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Textos_Religiosos-->CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU -- 11/04/2018 - 18:26 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos





O  sol parece se pôr,  e não se punha..



 O vermelho-azulado assemelhava-se ao crepúsculo da última hora e à aurora do  último dia. Um bando de pássaros voavam sobre a cabeça do visitante das estrelas. Algumas espécies conhecidas. Outras, nunca vistas na Terra.. Ariano   passou a mão em seu  corpo. Não sangrava, não doía... Cenas do juízo particular desfilaram em sua mente: 



 



Viu sete anjos e sete candelabros em volta de suntuoso trono. No meio dos candelabros, alguém semelhante ao Filho do homem, dizia: ‘Vai e toma o pequeno livro aberto da mão do anjo que está sobre o mar e profetiza de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis.' 



 



 Olhou para baixo e viu traficantes disparem saraivada de tiros contra pessoas que bebiam numa barraca de esquina na rua Ceará em Vila Mimosa. A polícia conta os mortos: sete.  Alguns  sem documentos foram reconhecidos por prostitutas como sendo o índio Arualdo Tupixá. Turíbio Soberbo, e Capistrano. Também o coronel Hostilio Habran estava morto.







O índio  Arualdo  fugia da perseguição de  um ajo torto, que queria arrastá-lo para as profundezas do abismo. Mas,  em seu socorro, um homem chamado  Juan, pegou-o pelo braço e o levou a uma mulher, com feições indígenas.



— Virgem de Guadalupe, este é teu filho, disse Juan.



—  A Mulher colocou seu manto sobre a cabeça de Arualdo, e quando ele despertou, ouviu o som de música celestial. Anjos enfileirados formavam o corredor de entrada, e em coro, entoavam cânticos de louvor a Deus.



A porta era  estreita, e ao lado dela, um ancião controlava o acesso, girando uma chave, ora para a esquerda, ora para a direita, de modo a abrir a porta ou fechá-la conforme o sentido que girava a chave.  O homem grisalho perguntou:



—Quem é você?



— Caburé.



—Diga seu nome de batismo.



— Arualdo.



A porta se abriu.



 — Entre. Disse São Pedro. 



— Juan, quem é este outro?



— É o padre Davi. Ele tem proteção e recomendações expressas da Virgem Imaculada.



— Mande entrar.



Cavalgando um jumento, chega vindo das bandas da Paraíba, um homem magro, com ar de intelectual. Desce da montaria e se senta na pedra do reino.



— Levante daí, disse Juan.



— Oxente! Fui avisado de que minha festa dos noventa é aqui.



— O Senhor ficou três anos procurando o caminho. Foi chamado aos oitenta e sete. Está atrasado.



— Deus vos salve relógio que anda atrasado, no cumprimento do ofício, porque serviu  de sinal ao Verbo Encarnado — disse Ariano.



 



São Pedro riu.





— Amarre esse  jumento  com cara de conquistador, lá fora e pode entrar. A Compadecida já mandou preparar o banquete. São muitos convidados. 



Ariano levou muito tempo cumprimentando um por um. Até o cangaceiro veio-lhe render homenagem. O padeiro fez questão de que a o convidado experimentasse o pão do céu. João Grilo tocou gaita e Chicola dançou,  fazendo graça. Padre Davi ficou calado. De longe, acenou com a mão. Estava acompanhado de muitos fiéis da Igreja, bem como de alunos  e professores do Marista. Todos sentados em torno de  uma enorme  mesa, como se estivessem numa reunião do Conselho de Classe. Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça. Três homens que tinham uma só feição e um só rosto, aproximaram-se dos recém-chegados. Também sentada no trono, ao lado do Filho, estava a Rainha.

Terminada a ceia, Davi foi convidado por seu anjo da guarda a passear no jardim. Passou por um corredor estreito que dava acesso a uma grande sala, onde a assembleia dos justos participava da mesma  ceia, embora em pontos que pareciam diferente, se fossem vistos pelo olho humano.

A mesa assemelhava-se ao altar do grande sacrifício e dela saia um feixe de luz que iluminava toda a Terra. Depois disso, o padre viu uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se de pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão. Em seguida, ouviu-se um coro de anjos que dizia:  ‘Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do universo. Os céus e a terra proclama vossa glória. Hosana nas alturas’. 





Arualdo  entendeu o que ouvira antes e lhe parecera obscuro, de modo que,  quando ouviu novamente  o padre Davi explicar que  Deus abençoou Noé e seus filhos; Arualdo pensou as feridas  de sua  alma marcadas pela unha dos tatus que abateu e trocou na mercearia por uma dose de cachaça. Repetia  em sua mente as palavras lidas no livro sagrado: ‘Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento’.— Não pequei — disse em voz alta — Não cometi pecado por caçar tatu. E não permitiu mais que sua consciência o acusasse. No entanto, não compreendeu, por que na Lei dos homens é proibido matar animal selvagem, e é permitido sacrificar uma criança no ventre da mãe. 







Acompanhou o padre na caminhada pelo Jardim do Éden, e enquanto conversavam, afastaram-se dali, em direção a um campo aberto. 



—  Então, Noé colocou animais na arca para alimentar-se deles?


— Ora, Arualdo! Tudo que se move e possui  vida  vos servirá de alimento, não significa que os animais foram colocados na arca para serem comidos por Noé e seus filhos. Examinemos cada coisa em seu contexto. Os bichos  entraram na arca para não serem exterminados pelo dilúvio.





***


 



Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou."



 



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A POMBA COM O RAMO NO BICO



 


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