- Memórias são a história da vida da gente, com tudo o que acontece desde o dia do nascimento até o dia da morte.
- Nesse caso – caçoou Dona Benta – uma pessoa só pode escrever memórias depois que morre...
- Espere – disse Emília. – O escrevedor de memórias vai escrevendo, até sentir que o dia da morte vem vindo. Então pára; deixa o finalzinho sem acabar. Morre sossegado.
- E as suas memórias vão ser assim?
- Não, porque não pretendo morrer. Finjo que morro, só. As últimas palavras têm de ser estas: “E então morri...”, com reticências. Mas é peta. Escrevo isso, pisco o olho e sumo atrás do armário para que Narizinho fique mesmo pensando que morri. Será a única mentira das minhas Memórias. Tudo mais verdade pura, da dura – ali na batata, como diz Pedrinho.
Dona Benta sorriu.
- Verdade pura! Nada mais difícil do que a verdade, Emília.
- Bem sei – disse a boneca. – Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéias do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar idéia de que está falando a verdade pura.
Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com idéias tão filosóficas.
- Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jesus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: “Que é a verdade?” ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta.
- Pois eu sei! – gritou Emília. – Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso. (23:7-8)


N

NATURALISMO
1. O naturalismo dói uma reação violenta contra os exageros do romantismo. Mas o naturalismo passou da conta e por sua vez está provocando reações. O naturalismo acabou em fotografia colorida. O adjetivo de que o Macuco mais gosta deve ser o “nítido”, e não há cretino que ao dar opinião sobre qualquer pintura (a Gioconda ou um Corot) não venha com o clássico: “Como está nítida!”. Pois foi isso. O naturalismo morreu no nítido fotográfico. (1:54)
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Ver: DESCRIÇÃO (2:13-14)

NOVELISTA
O novelista é um historiador de almas. Não inventa. Mas convence-se de certas coisas. (6:248)

O

OBRA-FORTE
Canaã é o que chama uma obra-forte, e obra-forte quer dizer obra-fraca. Não é paradoxo. As obras-fracas no presente são as incompreendidas, ou de compreensão só possível no futuro. E as fortes são as que de tal modo satisfazem às exigências do presente que provocam estouros de entusiasmo – obras despóticas. Mas passam com a passagem dessas exigências. Acho a tese de Canaã muito atual: imigração, colonização, absorção, etc. quando tudo mudar, daqui a cem anos, quem vai interessar-se pelas idéias de Milkau e Lentz? Quem hoje lê os romances sobre a escravidão? Os argumentos da Cabana do Pai Tomás nos fazem sorrir - e eram tão fortes no tempo que deflagraram uma guerra. Os romances de Mme. de Stäel nos dão idéia de anquinhas, saia balão. Canaã será um grande livro enquanto perdurarem os nossos problemas imigratórios; depois irá morrendo – e os futuros leitores pularão os pedaços de Lentz e Milkau. Já o Braz Cubas é eterno pois enquanto o mundo for mundo haverá Virgílias e Brazes; mas Milkau é um metafísico de hoje, tem ideais de hoje e filosofia hojemente; amanhã só será lido pelos futuros Melos Morais. (1:45-46)

OPINIÃO
Por isso, a opinião que vale é a pescada atrás da porta. Sistema de Apeles, que expunha o quadro e ficava bem escondido, a ouvir os comentários – e mesmo assim protestou contra a do sapateiro.
Opiniões! Eu, se fora refazer qualquer coisa do Olimpo, mudaria o nome do deus Jano. E o sexo. Punha em lugar dele a deusa Opinião. (12:57)

OPINIÃO PÚBLICA
Originalidade marcada, só nos homens da roça que não lêem jornais. Idéias próprias, pontos de vista únicos, personalíssimos, e a sublime coragem do pitoresco mental.
Nas cidades grandes o jornal ingerido pela manhã desoriginaliza, bota-nos a todos bitolados pela mesma regra de pensar.
A opinião pública só existe nos lugarejos. Nas capitais desaparece substituída pela opinião que se publica. (7:6)

ORTOGRAFIA
1. Quanto à ortografia, procedi de modo inverso ao teu. Atacaste-a pel’A Lanterna e adotaste-a em público. Eu defendi-a em público mas não a adotei. Por quê? Preguiça, incapacidade. Acho que deve ser dificílima para mim. Ter de aprender de novo, na minha idade, isso é duro. E há ainda uma razão estética. Acho razoabilíssimo que se escreva, por exemplo, “estética”; mas acho fidalgo, cheiroso, escreve-la à antiga, com aquele inútil “h” a flanar no meio da palavra. Tenho paixão pelo “h”. dá-me idéia duma letra nobre, de muita raça, com avô barão rapinante nas Cruzadas. Só trabalha quando quer, e só para modificar o som de outras letras. Age por ação de presença. O “n”, se o “h” lhe surge na frente, mija-se todo e fica “nhe”. E fora de casos assim, o “h” só aparece nas palavras por puro esporte, por uma espécie de parasitismo – para arejar-se, ou para exibir-se quando puxa fila, como em “Homem”. E o que dá dignidade ao Homem é o “H”. Imagine se o Gonçalves Viana propusesse mudar-nos para “Omem”. Até eu, daqui, ajudava a linchá-lo.
Adotas a reforma desse Viana? Se eu puder decorar regras é possível que faça o mesmo – apenas para acompanhar o movimento, não que a ache bonita. Boa, sim, é. Ou então persistirei na antiga, contribuindo para vitória da nova com o criar os filhos nelas. (1:329)
2. Nossos “imortais” faineantes, esquecidos de que a ortografia não era para uso exclusivo deles e sim de milhões de mortais que têm o que fazer, complicaram a grafia das palavras mais simples com acentos que de nenhum modo se justificam. Até o pobre verbo haver, no tempo “ha” que desde que nasceu foi grafado assim, passou imbecilmente a “há”. Por quê? Haverá possibilidade dessa palavra ser pronunciada de duas maneiras? Esse negócio de acentos assume para nós mortais um aspecto econômico que ainda não foi estudado. Talvez que a expansão do Império Britânico tenha como um dos fatores o lucro de tempo decorrente de não haver na língua inglesa acentos. Abro ao acaso uma tradução francesa dos “Essays” de Macaulay e numa página conto 78 acentos; essa mesma página Macaulay a escreveu sem um só. Talvez o tempo que os franceses perderam no século 17 e 18 em enfeitar de sinaizinhos as palavras haja sido a razão de os ingleses terem chegado primeiro a tantas terras que foram pegando.
Revoltado contra os acentos acadêmicos, usei do meu prestígio na Editora Nacional para uma guerra à excrescência, e consegui que a empresa editasse centenas de milhares de livros com a “desacentuação” exemplificada no livro que remeto como amostra. E não sei de uma só criança que, lendo-o, sinta falta das pulguinhas suprimidas. (4:30-31)
3. Não posso compreender a razão dos acentos. É coisa que berra contra todo o progresso moderno de fixação dos sons articulados por meio de sinais gráficos. E agora que cada vez mais se expande a escrita a máquina, o acento chega a tornar-se um trabalho inútil dos que dão prejuízo em dinheiro ao país. Se fosse possível o cálculo, assombraria a conta de quanto os povos de língua inglesa ganharam em tempo – e pois em dinheiro – com a supressão integral do acento. Não existe uma só palavra inglesa que se grafe com essas excrescências inúteis – e a língua deles é a mais rica e dúctil de quantas se desenvolveram no mundo.
Memórias, escreve você. Perde tempo erguendo a mão do papel para meter a cunha no o. Sem a cunha haveria meios de se pronunciar de outra maneira essa palavra? (12:78-79)
4. Depois da tremenda revolução ortográfica da Emília, o Brasil ficou envergonhado de estar mais atrasado que uma bonequinha e resolveu aceitar as suas idéias. E o governo e as academias de letras realizaram a reforma ortográfica. Não saiu coisa muito boa, mas serviu. Infelizmente cometeram um grande deslize: resolveram adotar uma porção de acentos absolutamente injustificáveis. Acento em tudo! Palavras que sempre existiram sem acentos e jamais precisaram deles, passaram a enfeitar-se com esses risquinhos. O coitado do “há” do verbo haver, passou a escrever-se com acento agudo – “há”, sem que nada no mundo justificasse semelhante burrice. E introduziram acentos novos, como o tal acento grave (`), que, por mais que a gente faça, não distingue do acento agudo (‘). O “a” com crase passou a “à”, embora conservasse exatamente o mesmo som! E apareceu até um tal trema ( “), que é implicantíssimo. A pobre palavra “freqüência”, que toda a vida foi escrita sem acento nenhum, passou a escrever-se assim: “freqüência”!...
Emília danou.
- Não quero! Não admito isso. É besteira da grossa. Eu fiz a reforma ortográfica para simplificar as coisas, e eles com tais acentos estão complicando tudo. Não quero, não quero e não quero.
Quindim interveio.
- Você tem razão, Emília. A tendência natural duma língua é para a simplificação, por causa da grande lei do menor esforço. Se a gente pode fazer-se perfeitamente entendida dizendo, por exemplo, “tísica”, por que dizer “phthisica” como nos tempo da ortografia etimológica? A forma “tísica” entrou na língua por efeito da lei do menor esforço. Mas a tal acentuação inútil vem contrariar essa lei. Em vez de simplificar, complica. Em vez de exigir menor esforço, exige maior esforço. Logo, é um absurdo.
- Mas é obrigatório hoje escrever-se assim, com dez mil acentos – observou Pedrinho.
Quindim não concordou.
- Est modus in rebus – disse ele. – A língua é uma criação popular na qual ninguém manda. Quem a orienta é o uso e só ele. E o uso irá dando cabo de tosos esses acentos inúteis. Note que os jornais já os mandaram às favas, e muitos escritores continuam a escrever sem acentos, isto é, só usam os antigos e só nos casos em que a clareza exige. Temos, por exemplo, “fora” e “fôra”. O acento circunflexo serve para distinguir o “fora” advérbio do “fôra” verbo. Nada mais aceitável que esse acento no O . O que vai acontecer com a nova acentuação é isso: as pessoas de bom senso não a adotam e ela acaba sendo suprimida. O uso aceita as reformas simplificadoras, mas repele as reformas complicadoras.
Emília ficou radiante com as explicações de Quindim e pôs em votação o caso. Todos votaram contra os acentos, inclusive Dona Benta, a qual declarou peremptoriamente:
- Nunca admiti nem admitirei imbecilidades aqui em casa. (24:155-156)


P

PENSAR
1. O melhor método de bem pensar é o peripatético – passeando, andando. (5:12)
2. Refugado o positivismo, pus-me a estudar comigo mesmo e fazer a coisa mais difícil de todas: pensar. Todo mundo pensa que pensa, mas bem poucos sabem o que é pensar – e como é penoso pensar. (...)
O destino levou-me ocasionalmente, a ler uma frase de Nietzsche, numa brochura que um colega trazia debaixo do braço. Dessas frases-pólen que nos rebentam botões lá dentro. Fui dali a um livreiro em procura de obras desse Nietzsche. Não havia nenhuma. Encomendei todas. Algum tempo mais tarde recebi as obras de Nietzsche da tradução de Henry Albert – e mergulhei no filósofo alemão. Foi a maior bebedeira de minha vida. Aquele pensamento terrivelmente libertador intoxicou-me. Um dos seus aforismos penetrou em meu ser como a coisa que procurava. “VADE MECUM”, “VADE TECUM”. Queres seguir-me? Segue-te. Essas palavras foram tudo – foram o meu remédio certo. Marcaram o fim da minha crise mental. Normalizaram-me. Entregaram-me a mim mesmo. O que naquela ânsia através das filosofias eu procurava era eu mesmo – e só Nietzsche me contou que era assim. Em vez de seguir alguém, ia seguir a vaga intuição do meu eu...
A idéia de tornar-me um aparelho receptor, nu de qualquer preconceito, deixado sempre ao léu, ferrenhamente defendido contra tudo que fosse “Imposição”, pareceu-me – coisa certa – e a procurada. “SEGUE-TE”. Nunca uma palavra foi melhor compreendida, melhor apreendida, melhor sentida. Sua significação última era liberdade mental e moral.
Ocorre-me um incidente dessa época. Eu estava na Livraria Gazeau, fossando livros.
Achei um Nietzsche novo para mim. Abri-o, pus-me a ler ao acaso. Um padre aproximou-se. Espiou o livro pelo meu ombro e disse: “esse filósofo é dissolvente” - “Como o sabão”, foi a resposta que me veio instantânea, sem nem sequer erguer os olhos do livro.
Nietzsche foi de fato o meu sabão. Limpou-me de todas as gafeiras mentais e morais. Mas nunca o li totalmente, de medo de assimila-lo demais e tornar-me nietzschiano – o que contrariaria o seu “VADE TECUM”. Sempre que lhe tomava um livro, logo nas primeiras linhas um daqueles pensamentos – pólen me empolgava e germinava em mil pensamentos meus. A função desse filósofo em minha vida foi sempre devolver-me a mim mesmo.
E assim foi que me fiquei na vida sem sistematização nenhuma, livre como um passarinho, a esvoaçar para onde aprazia, levado apenas pelas minhas intuições, insubmisso a fórmulas e autoridades. Essa insubmissão estendeu-se à minha literatura. Tudo quanto produzi, contos ou sonhos infantis, não se subordinaram a norma nenhuma. Segui apenas a veneta. “QUERES SEGUIR-ME? SEGUE-TE”.
Não fiz na vida outra coisa senão, em tudo trilhar o conselho nietzschiano, indiferente a censuras ou aplausos ou a interesses. Claro que num terreno assim a ciência positiva crava as unhas. A ciência positiva “prova” e quando há provas, que lugar subsiste para a dúvida? Acostumei-me a aceitar as conclusões da ciência, dispensando-me de experiências pessoais diante da experiência coletiva e convergente dos sábios.
Na vida social sempre fui asperamente sincero. Jamais escrevi ou afirmei coisa de que não estivesse convencido. Dessa atitude proveio minha fama de “propagandista”. Consideravam-me grande propagandista pelo fato de lançar empresas e com meus manifestos e exposições atrair todo o capital necessário. A força dessas exposições feitas diretamente ao público, foi sempre a mesma: a minha absoluta convicção pessoal. Quando propus o negócio do petróleo com base nas indicações do aparelho Romero, vi-me fortemente censurado – mas nunca fui tão sincero. Se em mim subsistisse a menor sombra de dúvida quanto à eficácia desse aparelho, de nenhum modo eu o teria afirmado como afirmei.
Tive convites para cargos oficiais de grande importância. Sistematicamente recusei-os por não estar convencido das coisas que nesses cargos seria preciso afirmar.
Essa forma de espírito insubmisso, leal, libérrimo, irredutivelmente sincero, obrigou-me a viver isolado na comunhão social, sempre só comigo mesmo ainda dentro das maiores multidões. Via, sentia, reconhecia os males da sinceridade num mundo todo de cálculo e oportunismo – mas preferia esses males aos “bens” que dão a vitória. (9:222-225)
3. Nos livros de ciências já não há esse pegar coisas com os cascos imantados, e sim pegar tudo e assimilar, porque ciência não é opinião, nem temperamento, e sim o que é, na opinião dessa coisa que nada tem a ver com os homens e as opiniões dos homens, chamada LABORATÓRIO. E sobretudo biologia. Leia e assimile a biologia do Wells. Science of Life.
Em suma, é preciso que você passeie pelo pensamento crítico dos grandes homens, das grandes inteligências, não para acumular como um museu o que eles dizem, mas para ir assimilando umas essências afins e construtoras do teu ego mental.
Assim procedendo, você aperfeiçoa o seu modo pessoal, íntimo, único de pensar. Aprender a pensar! Quando esse violino fica no ponto de afinação requerida, é uma beleza, porque você tocará todas as músicas. É preciso que fiques tão afinado e sutil e firme que possas diante de qualquer coisa apanhada nos aspectos eternos...Mais isto não cabe em carta. Temos de adivinhar como é. Temos de criar o nosso caminho. Tudo muito difícil – ou fácil, se nascemos assim ou assado. Ah, como tudo é complicado e difícil de transmitir...
Resumirei dizendo: crie o instrumento de expressão; estilo; e aprenda a pensar por si. O resto vem por si. (12:70)
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Ver: POESIA 2: (5:119)


PINTURA BRASILEIRA
A pintura brasileira só deixará de ser um pastiche inconsciente quando se penetrar de que é mister compreender a terra para bem interpretá-la. (16:58)


POESIA
1. Como a flor emana perfume, o poeta nato emana poesia, esse misterioso e indefinível estado d’alma que se chama poesia. (5:115)
2. Os fisiógrafos dividem a camada de ar que envolve o nosso planeta em atmosfera e estratosfera. A primeira é perceptível a todos os seres vivos. A segunda é adivinhada apenas pelos sábios.
Igual divisão observamos na camada de pensamento em que todos nós vivemos, como vivem os peixes na água; e há uma estratosfera mental, psíquica e metapsíquica, de que todos os seres comparticipam inconscientemente, mas só algumas criaturas eleitas pressentem, sentem ou mesmo “sabem”. É a zona por momentos atingida por certos poetas místicos (ou vaticinadores), por certos filósofos quase incompreensíveis pelo vulgo, pelos santos em êxtase, pelas criaturas sujeitas a certos estados do que a ciência chama alucinação. (5:119)
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Ver: POETA 1 (5:116)


POESIA ANTIGA E MODERNA
Ando atracado com as obras completas de Camões e volta e meia fisgo belezinhas. Não prefiro a poesia antiga à moderna, mas acho na antiga um sabor mais amável, qualquer coisa como o cheiro dos velhos casarões de fazenda que a caseira abre para nos receber. A cor e o sabor da poesia moderna são mais ricos de torturas, têm mais pensamento, denotam mais matéria cinzenta no cérebro humano e isso nos agrada, a nós complicados homens agora. A antiga dá idéia de pés em sandálias. (1:144)

POETA
1. E então compreendi o que é realmente ser poeta. É ser por natureza um orgânico produtor da indefinível sugestão a que chamamos poesia – sugestão que não visa coisa nenhuma, que não quer provar coisa nenhuma, que é o mínimo possível da terra, tanto foge ao Espaço e o Tempo. Levitação, levitação. (5:116)
2. Poeta... Que surrada andas tu, pobre palavra, e que longe andas do sentido íntimo, pelo abuso de te vestirem quantos por aí medem versos nos dedos para uma periódica postura nas revistas!
Poeta – poeta não é o malabarista engenhoso que acepilha sonetos, embora belos, senão a criatura eleita que ressoa às mais sutis vibrações ambientes, como se toda ela, corpo e alma, fôra uma harpa eólia de cordas vivas.
Os crepúsculos estriados de sangue, o marulho das ondas nos fraguedos, o bisbilho dos córregos nos socavões das matas, a bruma das manhãs, um ninho em que pipilam aves implumes, o silêncio augusto das montanhas, o trilo duma patativa, uma estrelinha a piscar, as vozes misteriosas das coisas balbuciadas em surdina, os cambientes, as penumbras – tudo quanto é estado d’alma da Natureza, esfrola as cordas da harpa feita homem e a faz exsolver-se na gama inteira das vibrações emotivas.
Fixar estas vibrações por meio da palavra disciplinada no ritmo e enlanguecida na melodia da rima, é simples lavor final. O tudo, a coisa suprema, é ser poeta, sensibilidade de galvanômetro, harpa eólia em permanente vibrar a todas as auras.
O homem frio que, senhor da cultura e sabedor da técnica, compõe um poema, por maiores belezas que nele derrame será um retórico, um orador – poeta é que não.
E não, porque seus versos foram compostos ao invés de brotarem lógicos, no incoercível da flor que vem da planta, do perfume que sai da flor, da ebridade que emana do perfume.
O verdadeiro poeta é um eterno soar de cordas que nele são bordões e primas, afinadíssimos, tensos de estalar, e no vulgo são calabrês grossos e bambos.
Alfredo de Musset, Antonio Nobre... poetas no seu tempo, poetas hoje, poetas amanhã, poetas sempre.
Hugo, Rostand... serão poetas para o coração do homem futuro?
Não é retórica a poesia, nem eloqüência. É dor. Dor estilizada, dor de amor, dor de saudades, dor de esperanças, dor de ilusões murchas, dor de anseios vagos, dor de impotência, dor do inexprimível. (16:89-90)


POETISA
A poetisa de hoje emparelhou-se com o poeta moderno. E assim como este perdeu a cabeleira, a caspa, as atitudes fatais, e veste-se, come, bebe e lava-se como todo mundo, assim também a poetisa desfatalizou-se e não há mais discerni-la à janela pelo negror das olheiras, nem à noite pelo modo canino de ferrar o olho na lua.
Compuseram-se. Alçapremaram-se a nível superior. Emparelharam-se às demais criaturas finas de elegância mental, distinção e sobriedade de maneiras.
Quem lê uma Francisca Júlia tem a impressão duma eleita da linha, no caráter e na mentalidade.
Gilka Machado dá a sensação nobre de criatura afeita a partir cristais com martelo de ouro.
Albertina Berta documenta a capacidade feminina para vôos elegantes sobre cumeadas alpestres onde esvoaçam os d’Annunzios.
E agora Maria Eugênia Celso revela um livro a maneira galharda com que neta e filha podem empunhar um cetro de nobreza moral legado pelo avô, e uma pena refulgente que ainda maneja o pai.
Nem resquício da poetisa à antiga, aves cômicas que “poisavam gorgeando nos periódicos do tempo”. Mas a criatura de fina sensibilidade e larga cultura, de nobilíssimo caráter e suave equilíbrio, à qual apraz traduzir em versos os seus mais sutis estados d’alma. (6:187-188)


PONTUAÇÃO
(Um parêntese antes que a idéia me fuja: na nossa pontuação falta um sinal necessaríssimo, nuança do “?”. Este raio de “?” serve para as perguntas, mas para a “pergunta repetida” não temos sinal nenhum e somos forçados a usar o mesmo, com grave dano da entonação. “Que idade tens?” – “Que idade tenho? Só vinte anos”. A entonação do segundo “?” é totalmente diversa da do primeiro – e por pobreza diacrítica somos forçados a empregar o mesmo ponto de interrogação, o que não deixa de ser um defeito da língua escrita – porque na falada temos a variante da entonação. Vamos lançar o sinal que falta? Ita parenthesis est. ) (1:144-145)


PREFÁCIO
- Que é prefácio? – perguntou Emília.
- São palavras explicativas que certos autores põem no começo do livro para esclarecer os leitores sobre as suas intenções. O prefácio pode ser escrito pelo próprio autor ou por outra pessoa qualquer. (25:10)


PROPRIEDADE DE EXPRESSÃO
- E por que a senhora disse “redargüiu”? Não é pedantismo? – quis saber a menina.
- É e não é – respondeu Dona Benta. – redargüir é dar uma resposta que também é uma pergunta. Bonito, não?
- Por que é e não é? Como uma coisa pode ao mesmo tempo ser e não ser?
- É pedantismo para os que gostam da linguagem mais simplificada possível. E não é pedantismo para os que gostam de falar com grande propriedade de expressão.
- E o que é propriedade de expressão? – quis saber Narizinho.
- Propriedade de expressão – explicou Dona Benta – é a mais bela qualidade dum Estilo. É dizer as coisas com a maior exatidão. Ainda há Emília falou no “ferrinho do trinco da porta”. Temos aqui uma “impropriedade de expressão”. Se ela dissesse “lingüeta do trinco” estaria falando com mais propriedade.
- Mas é ou não é ferrinho? – redargüiu Emília.
- A lingüeta do tricô é um ferrinho, mas um ferrinho não é lingüeta – pode ser mil coisas. (28:184)
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Ver: VOCÁBULOS 3 (1:263-264)

R

ROMANCE
1. No teu caso eu me dedicaria exclusivamente ao conto e me ia aperfeiçoando sempre; e muito naturalmente viria mais tarde o romance, sem forçar o temperamento – como veio ao Maupassant e ao Eça. O romance é um conto de 300 páginas e mais engalhado – e só ergue 100 quilos quem durante anos se treinou em suspender halteres de 10. Que pressa a tua em saltar para o romance? Dizes que desanimaste no nº 4. Põe-no de parte, homem, e apega-te ao 10 quilos. E lança ao público um livro de contos o ano que vem. O maior estímulo para fazer um segundo filho é já ter bem lépido o primogênito. (1:188-189)
2. Num romance, quando as radículas da nervura central são constituídas por tipos discretamente pintados, de modo a não projetar sombras na coisa principal, o efeito é maravilhoso. Em Jack, por exemplo. Como aviva a pintura do caráter de D’Argenton aqueles ratés secundários que o rodeiam! Em Machado de Assis lembro-me do Dias, o homem dos superlativos, tão discreto. Às vezes o que salva um romance é isso – esse fundo. (1:265)
3. Li a última parte dos Soldados do Livro. Não resta a menor dúvida: estás romancista. Possues todas as qualidades necessárias: 1) capacidade de trabalho, coragem de começar na 1a. e ir até à página 350; 2) instinto da composição, da arquitetura, da montagem, do enredo; 3) habilidade de manter até o fim o caráter dos personagens; 4) estilo e correção de língua. Resta agora a lapidação de todas essas qualidades que é um trabalho do tempo.
Noto no romance umas tantas excrescências, que o aumentam de tamanho e diminuem de harmonia – uns tantos excessos que cumpre podar. Uma cara só é bonita quando nada tem de mais ou de menos. Suprima, por exemplo, ou atenue, a catequese dos botocudos pelo Marolo. Materialismo não havia tempo, entre sua saída do ginásio e o dia dos exames, do homem catequisar índios e padecer martírios. Faça a conta. Não dava tempo nem dele chegar a Cuiabá. Além disso, muito mais conseqüente com o caráter de Marolo será sair do ginásio e agregar-se parasitariamente ao bispado, em cargo que um leigo possa desempenhar.
O capítulo 16 pede refusão. Está prolixo, cheio de coisas que não dizem com o tom geral. Desafina. Noto que nos diálogos você se vulgariza um pouco. O diálogo no romance é o enxerto das coisas vivas, frisantes, engraçadas ou áticas, que por associação vão ocorrendo ao escritor. A cena dos conspiradores em casa do Dadico pede reparo. Da rua, portas e janelas fechadas, como podiam eles ver e ouvir tudo quanto se passava lá dentro? Muito melhor deixar entrever a situação do que narra-la às cruas. E assim outras coisas.
Em muitos pontos é preferível entremostrar a mostrar, diluir os contornos duros, substituir luz por meia-luz ou penumbra. Há ganho de sugestão. (1:301-302)
4. Venho por-me em dia. Não há dúvida, os teus Pioneiros ganharão com algum desbaste a foice, sabiamente feito nalguns trechos que me parecem muito copados. É o que estou fazendo aqui numa chácara que foi de meu avô: desbastando, derrubando tudo quanto é árvore inútil. Só ficam as árvores que dão renda. Pés de camburá que produzem mal e frutas enferrujadas – machado neles! Mangueiras maninhas – machado nelas! No romance também é assim. Tudo que for inútil ao progressivo efeito central pede foice e machado. Podar, podar! Eis o grande segredo. Desbastar. O que fica eleva-se, ganha realce. (1:303-304)
5. No romance o que estabelece o valor é a criação dos tipos e a sua focalização dentro dum meio típico. (10:32)
6. Atire-se ao romance para o Cruzeiro. O meio de fazer um bom romance é empenhar-se dum bom tema, duma boa idéia central, e escreve-lo impetuosamente, como um vôo de avião que vai sem paradas do ponto de partida ao de chegada – e depois de completado o jato, aperfeiçoá-lo amorosamente. Eu preferia que o teu Arte Moderna fosse um romance que agora fosses reduzir a conto. Esse processo resulta, como dizem os ingleses. Já o processo contrário – diluir um conto em romance – é bastante perigoso, porque há perda da intensidade. Você sacrificará o “tamanho natural” da história ao tamanho imposto pela revista. Ora, isso de tamanho, a natureza prescreve um certo para cada espécie de coisa viva. Uma árvore, um animal, um conto, um romance, um poema, tem um tamanho certo, prescrito pela lei da espécie e in-aumentável ou in-diminuível. Se você faz um homem muito grande ou muito pequeno, deixa de ser um homem, passa a ser um monstro, passa a ser um gigante ou um anão – coisas diferentes dum homem. Mas faça, sem pensar no prêmio. Faça o melhor que puder, que estará certo, com ou sem prêmio. (18-47)
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Ver: CONTO 4 (1:280-281)
CRIAÇÃO 4 (2:137-138)
ROMANCISTAS 1 (7:228)

ROMANCE NO BRASIL
O romance no Brasil, meu caro Artur, é uma coisa que começou certa mas se perverteu muito cedo. Começou otimamente com as MEMÓRIAS DUM SARGENTO DE MILÍCIAS, de Manuel de Almeida. Ele o escreveu muito moço e nem sequer o concluiu. O famoso romance não passa dum pedaço de romance. Parece que lá pelo meio Manuel de Almeida viu que não valia a pena acabar aquilo, por falta de público, ou porque se casou e a mulher implicou-se. Mas apesar disso ficou célebre em nossa literatura e já teve inúmeras edições. É dos tais que o leitor pega e vai até o fim. Por quê? Porque não exige tradução. Já está traduzido. É um livro cheio de incorreções, com pronomes indecentemente colocados – mas certo.
- Como certo, se é incorreto?
- Certo, porque agrada a ponto de ser eternamente lido. Todos os anos aparecem edições novas do pedaço de livro de Manuel de Almeida. Ainda agora o Martins fez uma. Até eu já editei as MEMÓRIAS. Mas Manuel de Almeida com o seu romance certo não fez escola. Os romancistas que vieram depois mudaram de rumo. Veio, por exemplo, José de Alencar, com um viveiro de araras e graúnas e índios e até uma “virgem morena de lábios de mel”, que temos de traduzir para “índia dor de cuia, com beiço úmido de saliva”. Não há mel em lábios de ninguém, como não há lingüiça em focinho de cachorro. A fisiologia manda que a língua lamba imediatamente esse mel e o cachorro coma essa lingüiça. Mas Alencar tinha muito talento e era de fácil tradução. Ficou. Será sempre lido.
- E Macedo?
- Esse veio antes de Alencar e escreveu A MORENINHA. Ah, A MORENINHA! Li esse romance no colégio, escondido – e achei-o a coisa mais linda do mundo. Meu entusiasmo foi tanto que fiz todos os meus companheiros o lerem. Tivemos a nossa “Semana da Moreninha” no Instituto de Ciências e Letras, com seu Bernardes como vigilante no grande salão de estudo. Aquele austero moço já andava premeditando a presidência da República.
- Mas então julga A MORENINHA coisa boa assim?
- Não sei. Depois de adulto tentei lê-lo e não consegui. Pareceu-me um purgante. É que naquele tempo estávamos na idade. Há a idade do sarampo, das espinhas inexplicáveis, do primeiro amor, do começo do sexo. A MORENINHA não é literatura – é remédio...
- E os outros romancistas?
- Temo-los em quantidade. Temos um hoje excelente lá no sul. E tivemos o maravilhoso Machado de Assis, ponto culminante da nossa orografia literária e de grande circulação depois que se fez efígie de moeda. Mas de Machado de Assis nem gosto de falar porque para mim virou santo, virou Himalaia, tabu. É qualquer coisa à parte e única em todas as literaturas. Deixamo-lo no Olimpo, sozinho. Falemos dos outros, de tantos outros que levaram o estilo à maior perfeição e com isso acabaram errados.
- Não estou entendendo.
- Quem prova demais prova contra, diz um brocardo jurídico. O excesso de perfeição estilística faz na literatura o mesmo que as modernas máquinas de beneficiar arroz fazem para esse grão. Essas máquinas deixam o arroz uma beleza, de tão branco e polido. Transformam-no em bastõezinhos de nácar – mas quem se alimenta só com eles acaba com beribéri. (...)
- Acha então que a perfeição da forma levada ao absoluto é erro?
- Não é erro; ao contrário, é o supremo acerto – mas dá beribéri. Porque é alimento sem vitaminas. Parece que nisso de língua andamos erradíssimos. Há duas línguas, a falada e a escrita. A falada é que é a grande coisa, pois que é o meio de comunicação entre todas as criaturas humanas, afora a muda. A língua escrita veio depois, e é coisa restritíssima. Todas as criaturas humanas jogam com a língua falada, e quantas com a escrita? Uma porcentagem insignificante. Isso faz que a língua falada resida permanentemente no apogeu da expressão e do pitoresco, ao passo que a escrita se atrase a ponto de ficar uma coisa exigidora de tradução. É muito fácil a prova disto. Mande o Manuel ler qualquer coisa. Ele lê o que está escrito e depois, inconscientemente, diz: “Isto quer dizer que...” e explica em língua falada o que o escritor teve intenção de dizer. Traduz, portanto.
- Então a grande coisa do escritor é escrever como fala?
- Ah, se fosse possível! A arte da língua escrita é a tal “Inania Verba” do Bilac, mas quanto mais um escritor escreve como fala, mais lido e gostado. Ah, que maravilha os que escrevem com todas as vitaminas da língua que falam! Como é saudável e gostoso! Escrever com os “ma que!” dos italianos, com os “Que vá!” dos espanhóis, com pontapés na gramática sempre que ela se aproxima, escrever com caretas e gestos e até com perdigotos! Tudo isso são as películas do arroz literário, nas quais residem as vitaminas. E que faz o escritor de alto coturno? Olha com o maior desprezo para tais películas e as sacode do seu estilo como se fossem caspas...
Manuel Neto riu-se com alguma incredulidade.
- A correção da língua é um artificialismo, continuei episcopalmente. O natural é a incorreção. Note que a gramática só se atreve a meter o bico quando escrevemos. Quando falamos, afasta-se para longe, de orelhas murchas. Na linguagem falada, a não ser na boca dum certo sujeito – à vontade (e repetir a frase para restaurar uma concordância é pedantismo). Os pronomes arrumam-se como podem – antes ou depois, em baixo ou em cima, e muitas vezes nem entram na frase – são pequenininhos e as palavras grandes não os deixam entrar. Em oposição a essa língua fresquíssima, tão pitoresca, toda improvisações e desleixos, com todas as cores do arco-íris, todos os cheiros e todos os sabores, temos a língua escrita, emperrada, pedante, cheia de “cofos” e “choutos”. Ah, se toda gente escrevesse como fala, a literatura seria uma coisa gostosa como um curau que comi domingo no Tremembé. Esse Manuel de Almeida foi dos pouquíssimos entre nós que escrevia como falava...
- Pois a Sra. Dupré é assim, disse Artur, radiante. Talvez esteja nisso o segredo da sua atração.
- Segredo, segredo... Creio que o grande segredo é esse, ou 70 % esse. A enorme maioria dos nossos escritores não são lidos porque ou escrevem como Coelho Neto ou se procuram ser humanos, não sabem evitar a vulgaridade. As duas grandes desgraças da literatura são essas: o artificialismo e a vulgaridade. (5:47-51)
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Ver: LITERATURA BRASILEIRA 2 (10:10-11)
ROMANCISTAS 2 (17:11-12)


ROMANCISTAS
1. Os romancistas são os modernos fixadores dos aspectos transitórios da vida. Desenham as almas e os ambientes do caminho. Fazem a verdadeira história da aventura humana no planeta. Preparam os cortes anatômicos necessários aos estudos dos sociólogos a virem. Romance nenhum deixa de ser documento; na pior hipótese, documento da incapacidade estética do autor. Um gomo inteiro da vida ecológica da França está fixado na “Comédia Humana” de Balzac. Huxley está hoje fixando o drama da inteligência científica em choque com os encrostamentos da tradição. Wells vai além: transforma-se numa universidade viva e consegue alçar-se à profecia. The Shape of Things to Come realiza o milagre da introdução da matemática ha história. Wells soma os algarismos do passado com os do presente e dá os números – o bicho, a dezena, a centena e o milhar do futuro próximo. (7:228)
2. No concerto dos nossos romancistas, onde Alencar é o piano querido das moças e Macedo a sensaboria relambória dum flautim piegas, Bernardo é a sanfona. Lê-lo é ir para o mato, para a roça – mas uma roça adjetivada por menina de Sion, onde os prados são amenos, os vergeis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonorosos, as rolinhas meigas, Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse contar e reproduzisse as paisagens com os qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico da impressão pessoal. Vinte vergeis que descreva são vinte perfeitas e invariáveis amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas cor de jambo.
Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda a gente vê carrapatos, pernilongos, espinhos, Bernardo aponta doçuras, insetos maviosos, flores olentes.
Bernardo mente. (17:11-12)



S

SÁBIO
Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.
- Que é, vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.
Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os olhos, puxou-o para o seu colo e falou:
- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?
- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.
- E acha pouco, meu filho? Você vê uma metade do universo e acha pouco? Pois saiba que os astrônomos passam a vida inteira estudando as maravilhas que há nesse céu em que você só vê estrelinhas. É que eles sabem e você não sabe. Eles sabem ler o que está escrito no céu – e você nem desconfia que haja um milhão de coisas escritas no céu...
- Desconfio sim, vovó, mas fico nisso. Sou muito bobinho ainda.
- Bobinho como todos os grandes astrônomos na sua idade, meu filho. Os maiores sábios do mundo foram bobinhos como você, quando crianças – mas ficaram sábios com a idade, o estudo e a meditação.
Narizinho interrompeu o tricô para perguntar:
- Fala-se muito em sábio aqui neste sítio, mas eu não sei bem, o que é. Conte, vovó – e retomou o tricô.
Dona Benta, quando tinha de dar uma explicação difícil, tomava fôlego comprido, engolia em seco e às vezes até se assoprava resignadamente. Mas não falhava.
- Os sábios, menina, são os puxa-filas da humanidade. A humanidade é um rebanho imenso de carneiros tangidos pelos pastores, os quais metem a chibata nos que andam como eles pastores querem e tosam-lhes a lã e tiram-lhes o leite, e os vão tocando para onde convém a eles pastores. E isso é assim por causa da extrema ignorância ou estupidez dos carneiros. Mas entre os carneiros às vezes aparecem alguns de mais inteligência, os quais aprendem mil coisas, advinham outras, e depois ensinam à carneirada o que aprenderam – e desse modo vão botando um pouco de luz dentro da escuridão daquelas cabeças. São os sábios.
- E os pastores deixam, vovó, que esses sábios descarneirem a carneirada estúpida? – perguntou Pedrinho.
- Antigamente os pastores tudo faziam para manter a carneirada na doce paz da ignorância, e para isso perseguiam os sábios, matavam-nos, queimavam-nos em fogueiras – um horror, meu filho! Um dos maiores sábios do mundo foi Galileu, o inventor da luneta astronômica, graças à qual afirmou que a Terra girava em redor do Sol. Pois os pastores da época obrigaram esse carneiro sábio a engolir a sua ciência.
- Por quê, vovó?
- Porque a eles pastores convinha que a Terra fosse fixa e centro do universo, com tudo girando em redor dela.
- Mas por que queriam isso?
- Para não serem desmentidos, meu filho. Como os pastores sempre haviam afirmado que era assim, se os carneiros descobrissem que não era assim, eles pastores ficariam desmoralizados.
- Ficariam com caras de grandes burros, que é o que eles são – berrou Emília indignada.
Dona Benta suspirou.
- Ah, meus filhos, eu até nem gosto de pensar no que os sábios têm sofrido pelos séculos afora... Aquela coitadinha da Hipácia, por exemplo...
- Quem era ela, vovó? – quis saber a menina.
- Hipácia foi uma sábia grega nascida em Alexandria no ano 370. Não só muito culta, como de grande beleza. O pai educou-a muito bem e depois mandou-a aperfeiçoar-se em Atenas, que era a Paris do mundo antigo. De volta a Alexandria, Hipácia abriu uma escola onde ensinava as grandes idéias de Sócrates e Platão. Tornou-se queridíssima do povo, sobre o qual derramava ondas de sabedoria. Pois sabe o que aconteceu com a coitada?
- Casou-se e... – ia dizendo a Emília, mas Narizinho tapou-lhe a boca. – Que foi, vovó?
- Mataram-na! Um grupo de capangas, instigados por um tal Bispo Cirilo, atacou-a na rua, matou-a e esquartejou-a .
Os quatro coraçõezinhos ali presentes pulsaram de indignação. Dona Benta continuou.
- E a Sócrates, que foi um dos maiores iluminadores da ignorância dos carneiros, os pastores da época obrigaram-no a beber cicuta, um veneno horrível. E Giordano Bruno? Ah, este foi queimado vivo numa fogueira, no ano 1600 – sabem por quê? Porque era um verdadeiro sábio e estava iluminando demais a escuridão dos carneiros.
- Queimado vivo! – repetiu Narizinho com cara de horror. – eu nem consigo imaginar o que isso possa ser. Outro dia queimei o dedo na chapa do fogão – e doeu tanto, tanto... Imagine-se agora uma fogueira queimando a gente inteira – a pele, os olhos, os nariz, as orelhas, as mãos, tudo, tudo... – e a menina tapou a cara como para não ver a cena.
Dona Benta deu um suspiro.
- Pois, minha filha, contam-se por centenas de milhares os mártires da fogueira, e quase sempre por isso: enxergar mais que os outros e ensinar aos ignorantes. Por felicidade minha, eu vivo neste nosso abençoado século; se eu vivesse na Idade Média, já estava assada numa boa fogueira – e vocês também, pelo crime de terem aprendido comigo muita coisa. Até Quindim ia para a fogueira como feiticeiro, se os pastores soubessem daquele passeio gramatical que ele fez com vocês.
- E o Burro Falante, vovó? – perguntou Pedrinho.
- Também ia para a fogueira, meu filho. O simples fato de o nosso bom burro falar, já seria considerado crime merecedor de uma dúzia de fogueiras.
- E eu? – indagou a boneca?
- Você tem dito tantas heresias, Emília, que eles a queimavam numa vela até ficar reduzida a carvão, e depois moíam esse carvão e o assopravam aos ventos, de medo que a poeirinha se juntasse e vivesse outra vez.
- E hoje, vovó? – quis saber Pedrinho. – Por que é que hoje não há mais fogueiras para os sábios?
- Porque apesar de todas as perseguições os sábios foram abrindo a cabeça dos carneiros, e os carneiros já não deixam que os pastores queimem os seus mestres de ciência. Mas mesmo assim volta e meia um sábio vai para o beleléu, destruído pelos pastores. Não os queimam vivos, é verdade, mas prendem-nos em cárceres e às vezes até os fuzilam. Ou então perseguem-nos de outras maneiras, tornado-lhes a vida difícil. Em todo caso, já melhoramos bastante, e prova temos aqui em nós mesmos: estamos vivos! (20:18-21)


SAUDOSISMO
Conheces a Águia, revista portuguesa orientada pelo grupo que pretende criar a “Renascença Portuguesa?” Há uma história de saudosismo muito interessante. Querem os seus corifeus que seja toda uma filosofia nova. Portugal é a terra da saudade. Só o português sente saudades, pelo fato das muitas viagens por mar e da vida afastada da pátria. Isso criou no coração português um sentimento novo no mundo e único na espécie: a saudade. E malabarizam com isso e erigem o saudosismo às alturas de filosofia racial. É curioso – mas bobinho a valer. O papa do Saudosismo é um Teixeira Pascoais, poeta, pensador, filósofo, publicista, etc. Pascoais! Cheira-me a nome de guerra, se bem que não haja nome absurdo que não exista em Portugal. Num Almanaque de Lembranças encontrei uma respeitável matrona chamada D. Maria Encerrabodes! Se tens tempo a perder, corre os olhos na Águia, que é bem curiosa e revela qualquer comichão lá em Portugal – alguma urticária. Eles dizem que é movimento de idéias. Que seja Renascimento, duvido. Bisantinismo de decadência, isso sim. Não há Renascenças com panelinhas e programas e um papa... alvo à frente. (2:112-113)


T

TEMA
O livro que V. planeja sobre bandidos do sertão, capangas, etc., também é dos necessários. O assunto foi tocado pelo velho Bernardo Guimarães e outros – gente de pouco realismo, e de romantismo em dose maior que o quantum satis. O filão está virtualmente virgem.
Uma das vantagens do romancista brasileiro é poder lidar só com virgindades. Nenhum tema nosso tem “barriga suja”. A literatura faz pendant com a lavoura; ambas só lidam com matas virgens, terras virgens. Tudo está por fazer. Aqui em S. Paulo, quanto elemento de primeira ordem à espera dos Balzacs e Zolas, pedreiros que saibam assentar tijolos! A Terra Roxa, o caboclo queimador de mato, o bandoleiro avant coureur da civilização representada pelo colono italiano: o bandoleiro espanta o “barba-rala” e permite que o calabrês se fixe na terra grilada; a invasão italiana nas cidades – O Braz, e Bom Retiro; a fusão das raças nas camadas baixas – e na alta; o norte de São Paulo invadido pela decadência do Estado do Rio e a migração dos fortes para o Oeste... (1:316-317)
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Ver: ESCREVER 14 (4:254-255)


TÍTULO
1. Não conheço o teu Filha. Filha do que? Eu se fosse você, transformava-o em romance histórico. A Filha do Conde de Bobadela, por exemplo. O público prefere ler coisas de condes, duques, príncipes, reis e magnatas, em vez de aventuras e vidinhas miseráveis como a do M. J. Gonzaga de Sá. Aquele livro do Lima Barreto encalhou por causa disso. Que importa a alguém a vida dum M. J. Gonzaga de Sá que ninguém sabe quem é, nem quer saber? O público reclama coisas e tipos diferentes dos que vê em redor de si – e é natural. Que me interessa um romance sobre a vida da minha cozinheira, se a tenho de aturar em pessoa todos os dias? Podemos fazer uma coisa, Rangel: refazer nossos livros! Nobilitar nossos personagens! Você transforma o Zé Coreto em Barão do Onyx e eu faço do Jeca Tatu um conde do papa.
Você nunca soube batizar o que escreve, Filha!... Quem no mundo comprará um livro com esse nome? Filha tem-se, não se compra. Na velha companhia mudei muito título. Punha de preferência um nome feminino, porque, em cheirando a mulher lá dentro, os leitores concupiscentes compram “para ver”. Editar é fazer psicologia social.
2. O teu livro sai pouco, sabe por quê? O título! O título não é psicologicamente comercial. Um bom título é metade do negócio. Ao ler o título do teu romance toda a gente supõe que é a biografia de... um ilustre desconhecido. (13:42)


TRADUÇÃO
1. Gosto imenso de traduzir certos autores. É uma viagem por um estilo. E traduzir Kipling, então? Que esporte! Que alpinismo! Que delícia remodelar uma obra d’arte em outra língua! Estou agora a concluir um Jack London, que alguém daqui traduziu massacramente. Adoro London com suas neves do Alasca, com o seu Klondike, com os seus maravilhosos cães de trenó.
Ando a fiscalizar as traduções para o Otales, e bom dinheiro perde ele com essa fiscalização! Mas, faça-se-lhe justiça: perde-o com prazer. Prefere perder dinheiro a enfiar no público uma tradução que eu condene. Que outro editor faz isto? Já perdeu assim mais de vinte contos este ano. E o público enguliria do mesmo modo todas as infâmias condenadas, porque o público é o maior boeiro do mundo. Eu às vezes até me revolto, de dar à bola em certos trechos de difícil tradução, ao lembrar-me do que é a média do público. Mas sou visceralmente honesto na minha literatura. Duvide quem quiser dessa honestidade. Eu não duvido. Nem você. (2:327-328)
2. Traduzir não é comer empadinha de camarão. Traduzir é transpor um pensamento expresso na língua do autor por meio dum correlativo expresso na língua do tradutor. E para isso a condição básica é que o tradutor maneje a sua língua com a correção e elegância que a apresentação tipográfica diante do público exige. Mas na amostra da tradução que você me deu “para ver”, o que vi foi língua do Rio Grande em lata, e de nenhum modo língua portuguesa. As palavras são portuguesas, mas enfileirar palavras portuguesas sem a ordem e a elegância gramatical não produz língua portuguesa – produzirá língua do Rio Grande, e inferior à do Leal Santos, porque não é comestível. (4:121)
3. A interpretação literária é o que há de mais profícuo na aproximação dos povos. Só ela suprime as muralhas que a estupidez dos governos ergue. Só ela demonstra que somos todos irmãos no mundo, com as mesmas vísceras, os mesmos defeitos, os mesmos ideais. Se a França tornou-se amada entre nós a ponto de bombear Damasco e esmagar Abd-el-Krim sem que isso arrepie as fibras da indignação, deve-se aos senhores Perrault, La Fontaine, Hugo, Maupassant, Taine, Anatole e quantos mais nos trouxeram para aqui esta sensação da irmandade do homem. Se a Alemanha não se gozou de idênticas simpatias é que víamos os atos de violência dos seus homens de governo e não havia dentro de nós, para atenuar-lhes a repercussão, o coxim de veludo da literatura alemã, bem absorvida como temos a francesa.
Grande serviço, pois, prestam aos povos esses homens beneméritos que trabalham na difusão da literatura alheia em seus próprios países. Estão a preparar os preciosos coxins de veludo, amortecedores dos choques. Criam a compreensão e a tolerância. Demonstram, com a exibição de documentos humanos, que somos iguais, todos filhos do mesmo macaco que rachou a cabeça ao cair do pau. (6:164-165)
4. Traduzir é a maior das tragédias mentais, porque é anular-se um homem da maneira mais absoluta, subordinar sua mentalidade à dum estranho, penetrar um autor como um gás penetra poros, compreende-lo nas mais microscópicas minúcias, decifra-lo no que é indecifrável. E tudo isso sem recompensa de espécie nenhuma, sem nenhuma paga séria, sem nenhum resquício de glória. Esse incomensurável paquiderme de mil cérebros e orelhas a que chamamos “público” nunca tem o menor pensamento para o mártir que estupidamente se sacrifica para que ele possa ler em língua sua uma obra-prima gestada em idioma estranho. (6:253)
5. Os nomes que vimos pela primeira vez como tradutores perdem o prestígio quando o vemos como autores. Há em nós a vaga impressão de que quem traduz não pode criar. (7:50)
6. A tradução literal, isto é de absoluta fidelidade à forma literária em que, dentro de sua língua, o autor expressou o seu pensamento, trai e mata a obra traduzida. O bom tradutor deve dizer exatamente a mesma coisa que o autor diz, mas dentro da sua língua de tradutor, dentro da sua forma literária de tradutor; só assim estará realmente traduzindo o que importa: a idéia, o pensamento do autor, Quem procura traduzir a forma do autor não faz tradução – faz uma horrível coisa chamada transliteração, e torna-se ininteligível... (7:118)
7. Entre os aspectos novos que o movimento editorial criou nestes últimos tempos cumpre assinalar a fúria tradutora. Começou-se em São Paulo a traduzir intensamente e o movimento estendeu-se a outros estados onde também se editam livros, como o Rio Grande.
Começou-se... Sim, começamos agora. Até bem pouco tempo o Brasil só conhecia em traduções Escrich, Ponson du Terrail e Alexandre Dumas. Positivamente só. Jornais gravíssimos davam e redavam em rodapé os romances populares desses autores – e alguns mais avançados inovavam com Heitor Malot e Zamacois e mais coisas. Mas só traduzíamos do francês e do espanhol.
A literatura inglesa, tão rica de monumentos, era como se não existisse. A alemã, a russa, a escandinava, idem. A americana, idem. Um dia um editor inteligente teve a idéia de arejar o cérebro dos nossos eternos ledores de escrichadas e ponsonadas. Aventurou-se a lançar no mercado Wren, Wallace, Bourroughs, Stevenson, e que tais. E foi além. Lançou alguns dos sumos: Kipling, Jack London – e já pensa em Joseph Conrad e Bernard Shaw.
A surpresa do indígena foi enorme. Sério? Seria possível que houvesse no mundo escritores maiores que Escrich e Dumas? Que fora da França e da Espanha houvesse salvação?
Era sim. Havia salvação e o mundo mental revelado pelos livros fez abrir a boca à nossa gente. Foi com verdadeira avidez que o público se atirou às traduções, fazendo que as tiragens se sucedessem num elance imprevisto. Basta dizer que o Rosário de Florence Barclay alcançou uma saída de cinqüenta milheiros, suponho.
A novidade era absoluta. Livros arejados, cinematográficos, de cenário amplíssimo – não mais a alcova de Paris. Almas novas e almas fortes, violentíssimas, caracteres shakespeareanos, kiplinguianos, Jacklondrinos – novos, fortes, sadios. E deliciado com tanto novo, o público passou a pedir mais, mais, mais, até que se saturou, ou antes, que os editores saturaram o mercado.
Só então os leitores começaram a dar tento ao mérito das traduções. Foi verificando que com a pressa de apresentar novidades os editores descuravam da qualidade, dando inúmeras traduções perfeitamente infames. E o público reclamou, ao mesmo tempo que vários autores indígenas bradavam contra o fato de se traduzirem autores de fora enquanto eles permaneciam inéditos.
Realmente era um desaforo. Dar Kipling, Jack London, Dickens, Tolstoi, Chekow e outros quando poderíamos dar Almeidas, Sousas, Silvas, etc. Dar o Lobo do Mar, de Jack London em vez da Mulatinha do caroço no Pescoço do senhor Coisada Pereira, que é grande gênio literário do Pilão Arcado, onde vive pálido como cera e todo caspas. E eles apelaram para o governo. Em Pilão Arcado, governo ainda é palavra mágica.
Quanto à reclamação do público, os editores estudaram o caso e verificaram que havia razão na queixa. Traduzir é a tarefa mais delicada e difícil que existe, embora realizável quando se trata da passagem de obra em língua da mesma origem que a nossa como a francesa ou a espanhola. Mas traduzir do inglês, do alemão ou do russo, equivale de fato a quase absurdo. Ocorrerá fatalmente uma desnaturação.
Se a tradução é literal, o sentido chega a desaparecer; a obra torna-se ininteligível e asnática, sem pé nem cabeça, o que não se dá com uma tradução literal do francês ou do espanhol.
A tradução tem que ser um transplante. O tradutor necessita compreender a fundo a obra e o autor, e reescreve-la em português como quem ouve uma história e depois a conta com palavras suas.
Ora isto exige que o tradutor seja também escritor – e escritor decente. Mas os escritores decentes, que realmente são escritores, isto é, que possuem o senso inato das proporções, esses preferem e têm mais vantagens em escrever obras originais de que transplantar para o português obras alheias. Os editores pagam menos e o público não lhes reconhece o mérito. Daí um impasse.
Mas o caminho é esse. Os editores têm que resignar-se a sacrificar a quantidade de traduções pela qualidade; e têm de procurar por todos os meios descobrir bons tradutores. Nos países mais civilizados a função do tradutor está equiparada à do escritor. Vemos Baudelaire receber em França tantos aplausos pelas suas traduções de Edgard Poe como pelos versos. E ainda agora no “Mercure de France” há várias páginas de necrológio sobre o recém-falecido Luiz Fabulet, cuja atividade literária se resumiu a transplantar para o francês a obra inteira de Rudyard Kipling.
Os tradutores são os maiores beneméritos que existem, quando bons; e os maiores infames, quando maus. Os bons servem à cultura humana, dilatando o raio de alcance das grandes obras. Baudelaire e Fabulet, por exemplo, dilataram o raio de alcance da obra de Poe e Kipling, tornando-a acessível ao mundo latino ou pelo menos à parte do mundo latino que joga com a língua francesa. Sem eles ou sem outros que fizessem o mesmo, Poe e Kipling ficariam limitados ao mundo inglês.
A literatura dos povos constitui o maior tesouro da humanidade, e o povo rico em tradutores faz-se realmente opulento, porque acresce a riqueza de origem local com a riqueza importada. Povo que não possui tradutores torna-se povo fechado, pobre indigente, visto como só pode contar com a produção literária local.
Quatro línguas já merecem o nome de universais – a inglesa, a espanhola, a francesa e a alemã, porque nela já se acha vertido tudo quanto todos os outros povos produziram de primacial. Dentro delas um homem tem ao alcance pelo menos a nata do grande tesouro. Já a nossa língua, língua de pobre, só teve até bem pouco tempo o que o homem de Portugal e do Brasil produziu – bem pouco. O grande tesouro comum da humanidade nos era inacessível na nossa língua – e daí a necessidade para os cultores de estudarem outros idiomas.
Toda a antiguidade greco-romana ainda nos está fechada. Não temos a nossa tradução de Homero, de Sófocles, de Heródoto, de Plutarco, de Ésquilo. Como não temos Shakespeare, nem Goethe, nem Shiller, nem Molière, nem Rabelais, nem Ibsen. Falta-nos quase tudo, e isso por causa da vida indigente que ainda é a nossa. Sem enriquecimento material, sem desenvolvimento econômico, um povo não pode enriquecer-se espiritualmente.
Bem consideradas as coisas, um homem que apenas conheça o português fica com o seu horizonte espiritual deveras trancado. A norte limita-se ele com Herculano, Camilo, Castilho e a récua dos freis quinhentistas absolutamente vazios de idéias; a sul limita-se com Eça, Ramalho, Antonio Nobre, Fialho, etc; a leste limita-se com Machado de Assis, Nabuco, Euclides da Cunha, José de Alencar; a oeste com imortais da Academia de Letras e alguns iconoclastas do futurismo. Com tantos limites, o pobre diabo acaba sentindo-se numa verdadeira prisão mental.
Daí a avidez com que a nossa gente unilingüista se atirou às traduções dos romances ingleses e russos dados pelos editores atuais. É a avidez de ar, de luz, de amplidão, de horizontes. Recebe essas obras como outras tantas janelas abertas numa prisão escura. E, pois, benditos sejam os editores inteligentes que descobrem bons tradutores, e malditos sejam os que entregam obras primas da humanidade ao massacre dos infames “tradittores”. (7:125-130)
8. Há muitas maneiras de ler. Talvez que a mais profunda seja a de quem verte um livro para outra língua. O tradutor é um escafandrista. Mergulha na obra como num mar; impregna-se dum pensamento concretizado de um certo modo – o estilo do autor – e lentamente o vai moldando no barro de outro idioma, para que a obra não admita fronteiras. Sem esses abnegados trabalhadores, a literatura ficaria adstrita a pátrias, condenada a limites muito mais estreitos do que os permitidos pela sua potencialidade.
O homem de uma só língua, que entra na biblioteca e pode ler o Banquete de Platão, os pensamentos de Confúcio, os Anais, de Tácito, a Viagem Sentimental de Stern, o Fígaro de Beaumarchais, a Guerra e Paz de Tolstoi, o D. Quixote, o Coração de Amicis, o Fausto e tanta coisa, admira os autores mas não tem uma palavra para a formiga humílima – o tradutor – graças à qual aquelas obras lhe caíram ao alcance.
Para o tradutor não haverá nunca remuneração econômica, nem glória, nem sequer a gratidão dos homens; só há insultos quando não faz o trabalho perfeito. Não obstante, a coisa suprema do mundo mental: universalização do pensamento – é obra deles. (9:237)


V

VOCÁBULOS
1. Quanto ao que propões sobre o português – interessante! – era o que eu ia propor-te nesta. Você foi o primeiro a alcançar o pólo, como Amundsen. Mandei vir o dicionário de Aulete, que ainda é o melhor, e estou a lê-lo. Aventura esplêndida, Rangel! Os vocábulos são velhos amigos nossos que pelo fato de diariamente nos acotovelarem no brouhaha da Língua, não nos merecem a atenção curiosa e indagadora que damos às palavras estrangeiras. Pelo fato de freqüentar um parente, você chega ao ponto de não poder descrever-lhe a cara – e no entanto é capaz até de desenhar de memória a cara dum estranho que vi ontem. Deixam de nos impressionar as coisas habituais. Daí o valor da leitura de dicionários. Todo o povo tumultuoso da praça pública da Língua lá o encontramos individualizado, como soldados em quartel, cada um com o seu número, o seu posto, perfilados e obedientes quando os defrontamos. Na rua vemos passar cavalos. No dicionário encontramos um CAVALO. “Quem é você?” E ele muito sério: “...substantivo masculino. Quadrúpede doméstico, solípede; ramo ou tronco em que se enxerta; banco de tanoeiro, etc., etc”. A gente regala-se com o mundo de coisas que o cavalo é, e muitas vezes também nos regalamos com as cavalidades do dicionarista. Se o cavalo é um “quadrúpede doméstico”, como se arranja o dicionarista para denominar um equus selvagem? E vamos assim mentalmente retificando aqui e ali o dicionário, enquanto ele nos faz o mesmo aos inúmeros pontos vocabulares em que claudicávamos sem o saber. Quantos novos sentidos de palavras, das quais sabíamos um só? Quanta construção bonita de frase, com forma intransitiva de verbos habitualmente transitivos? E as antigualhas merecedoras de restauração? Que deleite seguir em mente a evolução dum vocábulo! Ver, por exemplo, agora sair de hac hora, como a borboleta sai da crisálida; e preto sair de pyraites (queimado, como sai preto o papel branco depois que o fogo o queima). E caravansará sair do persa Karvan sarai. Essa leitura nos vai dando firmeza, com o conhecimento da exata propriedade dos vocábulos.
Euclides da Cunha foi um grande ledor de léxicos. Nos Sertões eu notei como ele fugia à vulgaridade sem cair nos abstruso, por meio do emprego de palavras que o jornalismo não estafou (porque a cachomorra que achata todas as palavras da língua é sempre o jornalismo). Em vez de prematuro, imaturo. Implexo, por complexo, etc. uma variação dos prefixos habituais da imprensa – e a frase fica mais fina, toda petulante de distinção. A desgraça em tudo é a vulgaridade – o “toda-gente”.
Estou lendo e marcando as palavras úteis para o meu caso, os sentidos figurados aproveitáveis nesta “nossa” literatura, etc. ainda estou no “A” e já tenho belos achados. É um verdadeiro mariscar de peneira. Deves fazer a mesma coisa, e depois trocaremos as notas. (1:239-241)
2. Meu processo é outro: quando topo palavra que desconheço ou conheço mal, ou que também se usa em sentido diferente do familiar, anote-a com toda a frase em que está metida, frase em que lhe entremostra a significação e a propriedade. Assim, já de começo o espírito pode utilizar-se da aquisição – é uma espécie de apresentação da nova personagem à inteligência, e passo primeiro para a familiarização entre ambos e conseqüente assimilação. Anotar apenas a palavra é perda de tempo; só a mão lida com ela, e o faz maquinalmente, como copista automática que obedece a uma ordem do cérebro; este não trabalhou para a fixação da novidade, limitou-se apenas a dar ordem à mão para que a grudasse no papel.
Já percorri este ano as primeiras 700 páginas do Aulete e breve chegarei ao fim, porque está me agradando o passeio. Mas depois do enriquecimento vocabular é preciso que aprendamos a bem gastar o acumulado, senão viramos nouveaux riches e insensivelmente nos metemos a ostentar riqueza vocabular. Machado de Assis é o mais perfeito modelo de conciliação estilística; seu classicismo transparece de leve e nunca ofende os nossos narizes modernos. Como vivemos neste século e neste continente, não podemos, sem uma hábil e manhosa tática, usar expressões lusitanas e de tempos já muito remotos. (1:258-259)
3. O que mais aprecio num estilo é a propriedade exata de cada palavra e para isso temos de travar conhecimento pessoal, direto, com todos os vocábulos, um por um, em demorada, pensada e meditada vocabulação dicionarística. Só pelo conhecimento exato do valor de cada um é que alcançaremos aquela qualidade de estilo.
E quando circunlóquio, quanto rodeio, esse conhecimento vocabular nos evita! Em vez de: “F. correu os olhos em torno da mesa” como fica melhor dizer: “F. circunvagou os olhos”. Mas no uso dum vocabulário abundante torna-se mister o mesmo hábil discernimento de boa aplicação que distingue os Camilos dos Camelos – dos camelos plumitivos à Macuco, o fundador do Profundismo... É necessário aprender a bem gastar, como faz o rico inteligente, que gasta simultaneamente em proveito próprio e alheio, não à moda do perdulário inepto. O Macuco aprendeu um dia a palavra “apropinquar” escreveu toda uma história só para ter ensejo de empregar dez vezes o grande achado – e aproprinquou-se mas foi das cocheiras do Brás.
Não conheço melhor modelo que Machado de Assis. Camilo ainda me choca, é muito bruto, muito português de Portugal e nós somos daqui. Machado de Assis é o clássico moderno mais perfeito e artista que possamos conceber. Que propriedade! Que simplicidade! Simplicidade não de simplório, mas do maior dos sabidões. Ele gasta as suas palavras como um nobre de raça fina gasta a sua fortuna e jamais como o parvenu, o upstart, que começou vendeiro de esquina e acabou comprando um título de barão do papa.
Os Macucos adquirem vocabulário unicamente para fazer alarde da “riqueza vocabular”; os Machados, para da riqueza reunida só gastarem os juros. E, pois, espero terminar meu passeio pelo país dos vocábulos para em seguida retomar a tarefa dos contos. (1:263-264)
4. Mandei vir Noites de Insônia, de Camilo, 12 volumes, e ainda apanhei uns em Taubaté. E leio anotando os jeitos. Palavras novas não me interessam. A grande coisa não é possuir montes de palavras; se assim fosse, um dicionarista batia Machado de Assis. É saber combinar bem a palavras, como o pintor combina as tintas e o músico o faz às notas. Beethoven só dispunha de sete notas – e com elas abalou o mundo. Corot só jogava com as sete cores do arco-íris, que aliás são três. Dêem cem notas a mim, que sou um cretino em música, e dêem duzentas cores ao Jonas de Barros, que é em pintura o que sou na música, e não sai nada!. (1:273)
5. Voltam as tuas notas. Não é bom o sistema de colher pétalas de flores, em vez da flor inteira e com cabinho. Quem quer apenas vocábulos exóticos ou raros, não precisa ler autores, é ler o Aulete. Lá estão todos, e já anotadinhos. Adote o meu processo, que é o único. (1:274-275)
6. Na tua carta levas ao extremo o estudo camiliano. Leva-lo ao extremo de esfarela-lo num glossário metodicamente disposto para a rebusca de frases feitas. Condenas aquele meu terreirinho limpo caiam as sementes que o vento traz. Com o teu sistema de glossário, sabe o que acontece? Tornamo-nos uns Camilos enfezados, uns puros camelinhos, quando o que eu quero é que de Camilo tu saias mais Rangel do que nunca e eu saia bestialmente Lobato – embora sem as brocas e lagartas para as quais o melhor veneno é justamente Camilo.
O meu processo é anotar as boas frases, as de ouro lindo, não para rouba-las ao dono, mas para pegar o jeito de também tê-las assim, próprias. Dum de seus livros extraí 60 frases de encher os olhos. Não releio mais esse livro – não há tempo – mas releio o compendiado, o extrato, e aspiro o perfume e saboreio. Formo assim um florilégio camiliano do que nele mais me seduz as víceras estéticas. E não discuto nem analiso, porque seria fazer gramática, do mesmo modo que não analiso botanicamente um cravo ou uma gostosa laranja mexeriqueira. Cheiro um e como a outra.
Resumindo: meu plano é ter uma horta de frases belamente pensadas e ditas em língua diversa da língua bunda que nos rodeia e nós vamos assimilando por todos os poros da alma e do corpo. Um jardim de flores simpáticas à nossa estesia inconsciente. No meu passeio pelas Vinte Horas de Liteira apanhei isto: Um corujão berrou no esgalho seco de um sobro. Detive-me; fiz pouso nessa frase enchedora de olhos e ouvidos. E não anotei, porque anotada ficou para sempre em meu cérebro. Não a analiso, não a comento; ponho-a apenas em uma lapela do cérebro, como pus naquele prego um ninho de beija-flor encontrado no barranco. Se Camilo houvesse dito: Uma coruja piou no galho seco de uma árvore, eu teria deixado no barranco esse ninho de beija-flor. O “berrou” é que me seduziu. Toda vida, para toda gente, as corujas piam – só em Camilo aparece uma que berra. Lindo!
Filosofando: coletar modos de dizer, jeitos de expressão afins com esse misterioso quid que me leva a olhar com enlevo para os brincos-de-princesa que vejo pela janela, e com arrepios de asco para uma barata que apareça. E isso apesar de ciência que há dentro de mim dizer que ambos brincos-de-princesa e barata, são duas prodigiosas obras-primas da Natureza.
O para que te convido não vai mais longe desse alegre varejar por Camilo e outros a dentro, saindo de seus livros como quem sai dum jardim, com a braçada de flores que nos caíram no goto. E enfeitarmos com elas o nosso ambiente de trabalho. Pendurá-la pelos pregos, como ao ninho de beija-flor – em vez de herborizá-las num glossário. (Esta palavra me fede). E de vez em quando olharmos os “pendurados”. E sentirmos-lhes o aroma. A velha boemia cenacular, em suma. Nosso estilo – nosso nariz literário – fica assim num banho-maria ambiente. (2:7-9)
7. O negócio de anotar Camilo só convém nas sobre-excelências; do contrário é copiá-lo inteiro. Livro há em que ele é uma roda de fogo de artifício, a chispar fagulhas do começo ao fim. Não cuidemos de quantidade, nem façamos disso tarefa. O meu sistema é lê-lo com atenção e marcar à margem as frases que me encantam e me aproveitam. Depois de terminada a leitura, encosto o livro: mais tarde abro-o e releio as coisas assinaladas – e copio num caderno as que ainda me impressionam. (2:13)
8. Estou convencido de que o vocábulo fora de moda, fóssil ou raro, é “pedra” de banana-maçã. (2:44)
9. Há homens que influem até no vocabulário dos países. Depois de Euclides da Cunha, a palavra “estupendo” passou a ter no Brasil um consumo triplicado – e um sentido euclideano. Não há estupendos em José de Alencar; não há um só estupendo em Machado de Assis. A língua literária no Brasil enriqueceu-se desse adjetivo depois de Euclides – o Estupendo, revelou o estupendo de certos contrastes da nossa tragédia geológica e humana. (6:249)
10. – No alto temos uma cafetíria. Procure dominar o estômago.
- Por falar em “cafetíria”, Mr. Slang – sabe, por acaso, como se formou essa palavra? Vejo a América inteira coberta de “cafetírias”, que todos os brasileiros recém-chegados teimam em pronunciar à brasileira – cafeteria.
- Formou-se como se formam todas as palavras – por necessidade. Um sujeito de New York abriu certo dia um restaurante dum tipo novo lá imaginado por ele. Como não fosse restaurante igual aos outros, vacilou em dar-lhes este nome. Como vacilou em dar o nome de café, porque um café é outra coisa. Em vez de consultar alguma academia de letras esse homem compôs ele mesmo a palavra necessária, tomando como ponto de partida o café. Mudou o final da palavra para indicar que era café e mais alguma coisa, saiu “cafetíria”, como poderia ter saído outra barbaridade semelhante. Conduziu bem a casa, teve sucesso comercial. Abriu outra, atribuindo ao nome pintado na tabuleta alguma virtude mágica. Venceu. Prosperou. Foi imitado – e temos assim a América inteira coalhada de caf’tírias – o restaurante onde o freguês se serve a si próprio. Ignoro como o inventor da palavra a pronunciava; talvez fosse como vocês recém-chegados querem. Mas o freguês americano passou logo a pronunciá-la de acordo com o gênio da língua do país – caf’tíria, e assim ficou. (15:51-52)
..............................................................................................

Ver: LÍNGUA 8 (8:101-107)

_____________________________________________________________



BIBLIOGRAFIA


(1) LOBATO, J.B. Monteiro. A Barca de Gleyre – tomo 1. 3 ed das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 367 p.

(2) ____________________. A Barca de Gleyre – tomo 2. 3 ed das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 363 p.

(3) ____________________. Cartas Escolhidas – tomo 1. O . C., São Paulo, Brasiliense, 1959. 358 p.

(4) ____________________. Cartas Escolhidas – tomo 2. O . C., São Paulo, Brasiliense, 1959. 280 p.

(5) ____________________. Prefácios e Entrevistas. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 311 p.

(6) ____________________. Na Antevéspera. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 310 p.

(7) ____________________. Mundo da Lua e Miscelânia. 3 ed. das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 338 p.

(8) ____________________. A Onda Verde e O Presidente Negro. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 330 p.

(9) ____________________. Conferências, Artigos e Crônicas. O. C., São Paulo, Brasiliense, 1959. 349 p.

(10) ____________________. Críticas e Outras Notas. O. C., São Paulo, Brasiliense, 1965. 242 p.

(11) ____________________. Literatura do Minarete. O. C., São Paulo, Brasiliense, 1959. 331 p.

(12) ____________________. Monteiro Lobato Vivo; seleção e organização de Cassiano Nunes, Rio de Janeiro, MPM Propaganda – Record, 1986. 305 p.

(13) CAVALHEIRO, Edgard. A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto. Rio de Janeiro, MEC – Serviço de Documentação, 1955. 71 p.

(14) LOBATO, J. B. Monteiro. Mr. Slang e o Brasil e Problema Vital. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 340 p.

(15) ____________________. América. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 311 p.

(16) ____________________. Idéias de Jeca Tatu. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 275 p.

(17) ____________________. Cidades Mortas. 3 ed. Das O . C., São Paulo, Brasiliense, 1950. 272 p.

(18) Boletim Bibliográfico – Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Nº XXXII, São Paulo, Prefeitura do Município de São Paulo, out./nov./dez. 1972. 176 p.

(19) LOBATO, J. B. Monteiro. Reinações de Narizinho. S. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s.d., 310 p.

(20) ____________________. Viagem ao Céu e O Saci. S. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 254 p.

(21) ____________________. Caçadas de Pedrinho e Hans Staden. S. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 186 p.

(22) ____________________. História do Mundo para as Crianças. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 300 p.

(23) ____________________. Memórias da Emília e Peter Pan. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 194 p.

(24) ____________________. Emília no País da Gramática e Aritmética da Emília. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 296 p.

(25) ____________________. História das Invenções e Dom Quixote das Crianças. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 312 p.

(26) ____________________. Histórias de Ti Nastácia e O Pica-Pau Amarelo. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d., 304 p.

(27) ____________________. A Reforma da Natureza e O Minotauro. s.ed., São Paulo, Círculo do Livro, s.d., 302 p.

(28) ____________________. A Chave do Tamanho e Fábulas. s. ed., São Paulo, Círculo do Livro, s. d.

_____________________________________________________________

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   paulo albuquerque jornal cocktail 
ual...esse testo é profundo..concordo com td esse!    



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